“Os problemas escolares ainda estão muito presentes no concelho”

Pandemia fez aumentar o número de sinalizações escolares avança a Presidente da Comissão de Proteção de Crianças de Lagoa que explica como se processa o trabalho da instituição

Vera Libório é formada em sociologia e sempre se dedicou ao trabalho com públicos jovens Foto DL

Fala de forma clara e sem hesitar durante as frases que escolhe para comunicar. Vera Libório tem 39 anos, é licenciada em Sociologia pela Universidade dos Açores, e desde cedo se dedicou aos mais novos, sempre na Casa do Povo de Água de Pau. No último ano e meio, e com as funções de coordenação, acumula a de presidente da Comissão de Proteção de Crianças e Jovens (CPCJ) de Lagoa. Diz que leva para casa a emoção de ter de gerir a vida humana. É mãe adotiva de dois gémeos e fala com conhecimento de causa sobre o que implica adotar, institucionalizar ou orientar famílias em situações de risco.

DL: O que faz uma CPCJ?
Acima de tudo, a proteção das crianças e dos jovens. A visão que se tem da comissão já está bastante melhor a nível geral. Lembro-me de há 15 anos a comissão ser sempre vista, como vulgarmente se dizia, como «o pai dos menores» que servia para tirar as crianças às famílias. O maior ganho que tivemos nos últimos tempos foram as nossas parcerias com as escolas, a nossa proximidade com as instituições locais. A visão que a escola tem da CPCJ também é diferente porque anteriormente tínhamos profissionais quer de saúde quer das escolas que tinham medo de sinalizar para a CPCJ com medo de represálias. Hoje em dia isso já está um pouco ultrapassado e já está intrínseco que faz parte da nossa obrigação enquanto cidadãos, denunciar situações que não estejam bem. Qualquer um de nós, enquanto cidadão, pode denunciar uma situação.

DL: Qual é a parte mais gratificante do seu trabalho?
Vou responder de uma maneira que é muito minha, que é com o coração. Eu acho que para se assumir um cargo destes, tem que se sentir no coração e tem que se gostar desta causa. Eu aceitei, não por ser a melhor altura da minha vida, porque eu tenho dois gêmeos que foram adotados e que estavam comigo há dois anos. Se calhar, não era a melhor altura da minha vida e levei 1 mês a aceitar mas senti que era um chamamento, uma missão que tinha que ter. Decidir a vida de alguém é muito difícil, por vezes não sabemos decidir a nossa própria vida quanto mais a dos outros. A institucionalização de uma criança é uma decisão difícil que é mal vista por quase toda a gente. Mas também temos de ter um pouco de cabeça fria, não ter só coração, e pensar nos ganhos que aquela criança vai ter numa instituição e que pode não ter em casa. Assim podemos estar promovendo um ambiente mais feliz, mais saudável na instituição que não é família mas se calhar é melhor que se tem em casa. A CPCJ tem uma parte muito emocional que eu levo para casa todos os dias. Não tenho férias, não tenho fins de semana, tenho sempre o telemóvel comigo, já tive de sair de casa para ir resolver situações. Temos de gostar verdadeiramente disto. Acho que temos feito um excelente trabalho de equipa.

DL: Aumentou o número de crianças em risco em comparação com o mesmo período do ano passado?
Temos 139 processos ativos, onde cada uma das crianças ou jovens é acompanhada por nós. A maioria são crianças que estão nas suas famílias e nós fazemos o acompanhamento dessa família. Os problemas escolares ainda estão muito presentes no concelho, abandono, absentismo. O maior número de processos são entre os 11 e os 17 anos e as problemáticas são a negligência, violência doméstica, estando as crianças envolvidas nesse contexto.

DL: A pandemia acentuou que problemas?
Situações de violência doméstica. Em qualquer família durante a pandemia, tínhamos pais que tinham de ser educadores, funcionários, professores. Mesmo numa família estruturada não foi fácil. No caso de uma família que não é estruturada, que não tem por base a valorização escolar, onde vivem 10 ou 15 pessoas na mesma casa, claro que os problemas de álcool, violência doméstica acabam por aumentar. Durante a pandemia tivemos muitas sinalizações da questão escolar. Nem todos os pais estavam preparados para dar apoio ao ensino à distância. Tivemos situações de escolas a tentar contatar os pais, mesmo tendo disponibilizado os computadores, alegava-se que nem sempre funcionou.

DL: O número de sinalizações aumentou durante a pandemia?
Em termos gerais acho que não. Mas a nível escolar houve muitas mais sinalizações por causa do ensino à distância.

DL: Que tipo de acompanhamento é feito junto das famílias?
Contatos presenciais, visitas, contatos telefónicos, com entidades que estejam diretamente ligadas ao processo em causa. É um trabalho de muita proximidade com a família e mesmo neste período de pandemia tivemos que funcionar. Encerramos as instalações porque teve de ser mas estivemos sempre a trabalhar no ativo. O telemóvel estava 24h por dia ligado, chegámos a fazer algumas visitas domiciliárias de situações mais delicadas, mantivemos contato com as famílias e também fizemos reuniões por videoconferência.

DL: A institucionalização é o vosso último recurso. Quando é que ela tem efetivamente de acontecer?
A ideia que temos é que a institucionalização parte sempre da CPCJ mas nem sempre, há famílias que pedem a institucionalização, já tivemos. A maior parte das vezes parte da CPCJ esta proposta. A parte da institucionalização é sempre o último recurso ou em casos de negligência grave. A Comissão faz uma proposta de acolhimento à família e a família aceita ou não.

DL: E se não aceitar?
Se não aceitar, o processo é enviado para o tribunal, em última instância. Não tomamos a decisão contra a família. É sempre explicado o porquê, as vantagens do acolhimento, o que se prevê para o futuro e a família pensa se aceita ou não.

DL: São mais os casos de aceitação do que os de recusa por parte das famílias?
Talvez cinquenta, cinquenta. Nunca é uma decisão definitiva, é provisória. E mesmo depois dos 18 anos o próprio jovem pode pedir ajuda à CPCJ e se desejar as institucionalizações podem ir até aos 25 anos. A própria instituição é que prepara a sua autonomia de vida. Quando encerramos um processo e vemos que teve sucesso e que aquela família se reestruturou é muito gratificante. Também é muito bom ver os miúdos crescer, ganhar o seu projeto de vida e sentir que fomos um pontinho naquele projeto de vida e marcamos positivamente a vida das pessoas.

Sara Sousa Oliveira

(Entrevista publicada na edição impressa de agosto de 2020)

Categorias: Entrevista

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