Opinião: Tango e capulanas

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Acordo na manhã sul-africana. Quente e seca, que setembro e outubro são meses de primavera e, no hemisfério sul, ainda não chegou o período das chuvas.

Este foi um mês cheio. Cheio de viagens (o que já não consegue ser novidade…), mas cheio, sobretudo, de experiências e de vivências.

Em Buenos Aires, a cidade mais musical do mundo, em que o tango e Gardel se entrelaçam esquina após esquina, em que o “microcentro” se enche de nativos e turistas para sentirem e cheirarem tudo o que a música tem para nos oferecer. Uma paixão antiga, esta capital argentina em que o castelhano é incomparavelmente menos rebuscado que na Europa, em que os preços galopam por força de uma inflação desmesurada, em que pobres, remediados e ricos pisam as mesmas calçadas e respiram o mesmo ar leve e seco, apesar de estarmos na foz do rio de La Plata e paredes-meias com o Atlântico.

E depois, as rivalidades. Tão doentias e determinantes que o argentino parece encarar o desporto como religião e a demonstração de amor pelo emblema como fé indestrutível. É, dizem-me, “uma questão cultural”. Boca Juniors e River Plate, os “gigantes” que apaixonam os “porteños”, até nasceram no mesmo bairro, mas uns degeneraram para a zona rica de Belgrano e Núñez, enquanto outros se mantêm fiéis às raízes populares do bairro de La Boca.

É o desporto na sua face mais intolerante. O respeito pelo emblema é infinitamente superior ao respeito pelo adversário ou pelo ideário das boas práticas. Rival é rival. Quase, em Buenos Aires, se confunde com inimigo.

O argentino é assim, em tudo o que faz, em tudo o que diz. Vida difícil ao longo dos tempos, recuperação da ditadura de Jorge Videla, o general que, em 1976, depôs, pela força das armas, Estela Perón.

O argentino sabe que os tempos são duros, que o seu país ainda não recuperou das mazelas coletivas de uma América latina em sucessiva crise e convulsão política, económica e social. Mas vive, sobrevive. E sorri, como se desse sorriso dependesse todo o seu futuro, ainda que ele, o futuro, se possa resumir ao almoço de hoje e ao tango de sempre.

Depois, o mês de hemisfério sul faz-me passar o Atlântico para nascente. Maputo, a cidade das acácias rubras. O desenho esbelto, a silhueta colonial que, ainda hoje, marca de modo incontornável a arquitetura urbana da antiga Lourenço Marques. Regresso a Moçambique depois de uma ausência de 15 anos. Ao contrário de Luanda, a capital mantém um ar suave, tão suave como os sorrisos desarmantes de um povo também habituado a sofrer agruras e dificuldades.

A história, sendo cíclica, ensina-nos que é nos problemas que reside o progresso. Na sua identificação, na sua ultrapassagem, no modo como são torneados os obstáculos. E, nesse campo, o moçambicano continua a dar cartas e a mostrar como se pode fazer das fraquezas forças e das dificuldades oportunidades.

Fica no ar o cheio a Índico, a proposta irrecusável de um banho no oceano místico, o gigante camarão grelhado ou a matapa, o prato típico com mandioca e castanha de caju. Fica a clara sensação de que Moçambique, um dos países mais pobres do mundo, busca a felicidade nos pequenos momentos, na expressão nativa, no cumprimento de rua, no colorido das capulanas, o pano colorido com que a mulher se envolve de encantos e segredos por revelar.

Tão longe, tão diferentes. Buenos Aires e Maputo, Argentina e Moçambique. Tão próximas nos olhares, nos sorrisos, na proximidade. Tão marcantes, tão tolerantes nas culturas que se cruzam, nas palavras que ficam no ar, nos modos e nos jeitos. Tão humanas, tão cruzadas na história e nas estórias. Vidas difíceis, passados de luta.

Futuros que os povos agora constroem com uma única certeza: nada será tão mau que não possa ser transformado com a força de vontade do povo. Ao sol do sul, uma lição, afinal.

Por: Rui Almeida

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