Os tempos do tempo…!

Alexandre Oliveira
Professor

Desde o princípio da civilização que o homem sentiu a necessidade de marcar a passagem do tempo! O relógio e o calendário são dois auxiliares preciosos para esta tarefa, seja na vida pessoal, seja num contexto profissional, ou outro. Ao longo dos séculos sofreram muitas evoluções, mas já mais perto de nós era comum verem-se os calendários pendurados nos mais diversos espaços das casas ou espaços comerciais. Em alguns cortavam-se os meses pelo picotado, noutros viravam-se as páginas e, a cada mês, surgiam novas imagens. Qualquer que fosse o seu formato, a sua finalidade comunicativa era a mesma. Os relógios… fossem de pulso, de parede ou de mesa, cronometravam o ritmo de cada dia, com tic-taques mais ou menos sonoros. Curiosamente, parece que aos poucos tudo muda e se concentram agora os olhares nos Smartphones, que com uma aplicação para cada necessidade ou utilidade colocam na palma da mão toda a informação. Os calendários e relógios quase que ameaçam ficar fora de uso e começam a ser objeto de alguma nostalgia!

Nos meios agrícolas e piscatórios, sobretudo, ainda se assiste a uma outra forma de contabilizar o tempo no dia a dia. Assim, é muito curiosa a forma empírica que transita de geração em geração e que se serve de muitos sinais da natureza para definir muitas das ações das suas atividades. A escolha da lua favorável para as culturas, seja para semear, seja para as colheitas; a escolha do tempo certo para as podas, que os mais velhos sentem no ar, com o frio que acaba e o querer chegar do início da primavera; são as mesmas vozes sábias que diziam que “quando os pombos andam nas espigas, então pode-se colher o milho”. Também os pescadores têm os seus “sinais” que determinam o tempo certo para o lançamento de cada arte de pesca ou outras manobras. Sabem ler as nuvens, o movimento das águas, os ventos e o voo dos pássaros. Mais do que qualquer aplicação, ou compêndio científico, o saber destes rostos de pele queimada pelo sol em terra, ou pelo sal no mar, transmite a sabedoria adquirida pelas experiências de vida desde há muitas gerações.

Um destes dias, passeava por um jardim da ilha e vi que os ouriços de um castanheiro já estavam a cair e com as castanhas maduras. Mas, como dizia o meu avô, não deveriam estar as castanhas maduras só lá para meados de outubro? Talvez os tempos do tempo da natureza também se estejam a ajustar e tenhamos que rever os postulados empíricos que chegaram até nós.

A verdade é que com as chuvas de agosto, “as meninas para a escola” começam a despontar da terra e a espalhar um colorido rosa pelos caminhos da ilha, sensivelmente ao mesmo tempo que já se arranjam as mochilas para o recomeço das aulas. Não serão só coincidências! Os tempos do tempo da natureza são reais.

Indiferentes a relógios ou calendários, os galos, sem atrasar ou adiantar, continuam a cantar com o raiar do dia despertando todos para nova jornada!

(Artigo de opinião publicado na edição impressa de setembro de 2020)

Categorias: Opinião

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