“Vamos recomeçar, vamos fazer mais vezes”

“Viagem no Tempo – Do povoamento à Industrialização” decorreu, no passado dia 11 de setembro na cidade da Lagoa. A chuva e o vento não apagou o entusiasmo de cerca de duas centenas de pessoas com vontade de aprofundar os seus conhecimentos, conhecer a cidade e acompanhar o elenco neste trilho pelas origens do concelho

Primeira cena aconteceu no adro da igreja Matriz da Lagoa © CLIFE BOTELHO/ DL

Esta “viagem” começa na igreja Matriz da Lagoa em Santa Cruz, onde se apresenta o motivo do nome “Lagoa” para a cidade. No adro da igreja, a primeira cena inclui, por exemplo, damas antigas, um padre e a figura de Gaspar Frutuoso, quem narra e vai explicando a história da Lagoa. 

Mais abaixo, na Avenida do Mar falou-se da importância do negócio do pastel como uma das principais fontes de riqueza dos séculos XVI e XVII. Na zona da Relvinha,  representou-se o naufrágio que ali existiu, devido às condições adversas no mar,  no século XVll. O complexo municipal de piscinas, revelou-se importante porque no passado foi um forte da vila e era local de vigia nos séculos XVI e XVII. No fim do trilho, os cerca de 60 atores e figurantes passaram pelo Portinho de São Pedro onde recriaram a chegada do barro, vindo de Santa Maria, e terminaram a encenação na antiga fábrica da Cerâmica Vieira, no Porto dos Carneiros, onde se fazia a famosa louça da Lagoa conhecida um pouco por todo o mundo. 

Pensada e trabalhada há mais de um ano, esta “viagem” que se fez no tempo, insere-se no programa das comemorações dos 500 anos da vila da Lagoa e 10 anos de cidade. 

O projeto foi liderado pela Associação Criativa e Promotora de Eventos Culturais – Os Quiridos, da Vila de Água de Pau, com a colaboração de Elisa Gomes, co-encenadora do projeto. 

Segundo Albertina Oliveira, vereadora da Cultura da câmara municipal, “o gabinete da Cultura construiu esse projeto e o respectivo itinerário do trilho e de seguida, contactámos de imediato “Os Quiridos” para se envolverem connosco neste projeto, que aceitaram de imediato, e logo de seguida começamos a trabalhar”.

Para João Baganha, presidente d’ Os Quiridos, “as expectativas são boas e esperemos que no final todo o concelho da Lagoa fique mais enriquecido com esta experiência porque mesmo nós, participantes, ficamos mais conhecedores de toda a história do concelho”. 

Elisa Gomes foi, também, uma das principais personagens na concretização deste desafio de recriação histórica. João Baganha reforça que “sem ela, não seria capaz de fazer isso sozinho”. 

Para Elisa Gomes, as expetativas foram completamente superadas: “eu acho que amadores conseguiram envolver todo o público lagoense que aqui estava, mesmo a chover as pessoas permanecerem para ouvir o resto da história, é mais do que sucesso”, garante ao Diário da Lagoa (DL). 

Cena na Avenida do Mar sobre o negócio do pastel, uma das principais fontes de riqueza dos séculos XVI e XVII © CLIFE BOTELHO/ DL

“Na primeira chuvada começamos a pensar ‘as pessoas vão dispersar’, mas não, ficaram”

Mesmo com as condições meteorológicas um pouco adversas, o público continuava com vontade de descobrir mais sobre a Lagoa. Para Elisa, a chuva ajudou: “ajudou porque as pessoas permaneceram lá, ajudou ao sucesso, em vez de prejudicar. Como o tempo estava tremido, não sabíamos se chovia ou não. Depois da primeira chuvada começamos a pensar ‘as pessoas vão dispersar’, mas não, ficaram”. 

Filomena Oliveira foi uma das pessoas que ficou com a chuva. Ao DL afirma que “a beleza de todo esse evento, ultrapassa a chuva. Venha a chuva que nós vamos ficar até ao fim. Pela minha Lagoa, eu faço tudo”. Reforça dizendo que este trilho “foi uma maravilha, espetacular”. A espetadora garante que “já sabia muita coisa da história”, mas acabou por  “relembrar com mais profundidade”.

O trilho interpretativo foi uma experiência única para muitos. É o caso de Paula Tavares, que pertence à associação “Os Quiridos” e participou como atriz. Conta que gostou muito da experiência e que nunca tinha feito teatro antes. “Eu gostei muito, foi a primeira vez que eu fiz teatro. Tem aqui pessoas que já têm mais experiência que eu, mas gostei muito”.

Não só de amadores se fez esta viagem. O papel do célebre padre e historiador Gaspar Frutuoso foi interpretado por Mário Sousa, professor de teatro. Contactado por João Baganha e por Elisa Gomes, confessou ter sido uma proposta irrecusável. “Aquilo que eu mais gosto neles e no trabalho que eles desenvolvem é o não perder as raízes, não perder a tradição e obviamente que foi impossível recusar”. Durante a conversa, ao longo do trilho e nos intervalos de cada cena, confessa que o que lhe vem à cabeça é: “vamos recomeçar, vamos fazer mais vezes”.

No fim do espetáculo, na antiga fábrica da Cerâmica Vieira, ao som de música medieval, tocada pelo grupo “Urro das Marés” e após “os parabéns” à “menina Lagoa”, comentários positivos não faltaram sobre o projeto.

“Gostei muito. Foi uma recriação histórica que nos permitiu conhecer pequenos pormenores que eu desconhecia da história da Lagoa. Foi uma iniciativa muito boa”, diz Susete Benevides que assistia, no público, à recriação histórica. Acrescenta dizendo “penso que é uma atividade que se deve repetir com outro tipo de roteiro abrangendo outras freguesias”.

Para a lagoense Maria Luísa Raposo, o projeto deu-lhe novos conhecimentos: “acho que foi muito engraçado porque eu sou da Lagoa e eu vi coisas que não sabia da história. Ao vivo e com personagens é mais fácil do que estar a ouvir só, teoricamente.  Acho que foi muito bem conseguido”, assegura.

Evento com cerca de 60 atores e figurantes percorreu as ruas do concelho com guarda-roupa original de época © CLIFE BOTELHO/ DL

“Ficou uma amizade, para além de toda essa peça”

Sérgio Costa, Odete Cabral e Romina Cardoso, atores do trilho, não hesitaram em dar a sua opinião.

Sem esperanças de algum dia fazer uma peça de teatro, Sérgio Costa, que é também presidente da junta de freguesia de Santa Cruz, conta ao DL que para ele, foi uma surpresa: “eu não esperava nunca na minha vida, fazer uma peça como essa. Foi uma surpresa terem-me convidado e para mim foi um gosto participar com todo este elenco. Foi a cereja no topo do bolo”.

Para Odete Cabral, este projeto “não foi maçador, as pessoas aprenderam, acompanharam, tiveram a oportunidade de ver, de ouvir, de rir. Juntou-se o cómico, o sério e a história e foi muito positivo, acho que a Lagoa está de parabéns”, considera.

O complexo guarda-roupa, com detalhes de época com muitas horas de trabalho em cada peça, foi todo desenhado e construído de raiz, tendo a colaboração da estilista Gorete Andrade que trabalhou em colaboração estreita com Os Quiridos.

Terminada a recriação histórica que durou cerca de duas horas, é visível que o trabalho em equipa foi muito valorizado por Romina Cardoso. “É bom ver que trabalhamos todos juntos. Eu acho que hoje em dia, as pessoas já não estão tão viradas para a cultura, não conseguem compreender o seu passado para perceber o seu presente, ficou uma amizade, para além de toda essa peça”.

Catarina Teixeira

Reportagem publicada na edição impressa de outubro de 2022

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