Viajar no tempo sem sair da ilha

Entre os dias 13 e 17 de julho realizou-se a 11ª edição da Feira Quinhentista, na cidade da Ribeira Grande e o Diário da Lagoa (DL) foi até ao concelho vizinho. Ao final da tarde, o ambiente era de mística e suspense, o clima de festa que faz prever que algo estaria para acontecer 

A Feira Quinhentista regressa de 12 a 16 de julho de 2023 © CMRG

Ainda antes de passar a estrutura que está montada à entrada do largo Hintze Ribeiro e que funciona como porta de acesso ao mundo medieval, o  DL encontrou um grupo de quatro jovens que alegremente exploravam um pequeno negócio de venda de bebidas. “Pela primeira vez viemos à Ribeira Grande vender as nossas Piña Coladas. A Piña Colada é uma bebida com abacaxi, leite de coco e rum, ou não. Daí a Piña Colada virgem ou a Piña Colada Fun”, explica Júlia, uma das funcionárias do AZ Cocktails, um negócio que começou no continente português, perto da Ribeira das Naus, em Lisboa. Está agora pela primeira vez na Ribeira Grande, uma vez que a proprietária também já tinha ligações ao concelho. “Gostávamos muito, tínhamos muita vontade de estar na feira mas só nos surgiu a oportunidade deste espacinho e estamos a aproveitar, agradecemos imenso”, conclui Júlia.

A pequena banca de venda de bebidas é apenas um exemplo dos vários negócios existentes no interior e exterior da Feira Quinhentista, este ano inspirada nos 500 anos do nascimento do historiador Gaspar Frutuoso. Um pouco por toda a parte, veem-se barracas de hambúrgueres e cachorros quentes, mas também porco no espeto, bifanas e asinhas picantes. É o caso da banca explorada por Artur Ferreira, 47 anos, e que há quatro anos explora o negócio naquele local. “Tem vindo muita gente. Temos uma ementa boa também. Também foi por causa da pandemia, agora está mais alargado”, diz.

Com uma pandemia a separar o “antes” e o “depois”, quem visita a feira conhece agora algumas diferenças. Não é o caso do ribeiragrandense António Vieira, de 30 anos, que confessa: “para ser sincero, eu já não me lembro de metade”. Mas nem assim deixa de aproveitar a oportunidade de passeio e convívio. Estrela Botelho, que o acompanha, acrescenta: “para ser sincera, este ano a gente não vinha, mas com a miúda é a primeira vez. Ela está a começar a ver essas coisas e está a gostar. Se não fosse por isso, eu não vinha, que estou cansada de trabalhar” , desabafa a ribeiragrandense de 45 anos.

De mais longe veio Graça Mota, de 54 anos. Natural de Ponta Delgada, afirma que costuma marcar presença nas várias edições da feira. Faz-se acompanhar pelo grupo de amigas, que partilham da mesma opinião: “Gosto muito, adoro. Eu acho que isto é tão diferente. Eles interagem connosco. Por vezes, também interagimos com eles, dançamos, brincamos e entramos na parte medieval que eles tentam construir. É muito engraçado”, assegura.

Quatro jovens estiveram pela primeira vez na Ribeira Grande a vender Piña Coladas © DL

“O objetivo é trazer-vos um bocadinho esse universo onírico”

A receber as pessoas, à entrada da feira, está um grupo de três fadas, com quem o DL conversou. Cantam e dançam, à medida que encaminham as pessoas para o centro da festa, onde se vive e sente mais intensamente o espírito medieval.

“Nós temos estas personagens pensadas e cada dia trazemos personagens diferentes. Estas são mais do mundo do sonho, do fantástico da floresta, elementos para recordar as pessoas da magia da natureza”, explica a fada Diana Rego, enquanto acompanha em coreografia as outras duas colegas. E prossegue: “aqui nos Açores vocês têm muito essa conexão com a natureza, mas às vezes nas cidades as pessoas perdem o cantar dos passarinhos, ver a dança das borboletas. O objetivo é trazer-vos um bocadinho esse universo onírico, também para as crianças que estão muitas vezes desconectadas dos contos, das fadas, trazer essa lembrança deste mundo da magia”.

A animação da feira faz-se todos os dias por vários figurantes que trazem o espírito quinhentista até ao século XXI. No total, são 17 os grupos responsáveis pela animação da feira. Com danças exóticas, encantadores de serpentes e piratas a invadir o mercado e aprisionar damas e um teatro de fogo passam-se os dias na Feira Quinhentista. Vários grupos musicais deambulam pelo recinto da festa a tocar instrumentos referentes à época medieval, para entretenimento dos muitos visitantes. Existem também várias barracas de artesanato espalhadas pelo espaço, onde as pessoas podem adquirir adereços que as aproximam do mundo do fantástico, como varinhas de condão e tiaras de princesa, enfeitadas com flores.

Na hora de ir embora, continuam a chegar pessoas. Começam a cair alguns pingos de chuva, mas a temperatura é agradável para uma noite de verão. No ar, sente-se ainda um cheiro a fumo, vindo da comida da feira, e ouve-se, ao longe, o som da música que vai continuar a ecoar noite dentro.

Para o presidente da câmara municipal da Ribeira Grande, Alexandre Gaudêncio, “esta feira é já uma tradição nossa. A edição deste ano foi uma das melhores de sempre, avaliando pela qualidade e pela participação de milhares de pessoas”.

Para o ano haverá mais. A Feira Quinhentista regressa de 12 a 16 de julho. 

Mariana Lucas Furtado

Reportagem publicada na edição impressa de agosto de 2022

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