
José Estêvão de Melo
Engenheiro Informático
Os números da operação Páscoa 2026 são desoladores: 20 mortos, 53 feridos graves e 845 feridos ligeiros, distribuídos por um total de 2.602 acidentes. Em termos de fiscalização, foram controlados mais de 52.000 condutores.
Analisando os dados dos últimos cinco anos, a partir de 2022 e excluindo o período anterior marcado pela distorção da pandemia, o número médio de mortos por operação é de 9,4, enquanto os feridos graves se situam nos 39 e os acidentes nos 1.915.

Apesar da subida gradual em praticamente todos os indicadores, 2026 não é apenas mais um ano pior. É um ano fora da escala. E isso exige mais do que uma reação imediata. Exige análise. Não deve ser descartado como um simples outlier, nem usado como pretexto para respostas automáticas de eficácia duvidosa, como o aumento indiscriminado de multas.
A primeira conclusão é desconfortável. O aumento da fiscalização não apresenta um impacto direto e mensurável na redução de acidentes, mortos ou feridos. Mas isso não significa que a fiscalização não funcione. Significa que pode não estar a ser aplicada onde mais importa.
Entre as estradas com maior sinistralidade em Portugal, o padrão repete-se com consistência. A A5, que liga Lisboa a Cascais, e o IC19, entre Lisboa e Sintra, surgem regularmente entre as vias com mais acidentes e concentram também uma parte significativa da fiscalização, pela densidade de tráfego e facilidade logística. Ainda assim, apesar do elevado número de ocorrências, trata-se sobretudo de acidentes menos letais. Já em estradas nacionais como a EN125, no Algarve, o cenário é diferente. Há menor presença de fiscalização contínua e maior gravidade nos acidentes. Os dados globais ajudam a clarificar esta diferença. As estradas nacionais representam cerca de 20% dos acidentes, mas concentram mais de 30% das vítimas mortais. O resultado é um desalinhamento difícil de ignorar. Fiscaliza-se com maior intensidade onde há mais circulação, mas é fora desses eixos que os acidentes tendem a ser mais fatais.
Se cruzarmos volume de tráfego com sinistralidade, o contraste torna-se ainda mais evidente. Em vias como o IC19, com tráfego médio diário acima dos 90.000 veículos, ou a A5, que frequentemente ultrapassa os 60.000, o número absoluto de acidentes é elevado, mas a letalidade relativa mantém-se baixa. Já em estradas nacionais como a EN125, com volumes tipicamente entre 10.000 e 30.000 veículos por dia, a proporção de acidentes graves e mortais é significativamente superior. Os dados agregados confirmam este padrão. As estradas nacionais concentram cerca de 20% dos acidentes, mas mais de 30% das mortes, enquanto as autoestradas, apesar de suportarem a maior fatia do tráfego, apresentam uma taxa de mortalidade bastante inferior. Traduzindo isto num indicador simples, mortes por mil milhões de veículos, o risco em estradas nacionais pode ser duas a três vezes superior ao das autoestradas. O problema não está apenas onde se conduz mais, mas onde cada quilómetro percorrido tem maior probabilidade de terminar mal.
Esta leitura é necessariamente superficial. Cruza dados disponíveis, mas não esgota a complexidade do problema. Ainda assim, é suficiente para pôr em causa uma conclusão cómoda. A de que mais multas ou mais fiscalização, em termos absolutos, são por si só a solução. Os números sugerem o contrário. Fiscaliza-se mais, sanciona-se mais, e nem por isso o risco diminui onde mais importa. O problema não parece estar na quantidade, mas na forma. Não é apenas fiscalizar mais, é fiscalizar melhor, onde o risco é efetivamente maior e com critérios que tenham impacto real no comportamento. E é, sobretudo, intervir nas condições em que se conduz. Melhor sinalização, desenho de vias mais consistente e gestão de tráfego mais inteligente. Sem isso, continuaremos a medir esforço, mas não necessariamente resultados.

A secretária regional da Saúde e Segurança Social, Mónica Seidi, destacou os resultados do relatório do primeiro trimestre de 2026 do serviço de apoio ao doente deslocado em Lisboa, sublinhando o papel determinante deste serviço no apoio aos utentes dos Açores.
Entre 1 de janeiro e 31 de março de 2026, o serviço acompanhou um total de 253 processos, dos quais 87% resultaram de novos encaminhamentos efetuados pelos hospitais da região, evidenciando a crescente procura e a relevância deste serviço como resposta de primeira linha no apoio aos doentes deslocados.
Destaca-se ainda o reforço do alojamento protocolado, que passou a disponibilizar oito quartos, distribuídos por três apartamentos, aos quais se acrescenta um apartamento com um quarto adaptado para acolher doentes com mobilidade reduzida, equipado com cama articulada, cadeira amovível para banho e rampa de acesso à casa de banho.
O apartamento com quarto adaptado destina-se, prioritariamente, a utentes com limitações funcionais significativas, nomeadamente ao nível da mobilidade e autonomia, bem como a situações clínicas que exijam condições específicas de acessibilidade e segurança, sendo a sua atribuição efetuada com base em critérios clínicos, funcionais e sociais devidamente avaliados.
De acordo com Mónica Seidi, estes dados “demonstram o compromisso do Governo dos Açores em garantir uma resposta integrada, humanizada e eficaz aos doentes deslocados, assegurando não apenas o acesso aos cuidados de saúde, mas também o apoio social, emocional e logístico necessário durante todo o processo”.

António Santos
Presidente do Sinapol – Açores
O Orçamento de Estado para 2026 (OE2026) parecia trazer, finalmente, uma lufada de ar fresco para as forças de segurança na Região Autónoma dos Açores. No seu Artigo 150.º, o documento é peremptório, o primeiro semestre deste ano ficaria marcado por um reforço efetivo de meios humanos, financeiros e materiais para o Comando Regional da PSP dos Açores.
Contudo, quase a meio do semestre, afinal uma vez mais, parece que a montanha pariu um rato. O “grande investimento” material materializou-se, há dias, na entrega de duas viaturas caracterizadas para as Equipas de Intervenção Rápida (EIR) em São Miguel. É este o reforço prometido? Duas viaturas numa única ilha para um dispositivo que se estende por 9 ilhas, 37 esquadras e 4 divisões policiais?
São já duas as décadas de promessas vazias. É urgente que a Direção Nacional da PSP e o Ministério da Administração Interna (MAI) entendam que os Açores são efectivamente um Comandos diferente, uma vez que tem uma particularidade arquipelágica que o distingue dos restantes Comandos de Policia espalhados pelo país, mesmo até do Comando localizado na Região Autónoma da Madeira. O reforço material é, sim, essencial para a operacionalidade e para o policiamento de proximidade, mas importa relembrar que este último não se faz sem polícias.
Há duas décadas que os sucessivos Governos da República alimentam o arquipélago com promessas que ficam sistematicamente aquém das necessidades. O cenário atual não dá esperança aos agentes que, diariamente, se esforçam no combate ao crime e na prevenção rodoviária, muitas vezes em condições que colocam em causa a sua segurança.
Enquanto os lóbis camarários de Lisboa e Porto exercem a sua influência habitual junto do Terreiro do Paço, surge agora a prioridade económica, a gestão aeroportuária.
Pelos corredores do Largo da Penha de França (endereço da Direção Nacional da PSP), já se ouve, que quase metade dos novos polícias que vão terminar a formação no mês de maio, serão canalizados para os aeroportos.
Embora o controlo de fronteiras seja uma missão nobre da PSP, a segurança das nossas populações (do Corvo a Santa Maria), não pode ser sacrificada em nome dos interesses das empresas que gerem os aeroportos. Não podemos aceitar que o policiamento nas esquadras locais seja a “sobra” do que resta após Lisboa, Porto e Faro servirem os seus interesses estratégicos.
Perante esta evidência de que o Governo Central continua a olhar para a segurança nos Açores como um acessório, impõe-se uma pergunta: onde está a voz do nosso Governo Regional?
Senhor Presidente do Governo Regional dos Açores, não é aceitável que a Região siga a passividade de Lisboa. A segurança pública é um pilar da nossa Autonomia e da nossa coesão territorial. Aceitar que o “reforço” do Artigo 150.º se resuma a migalhas, é validar o esquecimento a que o dispositivo policial tem sido votado.
É hora de o Presidente do Governo Regional exigir de Lisboa um compromisso sério, nomeadamente um real reforço policial de modo a satisfazer as reais necessidades de efetivos em todo o dispositivo policial, de forma que as várias valências da PSP existentes na região, cumpram com a sua missão, e é também necessário que o investimento material chegue às 37 esquadras, e não apenas ao asfalto de Ponta Delgada.
É tempo de exigir que a farda da PSP nas nove ilhas seja efectivamente respeitada com meios e homens, pois a coesão de um arquipélago mede-se pela segurança de quem o habita e não pela passividade de quem o governa.

Os Açores voltam a marcar presença na Better Tourism Lisbon (BTL), cuja 36.ª edição decorre entre 25 de fevereiro e 1 de março, na Feira Internacional de Lisboa (FIL), no Parque das Nações, sendo este evento considerado a maior montra do setor em Portugal.
Segundo nota de imprensa enviada pelo Governo regional dos Açores, o stand açoriano apresenta este ano uma reconfiguração do seu layout interno, visando imprimir novidade e maior funcionalidade. Assente nos pilares da natureza, autenticidade, sustentabilidade e inovação, o espaço foi desenhado para responder às duas vertentes da feira: um período dedicado exclusivamente a profissionais e outro aberto ao público em geral. Nos primeiros dias do evento, destinados ao networking e negócios, a região reforçou significativamente a sua área empresarial, disponibilizando 40 módulos de contacto, o que representa um aumento de 10 módulos face às edições anteriores.
Este investimento no segmento profissional pretende potenciar o contacto entre operadores, agentes e parceiros, consolidando o posicionamento dos Açores no panorama turístico global. Na reta final do evento, a partir da tarde de 27 de fevereiro e durante todo o fim de semana, o stand será reorganizado para a venda direta, contando com seis balcões destinados ao contacto imediato com potenciais viajantes. Em paralelo, a Visit Azores desafiou os seus associados a lançar pacotes turísticos exclusivos durante a BTL 2026, com o objetivo de estimular a procura e atrair novos visitantes.
Um dos momentos de maior relevância nesta edição será a apresentação da versão atualizada do galardão MIOSOTIS AZORES. Este selo, que distingue as boas práticas de sustentabilidade no setor turístico, foi renovado para acompanhar a evolução dos requisitos internacionais, tornando os critérios de atribuição ainda mais exigentes. A presença do arquipélago será também marcada pela participação ativa dos vários municípios açorianos, que promoverão a diversidade territorial e cultural de cada concelho, contribuindo para uma promoção integrada das nove ilhas.
A BTL 2026, organizada pela Fundação AIP, assume-se como a maior edição de sempre, reunindo mais de 1.500 expositores. Após a mudança de designação para Better Tourism Lisbon em 2025, o certame reforça agora o seu foco no crescimento do número de visitantes profissionais internacionais e no investimento na formação de recursos humanos, mantendo como prioridade a diversificação da oferta em segmentos como o enoturismo, a cultura e o turismo de saúde e bem-estar.

O Governo regional dos Açores procedeu ao reforço da capacidade de alojamento do Serviço de Apoio ao Doente Deslocado (SADD) na cidade de Lisboa, através da assinatura de um novo protocolo que garante a integração de mais dois apartamentos na rede de apoio. O reforço inclui uma unidade de tipologia T2 e um apartamento T1 especificamente adaptado a utentes com mobilidade reduzida, respondendo a uma necessidade identificada pela equipa técnica do serviço perante o fluxo crescente de açorianos que viajam para o continente por motivos de saúde.
Em nota de imprensa enviada às redações, a secretária regional da Saúde e Segurança Social, Mónica Seidi, sublinha que “o Governo regional está atento às dificuldades que os utentes da Região enfrentam quando se deslocam ao exterior para a realização de exames ou tratamentos e pretende minimizar estes impactos, garantindo uma resposta próxima, digna e humanista”. Segundo a governante, esta medida reflete a atenção permanente do executivo às carências sentidas por quem é obrigado a sair da região para obter cuidados médicos.
A importância desta expansão é sustentada pelos indicadores de atividade de 2025, ano em que o SADD prestou assistência a 832 utentes num total de 1.139 processos distintos. Grande parte destas deslocações teve como destino unidades de saúde de referência na capital portuguesa, com especial incidência no Instituto Português de Oncologia (IPO) e nos hospitais de Santa Cruz, Curry Cabral e Dona Estefânia. Em termos estatísticos, os dados revelam que 54% dos utentes são provenientes do Hospital do Divino Espírito Santo de Ponta Delgada, seguindo-se o Hospital de Santo Espírito da Ilha Terceira com 34% e o Hospital da Horta com 12%. No que diz respeito à duração das estadas, verificou-se que 46% corresponderam a períodos breves, inferiores a cinco dias, o que demonstra a rotatividade e a necessidade de uma gestão logística ágil.
Para além da vertente habitacional, o balanço de 2025 destaca o papel psicossocial da estrutura, que realizou cerca de 12 mil intervenções ao longo do ano. Estas ações abrangeram desde o acompanhamento direto e diagnósticos sociais até ao apoio administrativo no processamento de diárias e orientação sobre os direitos dos doentes.
Mónica Seidi conclui que “por detrás de cada um destes números estão utentes do Serviço Regional de Saúde e as suas famílias, bem como histórias marcadas pelo apoio, dedicação e humanismo”.

Ser artista, sobretudo nos Açores, não é tarefa fácil, quando a liberdade de expressão vai além dos protótipos na bolha do que é ou não aceitável.
Ser reconhecido pela arte, pela criação, pela capacidade de conciliar personagens, dando ênfase a cada uma, não se trata apenas de arte – é amor no ato de criar e de ser.
Valdemar Henrique Couto Creador nasceu a 30 de Maio de 1992 na ilha de São Miguel, nos Açores. Cresceu e viveu sempre em São Miguel, onde se formou na Universidade dos Açores, nomeadamente no pólo de Ponta Delgada, concluindo a licenciatura em Relações Públicas e Comunicação e, mais tarde, a pós-graduação na área de Tradução.
Aos 22 anos, muda-se para Lisboa para seguir a sua verdadeira paixão: Moda e Entretenimento. Forma-se em Produção de Moda, e é na capital portuguesa que se evidencia cada vez mais o seu deslumbramento pelo mundo do entretenimento. Explorando o mundo do Styling de Moda, Maquilhagem e Representação, acaba por descobrir uma vocação onde consegue aplicar todos esses talentos: o DRAG.
Nasce, pouco depois, a personagem Valley Dation. Valdemar concorre em concursos como o Miss Drag Lisboa 2018, e é através de Valley Dation que explora a vida noturna Lisboeta, frequentando e atuando em eventos, clubes e discotecas como: Finalmente, Lisboa Comedy Club, Mini TREMOR, Drama Bar, Maxime Club, Trumps Club, Posh, Estúdio 13, Teatros Ribeiragrandense e Micaelense, Arquipélago, entre outros. Com Valley (e a criação de outras personagens) Valdemar cria também conteúdo humorístico e satírico no seu canal de Youtube e nas redes sociais.
O Diário da Lagoa esteve à conversa com o artista para saber mais.
Embora não se sinta, por completo, reconhecido, a entrevista surge de quem o vê e concebe como artista. De quem o acompanha e lança gargalhadas pelo seu conteúdo.
DL: Como foi a sua infância e adolescência?
Diria que tive uma infância e adolescência um tanto normais, mas com algumas atribulações. Por ser uma criança “diferente” e mais sensível, precisava talvez de mais proteção, por ser vítima de bullying constante devido a essa minha diferença. Queria, sempre quis, brincar com Barbies, por exemplo, e isso sempre foi reprimido pela sociedade à minha volta. Explicavam-me que não o podia fazer, e eu tinha muita dificuldade em compreender essas normas e regras sociais, porque não me faziam sentido. Pedia que me explicassem porquê, e nunca entendia as justificações que me eram dadas. Este exemplo, o do menino que brincava às Barbies e isso ser visto com maus olhos, fazia-me sentir marginalizado, julgado e como “um menino que não é como os outros”. Criou-me uma necessidade extrema de validação e aprovação, e de me provar constantemente como pessoa digna e merecedora.
DL: Qual foi o seu primeiro trabalho?
O meu primeiro trabalho foi ainda na ilha de São Miguel, quando decidi juntar dinheiro para mudar-me para Lisboa. Enquanto estudava e fazia uma pós-graduação (numa área de que particularmente nem gostava), inscrevi-me num estágio para trabalhar no aeroporto de Ponta Delgada como Oficial de Tráfego Aéreo. Aí, trabalhei durante nove meses, mudando-me para Lisboa pouco depois.
DL: Como surgiu o gosto pela maquilhagem?
Quando me mudei para Lisboa, tirei um curso de Produção de Moda. Esse curso focava-se, sobretudo, em Styling [Guarda-Roupa], mas também tínhamos cadeiras de Maquilhagem, Cabelos, e Produção. Nas aulas de Maquilhagem, rapidamente apercebi-me de que talvez estaria aí a minha verdadeira paixão, mas confesso que ignorei isso e “meti de lado”, porque já tinha decidido que iria trabalhar como Stylist, uma vez que o foco do curso era nessa área. Trabalhei, durante cerca de 2 anos e em regime freelancer, como Stylist e Assistente de Guarda-Roupa. Quanto mais trabalhava em Guarda-Roupa, mais me apercebia de que não era a minha paixão, e arrependia-me de ter “escolhido mal” o curso, mas a verdade é que eu ainda não me conhecia a nível criativo quando tomei essa decisão, e na altura era o curso mais abrangente. Aos poucos, fui explorando o mundo da Maquilhagem ao ser assistente de um amigo Maquilhador, e finalmente investi mais na área.

DL: Em que momento surge o Stand-Up Comedy?
Sempre tive a fama de ser “o engraçado” dos grupos de amigos onde estava, e sempre adorei representar e criar personagens cómicas nas redes sociais, mas achava que não seria tão engraçado ao ponto de fazer disso uma carreira.
Contudo, uns anos depois de viver em Lisboa e de já ter explorado outras áreas artísticas, um dia pensei “porque não? eu também nunca tinha pensado que podia ser maquilhador, ou Drag Queen”, e arrisquei! Inscrevi-me numa noite de comédia no Lisboa Comedy Club, fiz cinco minutos de texto e correu logo bem. Recebi feedback positivo sobre o potencial que tinha, e fui pedindo para atuar lá mais vezes e fui corrigindo os textos/piadas à medida que conhecia e explorava o meu estilo de comédia.
DL: Em que locais costuma atuar?
Sou freelancer nas áreas em que trabalho, o que significa que não estou “fixo” em nenhum local, mas algumas das casas que me acolheram mais vezes ao longo dos anos são: Lisboa Comedy Club e Trumps Club Lisboa.
DL: Aos seus olhos, qual foi a sua melhor atuação?
A atuação que já me fez sentir mais realizado foi a de quando trouxe o meu espetáculo “Valley of the Dolls” ao Arquipélago – Centro de Artes Contemporâneas, porque tive o privilégio de poder trazer comigo duas colegas Drag Queens de excelência, mostrar-lhes a minha ilha, e depois mostrar ao público açoriano um pouco do melhor Drag do país, através delas. Além disso, o Arquipélago situa-se na Ribeira Grande, de onde sou natural e onde ainda vivo sempre que passo temporadas na ilha, e foi muito gratificante poder partilhar a minha arte sentindo-me “em casa”, e vendo muitas caras conhecidas e familiares no público.
Deixou-me muito feliz.
DL: Em que momento surge a “Valley Dation” – Drag Queen?
Originalmente, o termo DRAG significou Dressed Resembling A Girl, uma vez que nasceu através de apenas homens poderem fazer Teatro, e estes mesmos terem de fazer papéis femininos nas peças de Teatro. Hoje em dia, DRAG é um termo bastante mais abrangente, e envolve a criação de uma personagem. Qualquer pessoa pode ser e fazer Drag. Costuma ser uma personagem que foca-se no exagero e exaltação da expressão de género – seja essa expressão masculina, feminina, ou até não-binária. Quando comecei a sair à noite em Lisboa, tive o meu primeiro contacto e exposição a Drag Queens, e fiquei logo fascinado!
Lembro-me de pensar “um dia vou experimentar, de qualquer modo eu sempre fiz personagens…”, e foi assim: um dia, experimentei. Pensei que nunca mais voltaria a fazer Drag, mas instalou-se logo o “bichinho”, porque fiquei motivado a melhorar, por exemplo, a maquilhagem. Com a prática, fui melhorando, e apercebi-me de que Ela não iria a lado nenhum, então tratei de arranjar-lhe um nome que me fizesse sentido. Valley Dation (Validação) = um tributo ao meu lado Feminino, que sempre haveria sido motivo de chacota, e que me tinham ensinado a odiar. Hoje, através da Valley, eu glorifico-o.

DL: Sente ou já sentiu algum preconceito enquanto incorpora a “Valley Dation”?
Sim. Infelizmente, sim. Mas creio que esse medo vem da confusão. As pessoas não estão educadas sobre a Comunidade LGBTQI+, e não entendem sequer a diferença entre uma mulher transgénero e uma Drag Queen. Eu tento combater essa ignorância através da comédia, para mim é o caminho mais fácil de chegar ao público, de o educar. Quando entro em palco, na ilha, as pessoas reagem logo com algum pudor, até que abro a boca e lhes faço rir. É aí que percebem que eu sou só mais uma pessoa, uma pessoa que está a usar uma personagem para os entreter, e é tão simples e tão bonito quanto isto.
DL: Como é todo o processo de construção/preparação da “Valley Dation”?
A preparação física para a transformação enquanto Valley Dation começa por um processo de 2 horas de maquilhagem, com uma hora para cabelos, roupa
e acessórios. Ou seja, demoro cerca de três horas a preparar-me.
Nos dias anteriores a qualquer espetáculo, tenho de escrever e estudar texto, arranjar guarda-roupa, fazer penteados às perucas, e tratar de todos esses pormenores. É um processo que envolve muito esforço e trabalho, apesar de no dia do show talvez possa não parecer.
DL: Prefere atuar nos Açores ou em território continental?
Eu adoro atuar em ambos os sítios, mas confesso que prefiro e é muito mais gratificante para mim atuar nos Açores. Apesar do público açoriano ser mais difícil e conservador, sinto-me mais realizado quando finalmente os conquisto com uma gargalhada, ou uma atuação que os inspire. Sinto que ajudei a mudar mentalidades após cada atuação nos Açores. Já recebi mensagens, por exemplo, de um rapaz que não era aceite pela Mãe por causa da sua orientação sexual, mas que a convenceu a ir com ele a um espetáculo meu de comédia, e que fez com que a senhora nos visse, enquanto comunidade, com outro olhar.
DL: Sente-se reconhecido?
Vou ter de ser sincero: não sinto. E infelizmente, sobretudo, nos Açores. É mais fácil para mim conseguir espetáculos e provar-me enquanto artista em Lisboa – onde logicamente é muito mais competitivo –, do que nos Açores.
É muito difícil e uma batalha constante.
DL: Onde se vê no futuro?
Sempre fui de fazer planos, e de prever o que faria e o que me aconteceria, até quando me mudei para Lisboa fiz isso. Tinha prazos e metas para conseguir as coisas. E quase nada do que tinha previsto aconteceu. Desde então, tenho tentado não me colocar muita pressão, e ser mais gentil comigo nesse sentido. Idealizo e ambiciono, no futuro, abrir um espaço meu onde possa exercer todas as áreas que me inspiram, e em que trabalho: Drag, Maquilhagem, Comédia. Mas para já, continuo na luta por mais oportunidades para crescer e melhorar-me enquanto pessoa e artista.

«O meu amigo Henrique Levy é um camoniano, um dos melhores poetas e romancistas da nossa atualidade, um editor exímio, que tem viabilizado a existência e a continuidade, com um rigoroso critério de seleção, à publicação de uma poesia de qualidade. Estuda imenso, pois de outra forma não é possível escrever bem. É educadíssimo, utópico, objetor de consciência. Seria incapaz de pegar numa arma. Um irmão na minha vida. Temos uma cumplicidade imensa que até no silêncio comunica.»
ÂNGELA DE ALMEIDA
DL: É um camoniano. De onde vem a paixão por Camões?
Camões, para mim, é uma pessoa de família. É um poeta que faz parte do meu quotidiano. Não há nenhum dia em que, antes de adormecer, não leia, como uma oração, um soneto de Camões. É alguém com quem convivo diariamente. Muitas vezes, dou por mim a ter de gerir pequenos dramas interiores e questiono-me: Que resposta daria Camões a uma situação análoga? Depois, adapto o pensamento do poeta à nossa época, e geralmente encontro uma via ponderada para a resolução de situações que a vida, de quem pensa e se põe em causa, lhe vai exigindo. A poesia de Luís de Camões apresenta uma identificação tão grande com a Humanidade, que facilmente, nela nos revemos. Camões foi um homem extraordinário, cheio de valores e um grande estudioso. Um homem muito interessado pela cultura clássica mas, essencialmente, um humanista. É isso que eu procuro ser: um humanista, e como Camões, um homem do mundo.
Luís de Camões é, sem dúvida, o melhor poeta da literatura ocidental. A sua poesia é sempre atual, por isso é que nos revemos naquela leitura onde nos encontramos e procuramos ensinamentos para as nossas vidas. É para isso que viemos ao mundo: para chegarmos de uma maneira e partirmos muito melhor do que chegámos. Essencialmente, para melhorarmos a capacidade de amar as pessoas com as quais nos cruzamos.
DL: Foi professor em Lisboa. Sentiu-se mais professor ou estudioso?
Durante vinte e quatro anos dei aulas no Curso de Ciências da Comunicação da Universidade Autónoma de Lisboa. Ajudei a formar dezenas de jornalistas. Ministrei as disciplinas de Gramática da Comunicação, Língua e Cultura Portuguesas e Escrita Criativa. Foram anos muito importantes para a minha formação, pois convivi com excecionais mestres e alunos que me levaram a estudar várias matérias. Investiguei e estudei muito para depois refletir, partilhar e discutir com os alunos as conclusões a que tinha chegado. Nesse sentido, devo aos meus alunos ter apurado o espírito de investigador e mantido a constante curiosidade que me tem levado à busca de conhecimento. A minha base de estudo é a linguística. Estudei linguística para melhor entender a organização do pensamento humano, as diversas culturas e religiões, e, por conseguinte a literatura e as restantes artes.
DL: Nasceu em Lisboa, mas tem nacionalidade cabo-verdiana. A ligação Cabo Verde, Lisboa e Açores, como é que acontece?
Sou um autor cabo-verdiano. Não me identifico como autor português. A minha identidade e forma de sentir o mundo estão muito mais próximas da cultura caboverdiana. Faço parte dos dois milhões de caboverdianos que vivem em todos os cantos do mundo. Somos uma Nação que não cabe no seu território. Ser caboverdiano foi um dos melhores legados que o meu pai me deixou. Os meus avós eram caboverdianos e meu pai nasceu em Cabo Verde. Só a minha geração é que não, porque o meu pai veio estudar para Lisboa, casou, fez vida e ficou.
A minha opção por viver nos Açores tem exatamente o propósito de tentar perceber aquilo que se pode fazer pelos territórios insulares que formam a Macaronésia. Eu acho que falta cumprir a Macaronésia e, no futuro, o tempo vai dar-me razão. A autonomia que a República concede aos Açores e à Madeira não ajuda ao desenvolvimento destes arquipélagos. Os povos que habitam os arquipélagos que compõem a Macaronésia exigem que se desenvolvam laços de identidade cultural, política e social. Repare como estes quatro arquipélagos vivem de costas voltadas: os açorianos desconhecem a realidade caboverdiana, madeirense e das Canárias. Com a Madeira, Canárias e Cabo Verde passa-se a mesma coisa. O desenvolvimento harmonioso destas regiões e de Cabo Verde, como país, não pode deixar de passar por um profundo intercâmbio cultural, económico e político. O futuro da Humanidade são os oceanos, por essa razão os Açores e todos os restantes três arquipélagos da Macaronésia vão ser espaços importantíssimos para o desenvolvimento dos povos que os habitam.
No caso dos Açores, a República domina as leis que dizem respeito às águas territoriais destas nove ilhas no meio do oceano, mas, em troca de tamanha riqueza, envia parcas esmolas. Na verdade, o povo destas ilhas há 500 anos que é autónomo, no sentido em que esgravatou a vida com as mãos e sobreviveu a todas as intempéries. É um povo heróico! Por vezes, nem sequer pensamos nisto, mas se percebermos a situação geográfica destes nove grãos de terra espalhados no Atlântico, neste momento com cerca de 241 mil almas, somos levados a deduzir que se trata de gente extraordinária cujos antepassados foram igualmente admiráveis. Só um povo heróico sobreviveria a tantas dificuldades geográficas e a uma organização social baseada na exploração de quase todos por um ínfimo número de senhores terratenentes. Foi, também, esta resiliência dos açorianos que me cativou muito e que me levou a fixar na ilha de São Miguel.

DL: Como decide fixar-se nos Açores?
Desde 1989, que vinha, todos os anos, passar férias nos Açores. Quando tive oportunidade de voltar a assentar arraiais noutro lugar, escolhi estas ilhas.
Os Açores são o lugar onde quero morrer. Sou um cabo-verdiano que se sente açoriano. E repare que eu não lhe digo “que me sinto português”. Para mim, Portugal foi o país onde nasci, mas que sempre me acolheu como um imigrante. Como todos os humanos, também eu pertenço ao mundo. E assim é que está bem, não devia haver fronteiras. Como é possível existirem pessoas que consideram outras como ilegais? Não há sobre a Terra quem possa ser ilegal. Como humanista, tenho pautado a minha vida a lutar pelos direitos de todas as pessoas a uma existência com dignidade. Amando e compreendendo todas as vivências específicas das várias culturas existentes nos cinco continentes. Partindo sempre do princípio que cultura não são só manifestações artísticas. Interessa-me muito a cultura popular. Perceber como é que as pessoas organizam o seu pensamento. Estudar as suas línguas. Com e como cozinham. As tradições que pretendem deixar às gerações vindouras. Como ocupam o espaço. A forma escolhida para se organizarem socialmente. A relação que mantêm com as divindades… Pois tudo isto, também, é cultura.
DL: Vivemos numa altura em que se fala de falta de apoio à Cultura e se diz que a cultura está em crise. Como vê a situação atual?
Quando se fala de apoio à cultura, o que eu penso, imediatamente, é na falta de apoio para que as pessoas tenham melhores condições de vida. Apoiar a cultura é governar no sentido de dar dignidade humana a cada um dos cidadãos açorianos. Tudo fazer para combater a forma miserável como vive, ainda, o açoriano, cinquenta anos depois de uma Revolução Popular. Em cinquenta anos somos a região do país com mais abandono escolar. O acesso à saúde é cada vez mais difícil e desigual. Satisfazer as necessidades básicas das populações é dar-lhes a oportunidade de poderem ser agentes de cultura. As pessoas precisam de estar bem para se encontrarem com elas próprias e terem disponibilidade para se interessarem por bens culturais. E depois, se houver unidade, se as pessoas se juntarem umas às outras, apercebem-se imediatamente, da sua força. Que está nas suas mãos pôr cobro a desmandos e injustiças que impedem o progresso da sociedade açoriana como um todo.
Nos Açores, por exemplo, o que é o culto do Espírito Santo senão um processo que cumpre a função de mostrar desejo pela verdadeira igualdade em busca da sabedoria? Não há nada mais maravilhoso na cultura açoriana do que o culto do Divino Espírito Santo.
DL: Criou uma editora em 2020, a única nos Açores exclusivamente de poesia. Como surgiu esse desafio?
A editora N9na-Poesia inaugurou-se com a edição do livro A Sibylla – Versos Philosophicos, de Marianna Belmira de Andrade, uma jorgense que, em 1884, escreveu e editou um épico, absolutamente superior, com 1250 versos. A obra foi votada ao esquecimento pela generalidade da crítica, o eco dos seus versos, apesar de indiscutível qualidade, não chegou ao continente português, e esbarrou na indiferença da maioria dos literatos açorianos. É um poema extraordinário escrito pela mais singular voz da poesia açoriana, mas até ser por mim editada, Marianna foi votada ao silêncio e ao esquecimento, próprios de uma sociedade misógina que tende a silenciar o feminino. Nesse épico Marianna Belmira de Andrade reprova a sociedade terra-tenente açoriana, a Igreja Católica e a instituição monárquica, responsabilizando-as pelo atraso do país, da pobreza e das desigualdades sociais. A autora revolta-se contra a condição das mulheres e o papel doméstico para que são relegadas, sendo-lhes negado o direito à instrução, o acesso à cultura, bem como o desempenho de qualquer função social relevante. É num contexto social em que vigora ainda um conservadorismo feroz que emerge a voz de Marianna Belmira de Andrade votada durante séculos não só ao isolamento geográfico, mas também ao arcaísmo sócio-cultural da condição de mulher em geral e da insular em particular.
Em A Sibylla, a autora afirma-se feminista, anticlerical e ecologista – é algo de uma novidade extraordinária. Fascinado com o achado, resolvi estudar a autora e editar a obra, tendo-a dotado de 163 notas. Como não encontrei editora interessada na publicação deste livro, decidi criar a N9na-Poesia, como uma editora dedicada exclusivamente à poesia de grande qualidade. É, por isso, graças à obra poética de Marianna Belmira de Andrade e ao apoio da Nova Gráfica, na pessoa de Ernesto Resendes, que temos, nos Açores uma editora dedicada exclusivamente à poesia.
DL: Em declarações à RTP Açores, quando ganhou o Prémio Literário Natália Correia, disse: “eu não sei respirar sem escrever”. Continua a sentir o mesmo?
Com certeza. Escrever é como respirar. Escrevo todos os dias. Levanto-me cerca das três e meia da manhã, antes das quatro já estou a escrever até por volta das oito. É um ritual diário. Geralmente, não volto a escrever. Aproveito o resto do dia para ler, investigar, pensar, nadar na piscina da Lagoa, conhecer a realidade da vida das pessoas e conviver com os amigos; mas não para escrever. Deito-me cedo e como não tenho necessidade de dormir muito, os meus dias são longos e muito diversificados. Escrevo entre as quatro e as oito horas da manhã, pois, o mundo, a essa hora, não nos pede nada. Há um silêncio absoluto e muito bonito. Porque é um silêncio de esperança. Anuncia-se um novo dia. Depois começam os sons próprios do despertar da Natureza; o alegre chilrear dos pássaros e o cantar dos galos. Tenho doze gatos, a essa hora, ainda estão todos a dormir. Há, em casa, uma tranquilidade que me é necessária. Muitas vezes, quando o dia começa a nascer, saio de casa para me despedir da Lua que se põe de um lado e receber o Sol que nasce do outro. Este ritual dura de cinco a dez minutos. Normalmente, acompanhado de uma chávena de café, sento-me num banco de pedra e faço orações que lanço ao novo dia.
DL: Quando venceu a segunda edição do Prémio Literário em 2022, disse também que saberia, dentro de dois ou três anos, se o prémio teria importância. Valeu a pena?
Para mim, foi uma honra o romance Vinte e Sete Cartas de Artemísia ter sido agraciado com o Prémio Natália Correia. Lembro-me de ter pensado: a partir de hoje tenho a responsabilidade moral de ir ao encontro da confiança que em mim foi depositada, ao ver um romance, de que sou autor, ser distinguido com o Prémio Literário que transporta o nome de uma das nossas maiores poetisas e pensadoras. Apesar de não estar preocupado em ter visibilidade como autor, é gratificante ver um certo reconhecimento público, depois de tantos anos dedicados à literatura e à cultura. A atribuição deste importante Prémio não teve grande visibilidade na Região nem na República. Pelo contrário, foi amplamente divulgado em Cabo Verde, em Macau e até no Egipto através da Rádio Cairo que me entrevistou.
Não tenho como objetivo, cativar o leitor da atualidade. O leitor que idealizo não é meu contemporâneo. Escrevo para a memória futura dos povos.
Em 2023 publiquei Bento de Góis: uma longa caminhada na Ásia Central. Três meses depois, este romance entrou no Plano Nacional de Leitura, mas, pasme-se, não faz parte no Plano Regional de Leitura. Não podemos esquecer que Bento de Goes é o maior herói açoriano; não há nenhum outro que se lhe compare. A maior parte das vezes, os responsáveis políticos açorianos maltratam as mais notáveis figuras da História e da Cultura dos Açores. Insultam os açorianos, silenciando os seus heróis e poetas. Por incúria, ou ignorância, enaltecem, o que nos chega de fora. Como exemplo, basta referir Antero de Quental há anos silenciado pela academia, pois não há vontade política de homenagear e divulgar a obra de Antero, por ser um autor, tal como Natália Correia e muitos outros, que nos obriga a pensar e depois de confrontados com a realidade, ter mais consciência social e política para exigir a alteração do estado de coisas.
Manter o povo na ignorância continua a ser o desígnio dos governos da Região, pois sabem que um povo informado e culto nunca elegeria governos incapazes.

DL: Envolve-se com as suas personagens?
Sim, muito. E isso pode ser devastador. Por essa razão, enquanto estou a escrever ficção, socorro-me, em simultâneo, da escrita da poesia que me permite reorganizar emocionalmente. Penso que o escritor, o ficcionista, o artista – se quiserem – é alguém que passa por diferentes formas de humor. Há momentos de enorme exaltação e outros em que se fecha sobre si mesmo. Normalmente, estou sempre em grande exaltação. Só me sinto abatido quando o destino das personagens da história que estou a contar é brutal. Por exemplo: neste momento, encontro-me a escrever um romance que me obrigou a estudar, profundamente, o quotidiano dos presos políticos no Tarrafal, tendo de ler mais de 100 testemunhos de presos dessa colónia penal, em Cabo Verde. Cheguei a pensar desistir de escrever este romance, mas percebi que, por mais doloroso que fosse, para poder fazer um trabalho credível, tinha de conhecer o depoimento de todos os homens que, abnegadamente, entregaram as suas vidas para que os portugueses pudessem alcançar a liberdade e os povos colonizados por Portugal conhecessem a autodeterminação.
DL: Hoje em dia, sabemos o que é a liberdade? Cumpriu-se Abril?
Essa pergunta não é fácil. De qualquer modo vou tentar responder. Há certamente, diferentes conceitos de liberdade. Enquanto os trabalhadores anseiam por um tipo de liberdade que lhes permita exigir melhores salários e condições de trabalho, os donos das fábricas e os proprietários das terras anseiam pela liberdade de poderem aumentar os lucros e por conseguinte terem mais poder para oprimirem quem trabalha. Ainda há os que lutam por outros diferentes tipos de liberdade… Pôr o voto numa urna não é um exercício de liberdade, a maior parte das vezes, não passa de uma forma de legitimar regimes que se recusam a governar para o progresso dos povos, tendo antes o objetivo de manter um poder que oprime esse mesmo povo. Poderia dar dezenas de exemplos. Repare: a um trabalhador açoriano, o salário não lhe chega. Não se trata de um desempregado; é um pai ou mãe de família cujo ordenado não é suficiente para fazer face às despesas do quotidiano. Assim, temos muitos trabalhadores na miséria e a depender de ajuda alimentar, ou de outras, para poder sobreviver. É necessário que as pessoas tenham esta consciência, que tenham uma consciência de classe, porque só assim é que podem lutar por uma vida melhor e por justiça social, ou então, vamos continuar, nos próximos 50 anos, com os mesmos problemas sociais de hoje.

DL: É um homem de Fé?
Com certeza. Mas em quem? Em quê? Sou um homem de fé no Sublime, no Mistério, naquilo que não entendo e que não confronto. Mas não a fé no dogma criado por humanos. Nunca confronto o mistério; não saberia viver sem ele. Por exemplo: o mistério da transfiguração de Cristo, para mim, tem de ser mantido como algo que a ciência não poderá nunca explicar. Para muitos depende da Fé, para mim é uma questão estética. Procuro sempre sentido para a vida em coisas misteriosas. Não procuro respostas para os assuntos encobertos pela poesia, pela filosofia, pela teologia que encaro como os grandes mistérios da Humidade. Costumo dizer que Deus é como um amigo imaginário com quem aprendemos a comunicar com quem partilhamos os nossos problemas. E quando crescemos, transportamos esse mesmo amigo, da infância para a fase adulta, criando com Deus uma relação de quase chantagem: prometemos isto, se nos der aquilo. Se me der saúde, pagarei com uma rota de joelhos, à volta de um santuário. Não seria muito mais bonito fazer uma promessa a Nossa Senhora ou ao Senhor Santo Cristo, e o pagamento dessa promessa ser recitar poemas em voz alta no recinto de Fátima ou no Largo de São Francisco? Essas entidades, certamente que ficariam muito mais satisfeitas, muito mais consoladas do que se o pagamento das promessas for com sofrimento e muita dor. Deus é alegria e libertação. Não O devemos presentear com dor e sofrimento! Também já fiz promessas. Com certeza que sim, sou humano como os outros e tenho Fé. Mas tudo o que prometi fazer foi exatamente ler poesia: entrar num templo, independentemente da religião, e, em voz baixa, meditando, ler poemas perante o silêncio, aí encontrado. Tenho a certeza de que esta troca, para a divindade, é muito mais exaltante. Porque todos os deuses foram criados na medida da necessidade da Humanidade e não pretendem ser veículos de sofrimento, mas de libertação, sabedoria e compaixão.
DL: É a ideia de que Deus é amor numa espécie de energia feminina?
Sim. O Espírito Santo é isso mesmo. Uma energia feminina e criadora que pretende libertar o Homem de todo o género de opressão.

“Dormir com as estrelas e acordar com o mar” – é assim que o rapper Shiny se dá a conhecer numa das suas músicas, “Brisa”, em que relata a sua conexão com a natureza dos Açores. “Se não fossem as ilhas, o meu álbum não existia”, partilha em conversa com o Diário da Lagoa. Em fevereiro, lançou as primeiras músicas do seu mais recente álbum, “Em Evol”, que dá continuidade a esta ligação, num processo de evolução pessoal e descoberta artística.
Vicente Brilhante tem 24 anos e é natural de Lisboa. Aos seis meses de idade, visitou pela primeira vez a ilha das Flores e, desde pequeno, que as cascatas e a vegetação do local o admiram. Habituado aos caos da capital, foi na ilha que encontrou a sua liberdade: “Flores sempre foram uma casa para mim. Sentia-me em liberdade, o que não tinha na cidade, porque a minha mãe não me deixava brincar na rua. E ali era o meu paraíso, os meus pais deixavam-me andar para onde eu quisesse.”
Todos os anos, no verão, o artista visita a ilha das Flores. E assim foi desde muito novo. Mais tarde, fez da ilha casa durante dois anos e, hoje em dia, reside em São Miguel – diz que o destino lhe “trouxe à Lagoa”. Nem em Londres, a estudar Finanças, se sentiu tão em casa como por cá, embora tenha sido uma experiência enriquecedora no que toca a aprendizagem. “Não me dou muito bem com o frio, nem com a falta de luz”, admite.
“Adoro estar aqui. Olho para o mar, infinito, e é isso que me inspira. Falo bastante do mar nas minhas músicas e da ligação com os elementos da natureza que nos rodeiam”, realça. Mas Shiny não é o único da família que sentiu essa conexão com os Açores. Também o seu pai, Jorge Brilhante, natural da Ericeira, apaixonou-se pela ilha das Flores, para onde se mudou em 2010. Atualmente, é proprietário do restaurante Maresia, na Fajã Grande. “Diz que é o sítio onde se sente melhor e ele já conheceu o mundo todo”, conta Shiny.
Aliás, apesar de nunca ter estudado música, foi o pai que sempre lhe introduziu a cultura musical. “Desde Bossa Nova, Tom Jobim, Chico Buarque, o próprio Cartola, que eu tenho uma sample numa das minhas músicas do novo álbum”, enumera. Perdia-se nesses sons. “Ele é muito eclético. Cresci a ouvir isso tudo e fez-me criar um leque de melodias dentro de mim”, acrescenta.

De entre milhares de notas guardadas no telemóvel, nasceu o novo álbum de Shiny – “Em Evol”. Inspirado na natureza do arquipélago que o rodeia, simboliza a “constante evolução a que nós somos e devemos ser sujeitos na nossa vida”, conta. Além disso, ao contrário lê-se “Love me” (ame-me, numa tradução literal), o que representa a sua “descoberta do amor próprio”, explica ainda o jovem.
Na capa deste álbum há três pontos principais: de um lado, Lisboa; depois, a ponte da lagoa das Sete Cidades, São Miguel; e, do lado direito, a ilha das Flores. No fundo, o triângulo que faz parte da vida de Vicente Brilhante. “Éden”, “Pico” e “Voo” são algumas das 24 músicas que compõem este projeto, lançado no dia 24 de fevereiro. “Acredito que faltaram alguns meses para ter feito o meu álbum ainda melhor. Se tivesse um orçamento maior, se calhar as pessoas entrariam mais no som”, reflete.
No entanto, reconhece que deu o seu melhor e orgulha-se de todas as pessoas que estiveram do seu lado na criação de “Em Evol”. Sem preocupações relativas às perceções dos outros sobre si, Shiny considera que “só expondo a nossa realidade é que as pessoas se podem identificar com isso”. E sublinha: “Não basta ter talento, tem de se ter visão.”
“Elevar as nossas ilhas é sem dúvida uma das minhas missões”, destaca Shiny. Em 2024, subiu ao palco do festival Monte Verde e já atuou na ilha das Flores e em Lisboa. Daqui a quatro anos, ambiciona estar no Altice Arena. À semelhança do músico madeirense Van Zee, que ganhou muito sucesso nos últimos tempos, acredita que é possível ser ilhéu e ter alcance a nível nacional. “Não tenho dúvidas que vou viver disto. Acredito muito em mim”, acrescenta.
“Se não fossem as ilhas, não existia o meu álbum. Se não fosse a minha experiência nas Flores, em São Miguel e Lisboa, não existia o álbum”, sublinha o jovem artista. E continua: “Tudo o que vem de mim é uma junção das minhas vivências. Todos os artistas deviam incorporar as suas experiências na sua arte.”
Quanto a outros artistas locais, garante estar disposto a colaborar com qualquer pessoa com quem se identifique. “Gosto de dar a mão ao outro. Não sou mais do que ninguém, somos todos indivíduos diferentes e acho que temos de crescer juntos”, declara ao DL. Contudo, sabe que nem todos pensam da mesma forma: “Ficam com receio de se juntar porque podem perder para o outro.”

O Município da Lagoa encontra-se a participar na edição deste ano da Better Tourism Lisbon (BTL), que decorre, até ao dia de hoje, na Feira Internacional de Lisboa, num stand com várias atividades e passatempos.
De acordo com nota de imprensa enviada pela autarquia lagoense ao nosso jornal, o objetivo passa por divulgar os pontos de interesse e eventos do concelho para 2025.
Para a vereadora da área do turismo da câmara da Lagoa, Albertina Oliveira, que marcou presença no evento, a participação na Better Tourism Lisbon assume-se como “uma importante ferramenta de divulgação turística do concelho, nas suas diversas vertentes”. A vereadora apresentou a agenda de eventos, no âmbito cultural e desportivo, que a Câmara Municipal tem preparada para este ano.
“A agenda cultural foi programada visando a promoção das nossas tradições e identidade cultural e patrimonial, com eventos distribuídos pelas diferentes freguesias ao longo do ano, com a participação de artistas locais e nacionais e que cumprem com o propósito da dinamização cultural e social que se pretende para o concelho”, referiu Albertina Oliveira.
O Município da Lagoa leva a cabo duas iniciativas: disponibiliza óculos 360 graus, onde os utilizadores podem experienciar uma “viagem virtual” pelo trilho «Janela do Inferno» e realizar um passeio virtual pela orla marítima do concelho da Lagoa, e está a promover um passatempo, através de um áudio-quiz, para os visitantes da BTL 2025, onde oferece uma viagem para duas pessoas aos Açores com estadia na Lagoa.
À semelhança dos anos anteriores, a Lagoa volta assim a estar presente no evento que conta com mais de 1.500 expositores.

O município do Nordeste está presente na Bolsa de Turismo de Lisboa, no Parque das Nações, através da Associação de Municípios dos Açores, levando a um conjunto alargado de visitantes o que de melhor o concelho tem para oferecer, desde cultura e tradições, ao turismo de natureza e gastronomia.
Os primeiros dois dias são reservados aos agentes turísticos nacionais e internacionais que procuram por destinos de férias. A partir desta sexta-feira, 14 de março, o concelho do Nordeste terá o seu momento de apresentação através da oferta de vouchers oferecidos por empresários do concelho do setor do alojamento, da atividade turística e da restauração.
O município faz-se representar por quatro colaboradores que nestes dias farão a promoção do Nordeste como destino de interesse turístico através da oferta de brindes, de informação turística, de diálogo com profissionais do ramo do turismo e com o público em geral, havendo ainda a oferta de uma mostra de biscoitos variados da Associação Sol Nascente.
O artesanato da Casa de Trabalho do Nordeste serviu de inspiração aos brindes a oferecer aos visitantes, complementado com peças de artesanato que estão presentes no stand. O artesanato da folha de milho e da Casa do Povo de Nordestinho também estão presentes no balcão do concelho.