Ser Igreja ainda fará sentido? (alguns pensamentos)

Eurico Caetano
Padre

Apesar de três crises (pandémica, económica e bélica), não podemos estar à espera que sejam os Padres, e só eles, os dinamizadores da Comunidade Cristã. Até porque eles sozinhos não fazem a Igreja.
Todo o cristão coerente é aquele que arregaça as mangas e lança as mãos ao arado, a fim de preparar o terreno onde o Senhor semeia a Sua Palavra e nos ajuda, enviando o Seu Espírito, no cuidar dessa semente.

Um dos sinais da intimidade com Deus de cada indivíduo e, por consequência, de uma comunidade cristã é a unidade. Apesar do caminho percorrido há ainda um longo caminho por desbravar. Precisamos de criar um sentido de comunhão cada vez mais real, que se possa sentir e ver os seus efeitos. É preciso abandonar a vontade de fortificar a nossa “capelinha”, como se dentro da Paróquia fossemos ilhéus isolados.

A unidade é o sonho de Jesus! Recordemos como no-lo diz no Evangelho segundo São João: “para que todos sejam um, assim como tu, Pai, estás em mim e eu em ti” (17, 21). A unidade é fruto desta doação que se vive na Eucaristia, na participação das duas mesas (da Palavra e da Eucaristia); é fruto de quem se deixa habitar e, portanto, se transformar pela ação do Espírito Santo.

Para que tal aconteça é necessário pormo-nos a caminho. Não isolados, mas juntos. Pois aí o caminho se torna belo. A beleza da unidade, no caminhar juntos, potencia todos e cada um. Não há lugar para a discriminação mas para a congregação, não há lugar para o abandono mas para o encontro, não há lugar para o ciúme mas para a alegria perante os dons do outro, não há lugar para o egoísmo mas para a partilha de si e dos seus bens, sempre no respeito e aceitação da diferença pois ela é a riqueza da comunidade cristã.

O Papa Francisco na Exortação Apostólica Pós-sinodal, “Christus vivit”, dirige-se aos jovens e fala sobre a beleza do caminhar cristão. Diz-nos: «Queridos jovens, não permitais que usem a vossa juventude para promover uma vida superficial, que confunde beleza com aparência. (…) Há beleza, para além da aparência ou da estética imposta pela moda, em cada homem e cada mulher que vive com amor a sua vocação pessoal, no serviço desinteressado à comunidade, à pátria, no trabalho generoso a bem da felicidade da família, comprometidos no árduo trabalho, anónimo e gratuito, de restabelecer a amizade social. Descobrir, mostrar e realçar esta beleza, que lembra a de Cristo na cruz, é colocar as bases da verdadeira solidariedade social e da cultura do encontro.» (CV, 183).

É necessário voltar a dar ânimo às nossas comunidades. Trata-se de um desafio que deverá levar ao surgimento de uma Fé viva, atuante, que se vislumbra desde os mais pequenos gestos.

No número 199 da “Christus vivit”, o Papa Francisco diz-nos ainda: “Se caminharmos juntos, jovens e idosos, poderemos estar bem enraizados no presente e, daqui, visitar o passado e o futuro: visitar o passado, para aprender da história e curar as feridas que às vezes nos condicionam; visitar o futuro, para alimentar o entusiasmo, fazer germinar os sonhos, suscitar profecias, fazer florescer as esperanças. Assim unidos, poderemos aprender uns com os outros, acalentar os corações, inspirar as nossas mentes com a luz do Evangelho e dar nova força às nossas mãos”.

A Peregrinação dos símbolos das Jornadas Mundiais da Juventude pela nossa Diocese foi e é um acontecimento desafiador para que sejamos criativos na forma de viver o Evangelho, de sermos imagem de um Deus que acolhe e ama a todos sem olhar às características individuais de cada um. Só quando aprendermos esta pedagogia de Jesus, a Igreja, que é cada um dos seus membros, poderá realizar a sua verdadeira vocação.

Artigo de opinião publicado na edição impressa de julho de 2022

 

Categorias: Opinião

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