Os museus não tiram férias. E se tirassem?

Joana Simas
Museóloga

Passa pouco mais da meia-noite do novo ano que acaba de chegar e, de mansinho, começam-se a ouvir vozes que ecoam com planos para as férias de verão. É assim com antecedência que muitas pessoas preparam as férias de verão fazendo-nos acreditar que vivemos mediante dois grandes ciclos: o ciclo do Verão e o ciclo do Natal. A Páscoa e o regresso às aulas reportam para uma fase intermédia destes dois grandes ciclos, soando como aviso de que num abrir e fechar de olhos estamos quase a chegar ao tempo do calor ou ao tempo do frio.

Vem o verão e o movimento começa a notar-se com a presença de turistas a circular por todo o lado e ficamos deslumbrados a olhar para o calendário, contando cada dia a menos que falta para as tão desejadas “férias grandes”.

Se fizesse um inquérito sobre o que significa esta estação do ano para cada um dos leitores, apostava em seis palavras que melhor a resumiriam: sol, praia, piscina, férias, churrasco e viagem. Para muitos é uma estação adorada, para outros nem tanto, mas é inegável que é a altura do ano que influencia o nosso estado de espírito, para melhor, e nessa matéria a ciência tem realizado vários estudos que o comprovam.

Esta é, sem dúvida, a época em que a programação cultural é mais vasta e diversificada, por vezes até se torna um pouco complicado para marcarmos presença, obrigando a fazer-se escolhas, por coincidirem eventos a que se desejava ir. Mas é de louvar o grande esforço dos municípios em atrair residentes e visitantes, das várias faixas etárias, a participarem nas atividades culturais propostas, indo ao encontro dos vários interesses e gostos.

No que toca aos museus, os meses de verão são os mais movimentados, tanto para os espaços museológicos de grande renome como para os menos conhecidos, por serem um dos polos de atração turística. No entanto, o número de visitantes, em alguns museus, fica aquém das expectativas. No contexto da realidade micaelense, alguns destes espaços são vistos pelos visitantes como um recurso para o Plano B (quando os dias não estão tão convidativos para se andar no meio da natureza) e para outros, nem no plano principal ou secundário do roteiro pessoal se regista. Perante este cenário, onde alguns espaços museais, por vezes, registam por dia zero entradas, surge uma breve reflexão: e se todos os museus tirassem férias nesta época face a esta última situação? Com esta questão, rapidamente surgem respostas: de portas fechadas o público seria impossibilitado de conhecer e compreender a história e identidade do território que estão a visitar e/ou a residir; seria impedida a fruição de um espaço de contemplação de arte que favorece o bem-estar mental; e provocaria um retrocesso na cultura, menosprezando o saber e valorização cultural.

Assim, ainda que haja que encontrar novos incentivos para atrair mais público para aqueles museus menos procurados, alegremo-nos com as oportunidades que são dadas para o público frequentar os museus nesta altura do ano, quer através do alargamento do horário de funcionamento, quer pela gratuitidade no ingresso, quer pela abertura em horários menos convencionais, por exemplo à noite, com atividades especiais que permitem experiências diferentes. Apesar de ser uma época mais propícia para se tirar férias, os museus não tiram férias, mas permitem que os visitantes façam férias nos museus.

Artigo de opinião publicado na edição impressa de agosto de 2022

Categorias: Opinião

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