Rochinha. O craque da Lagoa que procura driblar a pandemia

André Rochinha, natural da Atalhada, representou três clubes do concelho no início de uma carreira que já passou pelo Chipre, França e Itália. Agora está no Luxemburgo, um dos epicentros da covid-19 na Europa

O jogador de 25 anos passou pela Liga dos Campeões de futsal na temporada passada FOTO DR

André Rochinha nasceu na zona da Atalhada e tinha 12 anos quando começou a jogar futsal. Na altura, aceitou um convite de Vítor Santos para jogar no Lagoa e Benfica. “Foi logo amor à primeira vista”, recorda ao DL André, agora com 25 anos. A sua vida ia mudar desse dia. Foi aí que começou a carreira no futsal. Uma carreira que já passou pela Liga dos Campeões e por clubes de diferentes países: Chipre, França e Itália. Agora, representa o US Esch, do Luxemburgo.

O Luxemburgo. Como é a vivência no país que apresenta mais casos de covid-19 por cada cem mil habitantes na Europa? “O pior está a ser agora. Dizem que isso já é segunda vaga”, diz Rochinha, comparando a fase atual com o período inicial da pandemia em março. O Luxemburgo tem registado em média mais de 120 casos diários ao longo do último mês. Isto num país com pouco mais de 610 mil habitantes. “Ao princípio, quando saímos do confinamento estava tudo muito bem. Um, dois casos por dia. Depois, as pessoas pensaram que isso já tinha acabado. Pensavam que o vírus tinha morrido. Mas afinal, pelos vistos, não morreu ainda”. O lagoense aponta uma das causas: “as pessoas aqui quebram muito as regras”, diz, explicando que é comum a polícia encontrar muitas festas ilegais, com mais de 500 pessoas. Por isso é que o “número de infetados no Luxemburgo é muito para a população” do país.

Sem data para voltar a competir
O aumento do número de casos no país cria um cenário de imprevisibilidade na vida do atleta. Depois da paragem dos campeonatos e dos treinos em março, Rochinha regressou aos treinos na última semana de agosto. A equipa é dividida em dois grupos, para realizarem dois turnos de treinos com o menor número de atletas possível. Apesar disso, não se sabe quando irão retomar as competições oficiais. “Deram o ok para os treinos, outra coisa é dar uma data para as competições”.

De qualquer das maneiras, com o regresso dos treinos e com a abertura dos ginásios, a tarefa de manter a forma física já é mais facilitada, quando comparada com o período em esteve tudo encerrado devido à pandemia. “Foi complicado, muito complicado com tudo fechado”, diz André, recordando aqueles meses em que a vida coletiva paralisou devido à covid-19. Nesses meses, procurou “fazer exercícios físicos” em casa, muitas vezes realizando videochamadas com amigos açorianos – “era uma maneira de treinarmos juntos, tinha de ser, não havia outra forma”.

Mais complicado foi estar longe da família num momento de aflição pandémica. “Estive sempre preocupado, queria ver os meus familiares”, diz, referindo que chegou a ter receio de que as ligações áreas não retomassem. Quando retomaram, em julho, Rochinha fez o teste à covid-19 e mal deu negativo foi “matar as saudades”. Voltou à sua terra, a Lagoa, para celebrar o aniversário. “Sei que era arriscado ir nessa altura, mas as saudades falaram mais alto. E fui com toda a segurança”, ressalva. Foi com a namorada, luxemburguesa, com quem vive. Além do reencontro com a família, uma parte muito positiva de viagem, foi que a namorada ficou encantada com a ilha. “Quem é que não gosta dos Açores, não é verdade?”

“Nada cai do céu”
Outro dos impactos da pandemia foi o fim das competições profissionais. Um “desânimo” para um jogador que entra em campo com o objetivo da vitória. A equipa de Rochinha estava nas meias finais da Taça do Luxemburgo, com o “objetivo” de ganhá-la. Devido à pandemia, as competições terminaram como estavam, sem direito a vencedores. “Ficou tudo pelo caminho”. Agora, só para a próxima época.

E para a próxima temporada o US Esch assume a intenção de chegar ao título de campeão nacional – é a “ambição” do clube e o “presidente até investiu mais um bocado” a pensar nisso. André é cauteloso, referindo que é preciso dar “um passo de cada vez”. “Às vezes não interessa ter uma grande equipa, é preciso é muito trabalho. É preciso trabalhar muito para chegar lá. Nada cai do céu”.

Diz ele que o trabalho tem sido a fórmula para a sua carreira. Está no Luxemburgo desde 2018 e em três épocas representou três equipas diferentes. A temporada passada, ao serviço do Racing FC, cumpriu um dos objetivos da carreira: jogar na Liga dos Campeões em futsal. “Não passamos a fase de grupos, mas era um objetivo que tinha”, diz Rochinha, referindo-se à atuação no palco principal da Europa do futsal. Um objetivo que ainda tem presente: “quero voltar à Champions outra vez para fazer melhor. Não se pode parar, parar é morrer”. Diga-se que, no jogo em causa, na Áustria, Rochinha jogou e marcou.

A entrada no Luxemburgo deu-se pela porta do Sparta Dudelange, na época 2018/2019. Aí assume que “custou mais um bocadinho”, devido à adaptação a uma nova realidade, sobretudo num clube que “não estava habituado” a contratar estrangeiros.

A carreira de Rochinha tem sido uma constante adaptação a realidades diferentes. Puxando o filme atrás: no início da carreira, depois de ter saído do Lagoa e Benfica, passou pela Atalhada e pelo Operário. Esteve no Operário de 2012 a 2015, altura em que os ‘fabris’ estavam na primeira liga do futsal nacional. Foram as exibições no principal escalão que abriram as portas do futsal internacional a Rochinha.

Em 2015, rumou ao Chipre, para jogar no Anortosis, um dos grandes clubes daquele país. Depois foi para França, para o Martel, da segunda divisão, e na época seguinte passou por Itália. No país da ‘bota’ as “coisas não correram muito bem”, devido a “problemas pessoais”: “estava com a cabeça nos Açores e o corpo em Itália”. Ainda voltou a França, para o Toulouse, onde teve uma breve experiência antes de rumar ao Luxemburgo.

Numa carreira ainda com muito futuro, é já certo que também já há muita história para contar. De todas as experiências, Rochinha destaca a do Chipre, onde jogou num dos “grandes” clubes – “é como se fosse o Benfica”, compara. “Era uma coisa incrível. Tínhamos grandes condições, os adeptos queriam tirar fotos connosco, senti-me uma estrela. Foi uma grande experiência”.

Para o futuro, o craque lagoense mostra a “ambição de voltar a Portugal” para representar um clube da primeira divisão. “Tudo depende do trabalho e dos meus resultados pessoais e de equipa”. Depois, então, não esquece: “tenho o desejo de voltar para os Açores, talvez para a reforma”, diz entre sorrisos. Um desejo normal, uma vez que não há mar como o dos Açores. “O que sinto mais falta é do mar. Crescemos rodeados do mar e aqui no Luxemburgo estamos à volta é de vários países. Não há mar”.

Rui Pedro Paiva

(Reportagem publicada na edição impressa de setembro de 2020)

Categorias: Desporto, Reportagem

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