
Aos 42 anos assume pela primeira vez a função de Ouvidor, sendo responsável pelas sete paróquias da Ouvidoria da Lagoa. Gil da Silva é padre nas freguesias do Livramento e mais recentemente no Cabouco. Nasceu no Canadá, filho de pais emigrantes, e depois de passar pelo continente, através da Congregação da Província Portuguesa dos Sacerdotes do Coração de Jesus, mais conhecidos por Dehonianos, regressou aos Açores e esteve à conversa com o Diário da Lagoa.
DL: É a primeira vez que é ouvidor. O que é que é ser Ouvidor?
Ser ouvidor, como o próprio nome indica, é ser aquele que escuta, aquele que escuta os seus colegas padres, aquele que de certa forma também recebe muito da ajuda dos colegas padres. Termos um olhar, um horizonte, um pouco mais abrangente e olharmos para o lado, para que todas as paróquias olhem umas para as outras com este olhar, como Cristo também nos olhava, com um olhar de amor, com um olhar capaz de sermos capazes de construir uma coisa simples, que é uma comunidade consciente de que é batizada.
DL: Que significado têm estes 40 anos da Ouvidoria da Lagoa?
Um significado profundo de comunhão, de reconhecer que temos paróquias, temos comunidades cristãs que vivem de modo particular num ritmo normal de vida cristã e que são capazes de pensar uma Igreja cada vez mais abrangente. Quase numa tentativa de pensar-se numa Igreja que não é só a minha casa, não é só a minha paróquia ou comunidade, mas que há outras comunidades que vivem a mesma fé.
DL: E que desafios é que a Ouvidoria enfrenta?
O desafio de pensar que não vive só para si própria. O desafio de pensar-se como uma comunidade cristã, o desafio de nos desinstalarmos. E isso pode começar — e começa sempre — quando nós saímos de casa. Desinstalarmo-nos do conforto da nossa casa e irmos à igreja, este templo, esta casa onde se pretende viver a fé. É este desafio de nos desinstalarmos e irmos a outras comunidades celebrar a mesma fé. Porque às vezes é tão difícil mas o Evangelho interpela-nos sempre a nos desinstalarmos e a não olharmos só o nosso cantinho.
DL: Na sua homilia, o Bispo de Angra abordou a questão da pobreza. É um tema que merece ainda mais atenção na Lagoa?
Em toda a parte. Contudo, todos nós reconhecemos que a Lagoa tem situações de pobreza que até são gritantes e que necessitam da nossa atenção, sem dúvida nenhuma.
E quando digo pobreza, não digo só a económica, a financeira, a habitacional. Falo também desta pobreza a que o Papa faz referência na sua mensagem, que é o não reconhecer a presença de Deus, que também é um tipo de pobreza. Digo isto no sentido de que quem tem Deus na sua vida deveria ter esse olhar distinto e diferente para qualquer pessoa. E, provavelmente, um olhar um pouco mais próximo, um olhar mais atencioso, e é desta riqueza que falo, que é quem tem Deus.
Há que olhar também para esta situação. E todas as comunidades devem ter em atenção estas situações, porque também o Papa diz que os pobres não deviam ser olhados como objetos da nossa ação, mas como sujeitos ativos, porque também são nossos irmãos.
DL: Segundo o site da agência de notícias Igreja Açores, a Ouvidoria da Lagoa “regista grandes bolsas de pobreza”. Como é que nós podemos fazer com que essas bolsas de pobreza diminuam?
Uma das coisas que nós devemos é investir na Educação, começa por aí. Olhar para as nossas crianças e jovens e termos esse cuidado constante na Educação. Não é fácil, porque isto é uma questão que às vezes passa de geração em geração.
Começava por aí e pela capacidade de nós ajudarmos e, depois, consequentemente, porque não implica só as crianças e os jovens, implica também os pais a fazer este caminho.
Depois, se vamos falar de uma parte um pouco mais concreta da vida das pessoas: condições de trabalho, que, aparentemente, parece que não falta trabalho, mas há falta de trabalhadores. Mas, lá está, é preciso também esta parte educativa para capacitar para esses trabalhos.
Depois, a questão da Habitação, que realmente é permanente e não é só no continente, mas aqui também, com a Habitação como está, é impensável uma família, mesmo com os dois a trabalhar, pedir empréstimo para uma casa pelo valor atual. Eu apostava mais e mais na Educação.
DL: Para terminar, o que é que espera para o futuro da Ouvidoria da Lagoa?
Espero que seja um momento para estarmos juntos, para refletirmos sobre a Ouvidoria, sobre as nossas comunidades cristãs e para nos desafiarmos a dar esperança a quem não tem, alento a quem nos pede, um olhar positivo das coisas.
Porque uma das coisas que se nota muitas vezes é não valorizarmos as pequenas coisas que fazemos. Por isso mesmo, vislumbro e espero que a Ouvidoria dê pequenos passos para que se faça uma caminhada capaz de perdurar e de responder aos desafios que todos nós vivemos e que também queremos lançar com uma esperança para todos, que é esta presença de Cristo e esta alegria de sermos positivos nas coisas que nós fazemos.