Projectar (o futuro)

Alexandre Pascoal
Gestor Cultural

A pandemia veio alterar profundamente a forma como socializamos, sobretudo, devido às restrições sanitárias e ao distanciamento social.

Um dos impactos mais visíveis (e significativos) ocorreu no normal funcionamento das actividades culturais, recreativas e desportivas.

Apesar de estarmos longe de contabilizar a real dimensão dos prejuízos infligidos por este tempo (de avanços e recuos), existem dados concretos, por exemplo, em relação ao cinema e às salas de espectáculos, os primeiros espaços a ser encerrados e, até ao tempo presente, marcados por vários períodos de interrupção.

Esta situação fez com que a maior parte dos eventos fossem cancelados, adiados ou, como solução de recurso, adaptados a edições online.

Nestes dois anos, a maior parte dos festivais de cinema premiou filmes que não foram exibidos em sala, sendo que a maior parte deles foi vista no sofá através das múltiplas plataformas de streaming. As quais assistiram a um crescimento inusitado, durante este período, consolidando a tendência que já existia, a de transferência dos canais generalistas para conteúdos pay-per-view (PPV).

No passado recente, vimos encerrar salas de cinema tradicional em detrimento de espaços multiplex localizados no interior de centros comerciais, uma realidade que, também, atingiu os Açores.

Contudo, assistir a filmes em casa não compromete a sua exibição na sala de cinema, esta passa a ser uma experiência social, diferenciadora e, expectavelmente, mais interessante.

Ao contrário de alguma opinião mais catastrofista, encaro a difusão do cinema e de filmografia menos reconhecida (das grandes audiências), por via digital, como uma forma de chegar a um público novo que, posteriormente, assim o espero, procurará, naturalmente, a exibição numa sala de cinema.

Acredito que qualquer pessoa que goste, ou se interesse por cinema, acaba por querer vê-lo em sala, independentemente do formato onde possa tê-lo visto anteriormente. Dai que, nestes dias que correm, considere a importância de reabilitar a exibição de cinema em sala, como um serviço público, na medida em que o encaro como um elemento pedagógico, fundamental e plural.

A resposta a esta intenção está no recente inquérito às práticas culturais dos portugueses – encomendado pela Fundação Gulbenkian ao Instituto de Ciências Sociais (ICS), no qual podemos observar que o cinema é a atividade cultural com a taxa de participação mais elevada.

Esta reflexão vem a propósito da recente aposta do município da Lagoa, na obra de recuperação e de requalificação do Auditório Ferreira da Silva, na vila de Água de Pau.

Um investimento que responde aos naturais anseios da sua população, acompanhado por uma intenção de descentralização das actividades culturais no concelho, o que na prática corresponderá ao eclodir de uma nova centralidade com epicentro num equipamento cultural (multifuncional).

É importante que este espaço, à semelhança de outros que existem na Lagoa, para além da polivalência que dele(s) se espera, encontre a sua vocação na memória colectiva que lhe está associada, corporizando as dinâmicas culturais locais, acolhendo uma ampla plateia de eventos, sem, no entanto, esquecer a exibição regular de cinema.

Tal como refere o coreógrafo Rui Horta (Público, 26/01/22), “considero a cultura como um fim em si mesmo, a nossa matriz identitária. Aproxima-nos, eleva-nos, e ajuda-nos a cruzar as nossas diferenças – é a cola de que necessitamos num mundo fracturante. Mas devemos entender que, num país pleno de oportunidades, só as conseguiremos aproveitar e, consequentemente, construir o nosso desenvolvimento, se tivermos uma população culta e qualificada.”

Este é decididamente um exemplo a seguir, porquanto pretende constituir-se como um alicerce substantivo da comunidade onde se insere, numa dinâmica que visa projectar o (seu) futuro.

*Por opção, o autor escreve segundo a antiga grafia.

Artigo de opinião publicado na edição impressa de março de 2022

Categorias: Opinião

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