Romaria Quaresmal: À conversa com o Romeiro Luís Costa

Maria Inês entrevistou o pai, Luís Costa, que já participou em 23 romarias © D.R.

A prática dos Romeiros de São Miguel, anteriormente designada de “visita às casinhas de Nossa Senhora”, afirma-se como um fenómeno de grande importância etnográfica devido à originalidade dos elementos usados e também à persistência que esta tradição teve em se manter ao longo dos séculos.

Crê-se que esta tradição teve início durante os terramotos e erupções vulcânicas do séc. XVI, em Vila Franca do Campo, como uma resposta, por parte da população, para acalmar a fúria da Natureza.

Entre o primeiro sábado da Quaresma e a Quinta-Feira Santa, todos os anos saem ranchos de romeiros de quase todas as freguesias da ilha, que são esperados nas estradas da maior ilha do arquipélago.

Estes romeiros percorrem quilómetros e quilómetros, a pé, durante uma semana, trajando um xaile, lenço, saco para alimentos, bordão e terço, entoando cânticos e rezando.

Na EBI de Lagoa, no âmbito da disciplina da História e Geografia de Portugal foi pedido aos alunos um trabalho sobre esta manifestação de fé. Maria Inês Fontes Costa, do 6.ºB, entrevistou o pai, Luís Costa, que participou de inúmeras romarias, e decidiu partilhar com os leitores do Diário da Lagoa.

D.R.

Maria Inês: Quantas romarias já fez até ao ano 2020?

Luís Costa: Já fiz um total de 23 romarias, desde o ano de 1992.

Maria Inês: Qual foi o motivo que o levou a participar nas romarias?

Luís Costa: Comecei pela curiosidade/ aventura de percorrer a ilha a pé, descobrindo novas paisagens e trilhos pedestres, outrora não autorizado pelos meus pais, quando era menor de idade.

Maria Inês: Quais os sentimentos que vive enquanto está na romaria?

Luís Costa: Desde a ansiedade inicial, aquando da preparação física e religiosa, até à saída do rancho são vários os sentimentos. Durante toda a semana, para além da penitência física, com os outros “irmãos” vivenciamos momentos de solidariedade, amor ao próximo, partilha, respeito e, essencialmente, renova-se a fé e agradece-se.

Maria Inês: O que é ser romeiro?

Luís Costa: Ser romeiro é ser um peregrino durante todo o ano, em constante partilha com os outros que nos rodeiam, é sermos introspetivos em relação à nossa fé, transportando esse conhecimento para a nossa vida quotidiana.

D.R.

Maria Inês: Qual é o vestuário essencial de um romeiro?

Luís Costa: Um romeiro usa sempre um xaile e um lenço típicos desta altura quaresmal. Nas mãos leva um bordão de madeira e um terço (alguns feitos de contas de milho para facilitar as marcações dos pedidos ao procurador das almas) e um saco de retalhos para a comida, que hoje foi substituído pelas mochilas.  Durante os anos em que fui em romaria, foram várias as evoluções a que assisti, nomeadamente a criação do “estatuto do romeiro” e na segurança dos ranchos: uso dos coletes refletores (na circulação noturna), luzes pirilampo no início e fim do rancho e melhores facilidades no que concerne à alimentação, envio de bens (roupa, medicação) e comunicação com a família.

Maria Inês: Qual foi a sua romaria mais significativa? Porquê?

Luís Costa: A minha primeira romaria foi a mais significativa, porque foi uma descoberta constante a todos os níveis, pois não tinha a mínima ideia das vivências, dos momentos de oração, das partilhas, das dificuldades físicas e até das pernoitas (dormidas em casas diferentes durante a semana da romaria). Dia-a-dia tudo era novo, mas cheio de significado, o que conduziu à realização de todas as outras que vieram a seguir, mesmo após momentos críticos na minha vida.

Maria Inês Fontes Costa 
6.ºB, EBI de Lagoa/ DL

Categorias: Educação

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