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Pedro Paulo Câmara: O gosto pela leitura e a paixão pela escrita

Professor, investigador e escritor, Pedro Paulo Câmara é movido pelo gosto da leitura e pela paixão pela escrita. Natural da freguesia dos Ginetes, em São Miguel, e nascido a 9 de agosto de 1980, concilia a vida profissional com uma rotina movida por uma energia inesgotável

Pedro Paulo Câmara tem se dedicado a um estudo especializado sobre Armando Côrtes-Rodrigues © CLIFE BOTELHO

Com partida dos Ginetes, Pedro Paulo Câmara veio ao nosso encontro na cidade da Lagoa. A disponibilidade reflete o seu compromisso com a preservação do património cultural, onde se dedica a resgatar o legado de autores esquecidos, como Armando Côrtes-Rodrigues. O escritor argumenta que é um trabalho para “fazer justiça” à história e para garantir que a memória seja preservada.
Ao Diário da Lagoa (DL) começa por revelar que o seu interesse pela leitura e escrita começou na infância, inspirado em revistas que a sua avó recebia em casa, como a Reader’s Digest, e, principalmente, num baú de papéis antigos que um dia encontrou no granel da família. Aprofundou o gosto pela escrita na adolescência e na universidade, mas só publicou o seu primeiro livro aos 31 anos, após um período que considerou essencial para o seu amadurecimento. “Não existe a necessidade de sermos precipitados. Tudo tem o seu tempo.”, afirma.
Através de sua tese de mestrado, Pedro Paulo Câmara dedicou-se a um estudo especializado sobre Armando Côrtes-Rodrigues, escritor do século XX que, segundo ele, estava “garantidamente escondido”. A investigação resultou na publicação da obra Violante de Cysneiros: o outro lado do espelho de Côrtes-Rodrigues.
A paixão é o que impulsiona a sua intensa rotina e, ao nosso jornal, confessa que dorme poucas horas, pois o seu cérebro está sempre a criar novas ideias. Costuma organizar a cabeça durante a sua viagem de 30 quilómetros para o trabalho e no regresso a casa, que considera “altamente terapêutica”.
Influenciado pela sua dedicação ao escutismo, confessa: “Não tenho muitos medos e gosto de novos desafios”.

DL: Como se apresenta quando está fora da ilha?
Quando me perguntam de onde é que eu venho, eu digo sempre que venho dos Açores, antes de dizer de Portugal. Eu sinto que isso alimenta a magia e a curiosidade das pessoas. Sou um açoriano de corpo e alma, em permanente construção. Tenho dentro de mim a tranquilidade da lagoa das Sete Cidades e a energia da Ferraria.

DL: Publicou o seu primeiro livro aos 31 anos. O amadurecimento é crucial para um escritor?
Eu acho que não existe a necessidade de sermos precipitados. Tudo tem o seu tempo. No meu caso, precisei de um período de amadurecimento e ainda preciso. Sou um autor em permanente construção. Se me perguntar se o meu primeiro livro é o meu melhor, claro que não é, mas foi o mais importante. Foi o que me deu a coragem de enfrentar o público e um possível “não” de um editor.

DL: Uma parte do seu trabalho centra-se na investigação de autores açorianos. Porquê?
É uma forma de fazer justiça. A única forma de sobreviver à morte é mantermo-nos vivos na memória dos outros. Autores como Armando Côrtes-Rodrigues estiveram, de facto, desaparecidos. O meu trabalho é trazer esse legado para a modernidade. Eu quis tirar a sua produção literária do obscurantismo e revelá-la ao público, como fiz com Violante Cysneiros: Obra reunida, ou, como ainda recentemente aconteceu com Armando Côrtes-Rodrigues, Obra Dramática Dispersa, que reúne textos dramáticos inéditos do autor.

DL: Já sabemos que tem uma rotina intensa. De onde vem toda essa energia?
A massa que produz tudo isso é a paixão. É a única possível. Sou profundamente apaixonado por tudo aquilo que eu faço. A única forma de eu conseguir descansar é anotando as ideias que surgem à noite, para que não fiquem a remoer na cabeça.

DL: Hoje em dia estamos ligados às novas tecnologias. De que forma afeta aquilo que é? Eu acho que tudo deve ser colocado em perspetiva. Na década de 80 e 90, o facto de não ter tecnologias não me afetou em nada. Hoje, para dar aulas, produzir livros, estar em contacto com o mundo e fazer investigação, o computador e o telemóvel são vitais. Uso-os como um aliado. Divulgo o meu trabalho através das redes sociais, que também são um bom instrumento. Tento não ser dependente, mas nem sempre é exequível. Muitas vezes, estamos de forma irrefletida a fazer scroll ou perdidos numa quantidade de reels. Lembro-me do meu primeiro telemóvel e do meu primeiro computador, mas, também, da minha máquina de escrever. A verdade é que só tive uma máquina de escrever quando fui para a universidade e o computador no segundo ano. Nos meus primeiros trabalhos do secundário usávamos decalques com papel vegetal. Atualmente, para os trabalhos do ensino básico, já se usam três mil estratégias distintas, desde um PowerPoint a um Prezi. Muitas coisas mudaram, mas gostei de ter vivido naquela altura sem estes acessos todos. Fez-me desenvolver competências importantes.

DL: E isso reflete-se na sua escrita, por exemplo?
Sim, sem margem para dúvidas. A minha escrita reflete a minha forma de ver o mundo.

DL: Escreve com caneta ou com teclado?
Prefiro escrever com caneta, num caderno, quando é prosa ou poesia. Para investigação, com muitas obras em PDF e bibliografia aberta, escrevo no teclado.

DL: Como vê a relação dos jovens com a leitura hoje em dia?
Uma grande parte dos meus alunos tem uma quase antipatia natural pela leitura e leem, apenas, as obras a que estão obrigados e que o Programa apresenta. Eu acredito que a responsabilidade de incentivar a leitura não é só da escola, mas da família. Muitas vezes, um aluno abandona a leitura porque o livro obrigatório não lhe interessa e ainda não descobriu o seu género ou o autor que o faça apaixonar pela leitura.

DL: Enquanto houver leitores há esperança? Qual a sua mensagem para quem se preocupa com a cultura?
Sim, “enquanto houver leitores, há esperança”. Os autores estão a fazer por isso e eu sou um deles.