
Havia um tempo em que o mar não era apenas horizonte: era vizinho, confidente, mestre silencioso. Nas nossas ilhas, cada onda contava uma história, cada rocha guardava memórias de mãos que sabiam tocar o mundo sem o quebrar. Antes que os dias corressem apressados como correm hoje, havia homens e mulheres que acordavam com o sussurro do Atlântico e adormeciam com o sal impregnado na pele. Para as famílias dos pescadores do porto da Caloura, o mar não era paisagem; era vida, ofício, poesia.
Entre essas atividades, uma cintilava pela delicadeza do gesto: a apanha do musgo, ou das algas marinhas que o Atlântico deixava agarradas às pedras, como se fossem cartas do tempo. Era um trabalho de paciência e precisão, feito ao compasso das marés, com conhecimento transmitido de geração em geração. Quem o praticava sabia decifrar o mar como quem lê um livro antigo: as correntes, as marés, o cheiro do vento, cada detalhe era lição.
Em São Miguel, os mergulhadores-de-polvos e os pescadores mais velhos — aqueles que já não navegavam para o largo nos barcos de boca aberta da Caloura, de Água de Pau ou do Porto dos Carneiros, no Rosário da Lagoa — encontravam no musgo uma ligação silenciosa ao oceano e, ao mesmo tempo, um sustento para as famílias. O musgo era colhido com cuidado, levado para terra e estendido ao sol, formando mantas ou tapetes que secavam lentamente, absorvendo a luz e a memória do mar.
Havia uma empresa que comprava todo o musgo ou algas marinhas apanhadas nos Açores durante o período de colheita. Como o «musgo» era muito rico em nutrientes, tinha vários destinos, sendo o principal o fabrico de medicamentos. A empresa Pereira e Pereira, pertencente ao Grupo Bensaúde — atualmente dono do Centro Comercial Parque Atlântico e do Hiper Continente, em Ponta Delgada — recolhia todo o musgo apanhado na ilha de São Miguel pelos mergulhadores e pescadores mais idosos. Depois, exportava-o para a produção de medicamentos, perfumes e até complementos alimentares. No Continente, por contraste, o musgo era usado para fertilizar os campos agrícolas, prática que nunca se implementou nos Açores. No arquipélago, durante mais de 400 anos, os agricultores utilizavam tremoceiros, faveiras e molheiros para fertilizar as suas terras, até à chegada dos fertilizantes químicos.
Nos anos 60, 70 e 80, este ritual era visível nas ruas de Água de Pau: moto-triciclos carregados de sacas desciam e subiam ruas como a Portela, o Cerco, a Galera e os Ferreiros, espalhando tapetes de musgo sobre calçadas e passeios. Homens como o o Ti António Xonina, o Ti Manuel Madeira, o Morreira, o Zé “vira-o-bolo”, o Subica ou o Zé da Glória Giganta trabalhavam com mãos calejadas, mas delicadas, espalhando vida e história. Para muitos aposentados e famílias numerosas, esta atividade era um complemento económico modesto, mas vital — cada tapete estendido era um poema silencioso de sobrevivência e engenho, cada saco transportado, uma ponte entre o homem e o oceano.
Na Caloura, quando ia aos banhos com familiares e amigos, dizia-se que o mar tinha preferência por Ti António Xonina. Talvez porque ele falava pouco, talvez porque sabia ouvir. Ajoelhava-se, colhia o musgo como quem recolhe memórias líquidas, e enchia o saco de serapilheira sem pressas, como se cada fio esverdeado escuro guardasse um segredo. Quando o vento soprava, parecia que as algas chamavam por ele, sussurrando histórias de marés antigas.
A costa sul transformava-se em cenário vivo: sombras inclinadas, o brilho molhado das pedras, o marulhar ritmado das ondas. Era quase uma coreografia, uma dança antiga entre o mar e aqueles que dele dependiam. Depois vinha a tarde, e o musgo estendia-se ao sol como roupa lavada, libertando um cheiro de sal, vento e esperança.
Hoje, tudo isso pertence à memória. O mar continua imenso, igual a si mesmo, mas a apanha do musgo desapareceu. Já não há mãos a decifrar as marés, nem rostos a contemplar o reflexo da vida no musgo. Restam apenas fotografias antigas, onde o sol, o mar e as pessoas parecem conspirar para eternizar um mundo perdido. Recordar é um ato de ternura e respeito: é lembrar que fomos capazes de viver em harmonia com o oceano, e que essa harmonia é um património que não se pode esquecer.
O que antes era paciência e cuidado transformou-se numa invasão. As praias açorianas, incluindo a Caloura em Água de Pau, são hoje invadidas por toneladas de algas Sargassum. O mar devolve-nos esta massa vegetal, densa e implacável, como se quisesse dizer que a natureza se cansa da exploração. O acesso à água é dificultado, o prazer de estar à beira-mar é roubado, e os municípios enfrentam encargos enormes para retirar o excesso.
Estas algas provêm do Mar dos Sargaços, vasto Atlântico central, mas não são apenas mensageiras do mar: são sinal de desequilíbrio. Nutrientes excessivos provenientes de fertilizantes industriais, produção intensiva de gado, desflorestação e erosão do solo transformam o oceano numa máquina que gera vida e caos em simultâneo. Onde antes se lia o mar com olhos atentos, hoje o mar lê-nos e responde com invasão.
O contraste é brutal: antigamente, mãos humanas recolhiam o musgo com reverência; hoje, o mar devolve-nos invasões que ninguém pediu. A riqueza que antes era partilhada entre comunidades agora é explorada por interesses distantes, e a natureza paga o preço da ganância. O oceano, que outrora ensinava, alerta-nos agora: o seu silêncio já não esconde a degradação e o desequilíbrio.
Recordar não é nostalgia: é aprender. O musgo colhido com paciência, as mãos calejadas e delicadas, os rostos iluminados pelo sol e pelo mar são património vivo da nossa identidade. Se quisermos proteger o futuro, precisamos de ouvir o oceano, respeitar o equilíbrio e recordar o que ele nos deu. Antigamente, o homem lia o mar; hoje, o mar lê o homem e mostra-lhe as consequências da sua cegueira.
E talvez, se aprendermos a olhar de novo, possamos ainda transformar a invasão em aviso, a memória em sabedoria, e o oceano em parceiro, como foi sempre.