Santiago Futebol Clube – Segmento Histórico

Foi da junção dos “Azuis” ou “Batedores da Onça”, do estabelecimento comercial “A Cova da Onça”, de Manuel Egídio de Medeiros e dos “Vermelhos”, do mestre José Leste que surgiu o Santiago F.C.

Roberto Medeiros

Jogar futebol dentro de um “Campo de Croquet”, recinto que existia no Largo do Santiago na Vila de Água de Pau, nos anos sessenta, a rapaziada conseguia contornar por instinto, os arcos que constituíam as regras do jogo, ignorando-os (os arcos e as regras) praticando uma outra modalidade de desporto tão diferente, que só aos mais crentes da prática do futebol lembraria.

Não sei se era nascido, quando o futebol se tornou uma modalidade desportiva, digna de mérito ou destaque na história da Vila de Água de Pau. Mas, o facto é que consta que muitos se lembram de pessoas que se empenharam para que aquela modalidade fosse líder na ocupação dos tempos livres nas tardes de domingo, lá para as bandas do Paul.

Fartou-se a rapaziada de jogar pelas ruas com menos trânsito. Pois havia lá carros! Jogava-se, ora no Largo do Santiago, ora na Canada da Espiga e até no Caminho da Amoreirinha – vejam lá!

Mais tarde, foram encontrados espaços próprios para aquela prática desportiva. Primeiro na terra do senhor Palhito, detrás da Igreja, depois nas traseiras da casa do Capitão-mor, na rua da Natividade e mais tarde no Paul, lugar do atual Campo de Jogos, mas num espaço mais reduzido, antes.

Foi por mérito próprio de pessoas desta terra que o futebol ascendeu e passou a ocupar um espaço próprio na vivência da população de Água de Pau.

Retirar a rapaziada da rua, onde já se exibiam grandes “craques”, mas onde aquela modalidade valia pelo que valia – desporto de rua! Era premente que alguém em tempo útil conseguisse motivar e reunir tantas vontades dentro de um campo de futebol.

Segundo Manuel Machado, um desportista e também jogador destes primeiros tempos, Água de Pau já tinha duas equipas de futebol. Os “Azuis” ou “Batedores da Onça”, do estabelecimento comercial “A Cova da Onça”, de Manuel Egídio de Medeiros e os “Vermelhos”, do mestre José Leste.

Fim e início das décadas de 1950-1960 foram estes os azuis e vermelhos que deram origem ao Santiago Futebol Clube © D.R.
© D.R.

Recentemente em Água de Pau, pois vive em Warren, Rhode Island, nos Estados Unidos, Manuel Machado, referia-se-me às verdadeiras motivações e empenho para se fundirem os “Azuis” com os “Vermelhos” e assim se constituir uma equipa para participar na Associação de Futebol de S. Miguel. Segundo o mesmo, divergiram as opiniões, mas partiu de Manuel Egídio a ideia de se criar uma equipa única. Mestre José Leste, era benfiquista, já Manuel Egídio de Medeiros era sportinguista. Este último teria mesmo sido mais convincente e conseguiu que as cores do equipamento fossem verdes e branco, como as do Sporting Clube de Portugal. Serviu-lhe, nessa altura também o facto de os comerciantes da terra serem na sua maioria sportinguistas e ao mesmo tempo potenciais patrocinadores do Santiago. Mestre José Leste fez prevalecer o nome de Santiago Futebol Clube, que foi de imediato aceite por todos.

Assim, em 1963, foi inscrito o Santiago Futebol Clube na Associação de Futebol de São Miguel e a partir de então a equipa iniciou a sua atividade desportiva participando em campeonatos e diversos torneios de futebol durante alguns anos com Mestre José Leste, como presidente do clube e a ter um papel preponderante para manter de pé o Santiago Futebol Clube. Cerca de dez anos depois o clube de Mestre José Leste fecharia as portas no surto da emigração.

Retomaria a sua atividade, por mais alguns anos, agora integrado na Inatel, nos anos setenta, com o apoio da Casa do Povo de Água de Pau. Nesta altura fui eu [Roberto Medeiros] presidente do Santiago Futebol Clube, enquanto prevaleceram os apoios possíveis.

No início da década de oitenta um grupo de pessoas liderado por Roberto Oliveira e Luís Esteireiro voltam a colocar o Santiago Futebol Clube na cena desportiva integrando-o na Associação de Futebol de S. Miguel. Na mesma década também eu seria, por alguns anos presidente do Santiago Futebol Clube.

A vinda do “Bristol Sports Club” dos Estados Unidos, a Água de Pau, a convite do Santigo F. Clube, durante a minha presidência no clube, através do apoio do nosso conterrâneo Edmundo Branquinho, emigrado na vila de Bristol e presidente do clube visitante, daria início a intercâmbios que posteriormente se vieram a verificar com outras comunidades.

Neste tempo, em que o desporto vivia de apoios do comércio local, com destaque para A Cova da Onça e Casa Esperança, o Santiago, conseguiu arrastar multidões ao Campo de Jogos, o que se consegue quando o “score” ou o espetáculo promete.

Conheci como outros presidentes e diretores conhecem no Santiago, as tristezas e alegrias, acrescentando ainda a isto a falta de meios disponíveis para levar por diante os nossos propósitos. O que mais tarde viria a melhorar com a minha eleição, como vice-presidente com o Engenheiro Luís Martins Mota para presidente da Câmara Municipal da Lagoa. A partir de então, o desporto deixou de figurar só nos planos de atividade da Câmara e passou a constituir parte do orçamento camarário também.

Se me permitissem fazer um retrato daquilo que detenho em memória, da minha ida “à bola”, com meu pai, no tempo do mestre José Leste, não seria difícil e fazia-o com alguma saudade, do modo seguinte: eu diria que o espetáculo estava garantido e o jogo meio ganho, se na baliza o Luís Francisco estivesse. Que na defesa havia uma cortina defensiva liderada pelo central José Carlos, filho do Ti Manuel dos Reis. Seria intransponível. Bem, e se no meio campo o Veber e o Kubala estivessem nos seus dias, preparavam, aos adversários, “um baile” para o extraordinário Vidinha resolver a situação, fuzilando qualquer guarda-redes, rematando com qualquer um dos pés e de qualquer distância, mesmo, e quase sempre, de fora da área, E, é claro que com o Almeidinha, como extremo e a sua rapidíssima corrida, muito interventiva, era fundamental na tática do jogo e cativava a massa associativa do Santiago.

Agora, se o mestre Manuel Pirolito, sapateiro de tarefa do Clube não se aplicasse na qualidade da recuperação das botas – coisa complicada naquele tempo – com os pitons em madeira – então é que se entornava o caldo. Mas, o pior ainda, era quando alguém movido por emoções mais fortes, sem querer, quebrava a guarda ou o travessão de madeira que rodeava e vedava o campo de jogos. Se, o ‘Louro’ fosse o guarda de serviço naquele dia, no campo, aquele amigo batia em todos que estavam na zona danificada e, só depois é que perguntava, quem é que tinha quebrado “o barrote” de madeira (?). O melhor a fazer nessas ocasiões era fugirem todos. Era isso mesmo que acontecia, quase sempre.

Ainda outros tantos jogadores de grande classe, passaram pelo Santiago Futebol Clube e até alguns estão radicados na Nova Inglaterra junto da nossa comunidade emigrada e mesmo fazendo parte da geração posterior também dignificaram o seu clube de Água de Pau, e citaria alguns: – Helder Mateus, Jorge Arruda, José Craveiro (Nogueira), Carlos Chalana e outros mais.

Era tão bem apreciado o tempo ocupado para ir “à bola”!

Lembro-me destes outros tempos, em que era tão bom assistir a um Jogo de Futebol, trincando amendoins e favas assadas compradas à tia Rosalina Subica que desta e doutras histórias de Água de Pau – faz parte.

Crónica publicada na edição impressa de setembro de 2022

Categorias: Opinião

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