Pessoas ou marionetas?

Maria Luísa da Câmara Pereira
Professora e tutora pedagógica

Uma vez que o mercado procura criar mecanismos de dependência consumista para vender os seus produtos, as pessoas acabam por ser arrastadas pelo turbilhão das compras e gastos desnecessários. O consumismo obsessivo, sentido e praticado por grande parte dos indivíduos, é, sem dúvida, o reflexo subjetivo do paradigma tecnoeconómico. Romano Guardini, escritor e notável teólogo católico do século XX, afirmou a este propósito: “O ser humano aceita os objetos comuns e as formas habituais de vida , tal como lhe são impostos pelos planos nacionais e pelos produtos fabricados em série e, na generalidade, age assim com a impressão de que tudo é razoável e justo.” O referido paradigma faz crer a todo este tipo de consumidores, que são livres, pois conservam uma suposta liberdade de consumir. Neste engano, apenas possui a liberdade a minoria que detém o poder económico e financeiro. Na realidade, a humanidade da pós-modernidade não encontrou uma nova compreensão de si mesma, que a possa orientar e esta falta de identidade é experimentada com angústia, pois perceciona que tem demasiados meios, que todavia se encontram norteados para objetivos escassos e de valor insignificante. Neste sentido, a situação do mundo atual “gera um sentido de precaridade e insegurança que, por sua vez, favorece formas de egoísmo coletivo.”(Romano Guardini). Quando as pessoas se tornam auto-referenciais e se refugiam na ilha confusa e subjetiva da sua própria consciência, tornam-se vorazes. Quanto mais vazio está o seu coração, tanto mais estas necessitam de objetos para comprar, possuir e consumir. Em tal contexto, não parece possível para uma pessoa aceitar que a realidade lhe coloque limites; neste horizonte não existe sequer a noção de um verdadeiro bem comum. Se este é o tipo de sujeito que tende a predominar numa sociedade, as normas serão respeitadas apenas na medida em que não contradigam as necessidades próprias. Nesta medida, não se pense só na possibilidade de terríveis fenómenos climáticos ou de perigosas epidemias virais, mas também nas catástrofes resultantes de crises sociais, porque a obsessão por um estilo de vida, sobretudo quando poucos têm a possibilidade de o manter, só poderá provocar violência e destruição recíproca.

Como otimista que sou, acredito que nem tudo está perdido, porque os seres humanos, capazes de tocar o fundo da degradação, têm ao seu alcance a opção de superar-se, voltar a escolher o bem, que passa pela observação do bem comum e regenerar-se, para além de qualquer condicionalismo psicológico e social que lhes seja imposto. Nesta mudança de atitude, serão capazes de olhar para si mesmos com honestidade, exteriorizar as próprias penas e encetar caminhos novos, rumo à verdadeira liberdade. Partilho a ideia de que não há sistemas que anulem, por completo, a abertura ao bem, à verdade e à beleza, nem à capacidade de reagir, que a Bondade divina continua a estimular no mais recôndito do coração humano.

Neste contexto, para que não nos tornemos marionetes, acionadas pelos interesses das minorias do capital selvagem, vale a pena não esquecermos a nossa dignidade, aquela liberdade genuína, que nos torna autênticos seres humanos e que ninguém tem o direito de nos tirar.

Romano Guardini, Das Ende der Neuzeit (O fim da época pós-moderna)
Papa Francisco, Laudate Si

(Artigo de opinião publicado na edição impressa de agosto de 2020)

Categorias: Opinião

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