Quatro paredes nos deixaram a Nu

Matilde Dias Pereira Sabino
Psicóloga Clínica e da Saúde

Depois do que foi um dia normal para todos chegou a declaração de Estado de Pandemia e logo de seguida a Quarentena Obrigatória. De um dia para o outro, fomos obrigados a fecharmo-nos em quatro paredes, durante dias que pareciam não ter fim, marcados pela obrigação de estarmos confinados, com saudades da família, dos amigos, da nossa rotina habitual, com medos e prazos indeterminados. Estas foram as emoções e pensamentos, que nos deixaram a nu, na nossa fragilidade humana.

Medo (Estado emocional resultante da consciência de perigo ou de ameaça, reais, hipotéticos ou imaginários). É uma emoção muito negativa que tem como efeitos secundários ansiedade, instabilidade, dificuldade em visualizar o futuro, irritabilidade, insegurança, entre outros. Todos nós o sentimos de alguma forma e, muitos continuam a sentir, pois a propaganda do Medo continua e nós ficamos indefesos.

Tristeza (Qualidade ou estado do que é ou está triste; Mágoa; Aflição; Pena; Angústia; Inquietação; Melancolia). A Tristeza é uma emoção dolorosa, pois quando surge fica, até ao momento em que se consegue ter força suficiente para lhe darmos a volta, dar lugar à coragem, à Aceitação e à força para continuar a caminhar.

Saudade (Lembrança grata de pessoa ausente, de um momento passado, ou  de alguma coisa de que alguém se vê privado; Pesar, mágoa que essa privação causa.) A Saudade mói, inflama o espírito e a mente. Um sentimento que nós portugueses trazemos nos genes a sua génese e, a música que lhe dá forma se chama Fado que, também significa Destino.

Futuro (Que há-de ser, há-de acontecer ou há- de vir por exemplo: acontecimentos futuros; gerações futuras). O Futuro é- nos desconhecido, mas no Presente criamos e trabalhamos perspetivas para implementar e dar forma a esse Futuro, o que implica sonhar, imaginar e acreditar.

Presente (Que está à vista; Evidente, Manifesto; Patente). O Presente, é o Agora, é o momento presente, que dali a um minuto já é passado e não volta mais.

Quando quatro paredes se fecharam sobre nós e, ficamos com Medo. Depois, fomos autorizados a sair dessas quatro paredes, mas continuamos com Medo. Tudo o que nos rodeia, media, internet, conversas de café, etc., têm como tema o Vírus Covid-19. Esse inimigo invisível que nem tem nome de vírus, parece um código e é, e está codificado nas nossas mentes e nos provoca ainda Medo. Medo de contrair a doença, de a transmitir a alguém, que as pessoas de quem gostamos a contraiam e acima de tudo, que a nossa Vida, pare outra vez e tenhamos de voltar às quatro paredes, cheios de Medo.

Os dias foram passando depois do dia 13 de Março de 2020 e ficamos tristes. Tristes por estarmos sujeitos a uma condição que não pedimos, que nos impediu de viver as nossas vidas como sempre o fizemos. Tristes por não poder partilhar os nossos dias, não podermos abraçar quem gostamos, não nos podermos despedir de quem partiu entretanto, de simplesmente sair à rua em Liberdade e simplesmente Ser.

Depois da Tristeza veio a Saudade. Esse sentimento doloroso, que se impõe quando já estamos há demasiado tempo longe da nossa rotina habitual, dos que amamos, dos amigos, das nossas atividades de lazer e do Ser Livre. A certa altura, começamos a sentir saudades daquilo que era para nós uma vida “normal”, sem medos, onde não estávamos dependentes de uma guerra que se passava do lado de fora da porta e que, quando a abríamos víamos apenas ruas vazias.

Quando se sentiu o medo, a tristeza e a saudade começamos a hesitar em relação ao Futuro. Pareceu que nos tinham de repente roubado os projetos, as expetativas e os sonhos. Ficou tudo em standby e o medo, a tristeza e a saudade aumentaram ainda mais. Ficamos sem chão dentro das quatro paredes. Questionamos o nosso futuro e o dos nossos filhos, pois o medo tolda o raciocínio, a esperança e a criatividade. Nada pareceu como antes, em que a liberdade fazia girar o mundo e o mundo era nosso, assim que começávamos a sonhar.

Na realidade, colocando tudo isto de forma simples, resta-nos a realidade e o momento Presente. Mas a realidade, é aquilo a que damos importância e o que determina como a queremos viver no Presente. Para viver nesta realidade que ainda ruge de forma gritante do início ao final dos nossos dias, temos de dar o passo mais importante de todos: Aceitar. Não vale insistir no “porquê a nós”, “o que fizemos para merecer isto” ou ainda “será que isto nunca mais acaba?”. Temos de aceitar o que vivemos, os desafios que a situação impõe e ser fortes. Temos de aprender a estar informados, a cumprir, mas a criar filtros para nossa defesa. Filtrar a informação que nos chega e a perceção que temos e a que nos querem impor, da realidade atual. Nós estamos vivos, os nossos filhos também e, sobrevivemos às quatros paredes. Muitos redescobriram cônjuges, filhos que afinal não eram só malcriados, mas que estavam por demais necessitados de tempo e amor, que não podíamos disponibilizar na nossa vida corrida e apressada, antes da pandemia.

Temos de compreender e aceitar que todos os dias há graves problemas no mundo que, na sua capacidade destrutiva são tão ou mais graves que a pandemia. É preciso respirar fundo e confiar no processo. Uma das formas de contrariar os efeitos da realidade quando é dura é, Aceitar e tentar retirar daí tudo o que traz de positivo, as aprendizagens positivas.

A pandemia veio ensinar que precisamos Todos uns dos Outros, que devemos unir-nos quando todos estamos ameaçados por igual e que, a nossa História confirma que, quando nos tornamos Um, superamos Tudo. Assim, parece-me que, devemos olhar para o lado e ver o Outro na sua globalidade, com as mesmas fragilidades e sentimentos que nós. Sermos uns para os outros, apoiando-nos, quer seja numa palavra de conforto, numa tigela de sopa ou num simples olhar nos olhos e dizer com genuinidade, “Bom dia!”. Temos de tomar posição de uma vez por todas e percebermos que não somos marionetas dos acontecimentos, mas sim atores e atrizes da vida real, tal como se nos apresenta e, sermos positivos e proativos. Temos de ter Fé. Fé em nós e em Algo que é superior a nós e que nos Quer muito bem. A Fé não é uma emoção, é um sentimento. Esse sentimento é importante, porque é uma âncora em tempos agitados, sejam quais forem, a perda de alguém, a perda do emprego, um divórcio e inclusive uma pandemia. Nada dura para sempre e, o momento Presente é a maior jóia que temos. Então, sejamos Gratos. O sentimento de Gratidão, por mais um dia com vida e saúde nossa e dos nossos, é um presente Divino! Ser agradecido pelo que se é, pelo que se tem, pelo que se alcançou traz uma paz interior enorme e, a sensação de bem-estar connosco próprios.

Não temos de mudar de vida, mas mudar de paradigma na forma como vivemos e, a lição mais bonita que esta pandemia trouxe é que, a única linguagem que conhecemos é a do Amor, que é Universal, que nunca acaba e é para Todos. Então tentemos ver nas caras dos Outros, a nossa própria e agir. Agir com o Outro como gostávamos que este agisse connosco. Dar mais, do nosso tempo, da nossa atenção, da nossa compaixão. Tudo passa e quando a pandemia passar, vamos continuar cá nós a viver lado a lado em família, em comunidade, em sociedade, mas temos de permanecer unidos, pois o mundo só muda nessa condição.

Vamos ser felizes, retomar velhos hábitos, filtrar o que vemos e ouvimos nas televisões, o que lemos nos jornais e nas redes sociais. Uma “pandemia” já existia antes do Covid-19 e era bem mais preocupante: Estava-mos de costas voltadas uns para os outros, já tínhamos sobreposto a comunicação virtual à real, estávamos a correr, as famílias já não partilhavam momentos, não se praticava a escuta ativa, a atenção plena, as crianças e jovens estavam entregues a si próprias, a falta de supervisão parental era quase um problema de saúde pública, a violência era a linguagem corrente, o desinteresse pelos mais necessitados era gritante, os idosos eram empecilhos, as caixas de esmolas estavam vazias, as igrejas sem preces, a natureza a tentar sobreviver, os recursos a terminar, a ganância a sobrepor- se à riqueza que é o Ser Humano e o mais importante, a Linguagem que conhecemos, porque a trazemos connosco, que é a do Amor, calou-se.

Não nos deixemos anular, calar e parar de lutar pelo Medo. A Esperança não é a última a morrer, somos nós antes dela, se deixarmos de ser quem Realmente Somos.

Categorias: Opinião

Comentários

  1. Maria rosario 21 Agosto, 2020, 16:44
  2. Lina Raposo 19 Agosto, 2020, 23:01

    Tudo tão certo minha querida amiga te adoro muito e obrigada por tudo que tens me ajudado e há minha família beijinhos

    Responder a este comentário

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