Terra Jovem. A agricultura como forma de inclusão para jovens omissos da sociedade

O projeto Terra Jovem, da APPJ, incide sobre jovens maiores de idade que estão esquecidos da sociedade. Vai agora para Água de Pau, para aproveitar a agricultura como forma de promover a empregabilidade jovem

Projeto tem cerca de 40 inscritos das freguesias de Água de Pau, Santa Cruz, Remédios e Cabouco estando em outros locais da ilha FOTO DL

São jovens em terra de ninguém. Que sobrevivem em contextos complexos e que estão marcados pela falta de ambições. Quando perfazem os 18 anos, acabam as obrigações legais, como a escolaridade obrigatória. O que não termina são as dificuldades. Esquecidos pelo Estado e excluídos das estatísticas, são resgatados pelo projeto Terra Jovem, da Associação de Promoção de Públicos Jovens (APPJ), uma Instituição Particular de Solidariedade Social. Um projeto que abrange atualmente cerca de 30 pessoas e que procura promover a empregabilidade de jovens em situação vulnerável. Um projeto que depois de tocar na zona sudoeste da ilha de São Miguel (Mosteiros, Sete Cidades, Candelária, Ginetes, Feteiras) vai chegar agora à freguesia de Água do Pau, Lagoa.

“Sentimos que há uma grande lacuna em termos de respostas para estes jovens. Já são adultos, mas apresentam grandes lacunas pessoais, sociais, escolares… de tudo”, começa por dizer ao DL Pedro Gomes, psicólogo, coordenador do projeto que nasceu em 2014. São jovens, entre os 18 e os 25 anos, que “têm histórias de vida muito marcantes”, muitas vezes provenientes de “contextos familiares muito desfavorecidos” e que apresentam uma “grande resistência em sair das suas localidades”. Quando saem da escola, resignam-se no interior das paredes de casa: “em Água de Pau, por exemplo, encontramos dois jovens que estão em casa há cinco anos sem fazer nada e são jovens que mesmo com as suas lacunas têm competências e talentos, mas estão perdidos”. Para os encontrar, não é fácil. É preciso trabalho de terreno. “Vamos para as freguesias e perguntamos se conhecem algum jovem nessas condições”, explica Pedro Gomes, destacando que estes casos normalmente “não estão inseridos no centro de emprego”. “Se não formos para o território, eles não nos chegam”, garante.

A terra é o melhor remédio
Selecionados os jovens, o “trabalho” a desenvolver é “muito diversificado”. Analisam caso a caso, numa “resposta quase individualizada”, porque “cada um tem o seu projeto de vida”. Depois, então, decidem se aquele jovem se enquadra num trabalho individual ou de grupo. Nos trabalhos, há uma aposta forte na terra – ou seja, na agricultura. Plantam uma série de produtos naturais – alfaces, ervas aromáticas, salsa e coentros – produtos que eles próprios acabam por vender. Há quem prefira o trabalho na terra, outros preferem a “parte da transformação”. “Daquilo que conseguimos colher fazemos o azeite piri-piri, os óleos macerados, sabão para a loiça, sais de banho, ervas aromáticas, incensos”. É a “linha Terra Jovem”.
“Todo o dinheiro” angariado “é para eles”, até porque são eles que depois acabam por se encarregar das vendas. Depois, cria-se uma rede entre os membros do projeto, que passam a dar formação uns aos outros. Além disso, é lhes dada uma “bolsa de participação”, que os permite atribuir algum dinheiro que habitualmente utilizam para “tirar a carta de condução ou para comprar algumas roupas”.

“Acreditamos que não é por causa desse dinheiro que eles vão, mas é um incentivo”. No final, a terra é mesmo o melhor remédio. A “agricultura” permite que os jovens que outrora estavam “em casa fechados”, criem “rotinas” e laços com pessoas da mesma geração. Ganham “confiança e autoestima”, também muito devido ao trabalho dos técnicos. É que isto de ser psicólogo no Terra Jovem não é apenas para mandar fazer. Há muita terra para cavar e o arado não pode criar ferrugem. “Nós somos técnicos, somos os doutores, mas despimo-nos desses títulos e vamos com eles. Numa relação informal, de igual para igual, cavar a terra, de botas de cano, todos sujos”, afirma o coordenador do projeto, realçando que tudo é feito “sem perder a validade e o rigor”. Tese corroborada pela técnica Filipa Cabral, também psicóloga, que não se inibe de pegar num sacho para as mãos. “A nossa principal ferramenta é a relação. Investimos muito na relação com eles. Não é uma relação tanto de terapeuta para utente, é mais informal, é conhecer, é uma relação pessoal. Nós entramos na vida deles”.

O “desafio” de Água do Pau
A confiança que ganham com os jovens é uma receita fundamental para o sucesso. “Só assim” é que conseguiriam “entrar na vida” daquelas pessoas. E essa entrada é “fundamental”, porque detrás de um jovem sem emprego, estão muitas vezes problemas complexos associados. “Percebemos que antes das questões da empregabilidade, existiam competências pessoais e sociais a ser trabalhadas”, explica Filipa Cabral, reforçando que os “contextos disruptivos” de onde provêm os jovens “mina” a sua capacidade e o “suporte” para terem emprego. Por isso, é que não se limitam a trabalhar com o jovem: criam uma “rede de parceiros” que vai desde a família, passa pelas autarquias locais, por várias empresas e pela comunidade.

A comunidade que se segue é Água de Pau. A ida do Terra Jovem para lá surgiu após um convite do Diretor Regional da Solidariedade Social que se apercebeu das potencialidades que um projeto como aquele poderia ter na freguesia. “Vai ser um desafio”, assume Filipa Cabral, que sabe do que fala: é natural de Água de Pau. Segundo o diagnóstico já efetuado, aquela freguesia apresenta dificuldades ao nível da escolaridade e dos consumos. “Existe a questão da toxicodependência, da violência doméstica, da desocupação, da desvalorização da formação, mas ainda estamos nesta fase de território, de conhecer o território”. Para a implementação do projeto, vão ter uma ajuda preciosa: “toda a comunidade”, uma vez que o “espírito de união em Água de Pau” é uma “grande potencialidade” que vão querer aproveitar.

Para já, obtiveram um terreno para as plantações, graças à “grande aceitação que o projeto” teve pelas pessoas da freguesia. Estão a selecionar os jovens, onde já têm uma lista de 40 pessoas, fruto do trabalho no terreno e de “sinalizações que vieram de todo o lado”: centro de emprego, ação social e dos próprios jovens. Sinalizações que vem de todos os lados da Lagoa e que incidem sobre jovens de Santa Cruz, dos Remédios, do Cabouco e “sobretudo” do Rosário, refere Filipa Cabral.

Em termos de prazos, Pedro Gomes aponta para “meados de setembro” para arrancar o projeto no terreno. “Queremos também dinamizar a mostrar o projeto pela freguesia, não apenas criar um projeto isolado”. Um projeto para transformar a terra de ninguém, numa terra de todos.

Rui Pedro Paiva

(Reportagem publicada na edição impressa de outubro de 2020)

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