Opinião: Como era antigamente?

Samdro-Monteiro-opiniao-cronicas-antigamente

CIRCULO DE AMIGOS DA LAGOA

Nos Açores, como o resto do país, o dinamismo laical foi cada vez mais denso e diversificado, a partir de meados do século XX. Neste meio ativo e de agitação política e social, um grupo de lagoenses sentiu a necessidade de corresponder aos ideais em voga e contribuir para o bem comum, entendendo que não bastaria a prestação monetária ou o auxílio material aos mais desfavorecidos, mas que se poderia ir mais além – formar e preparar a comunidade local de forma mais ativa e consciente. 

Entre 1955-1956, Jorge Amaral Borges e Jorge João Borges fundaram a Conferência Vicentina de S. João de Deus, no Concelho da Lagoa, com a finalidade de promoção da ajuda ao próximo e de consciencialização da população para a grandeza e o ideal de um Cristianismo social. A primeira ação da Conferência Vicentina, na Lagoa, foi de âmbito caridoso, através da entrega de senhas para distribuição de alimentos, no valor de 2$50 e de 5$00, às famílias mais pobres da localidade. Além desta doação, reuniam-se quinzenalmente com a finalidade de analisar as visitas efetuadas e avaliar as ocorrências de injustiça social. Pouco a pouco, sentiram não ser suficiente. Era preciso pôr cobro à resolução de problemas habitacionais que afligiam muitas famílias lagoenses. 

Por outro lado, os membros da Conferência Vicentina de S. João de Deus começaram a assistir a celebrações protestantes e a palestras proferidas no Cine Lagoense e no Ateneu Comercial, pelo pastor Dimas de Almeida. Foi neste contexto que nasceu o Círculo de Amigos da Lagoa, com o objetivo de desenvolver o concelho e apoiar as suas gentes mais carenciadas, de forma ordenada e atuante e, principalmente, sem fiscalização da Igreja. 

O Círculo de Amigos da Lagoa começou as suas atividades a 24 de março de 1969, através da constituição de uma Comissão de três elementos e os seus Estatutos foram aprovados, pelo Governo Civil do Distrito Autónomo de Ponta Delgada, a 26 de novembro de 1969. Esperando-se, pois, que o Círculo de Amigos da Lagoa fosse legal e politicamente doutrinado, a Associação apenas iniciaria, oficialmente, a sua atividade a 14 de fevereiro de 1970, através de alvará concedido pelo Governador Civil da época, Dr. Luciano Machado Soares.

Os principais objetivos do Círculo de Amigos da Lagoa eram a difusão cultural, a valorização do património artístico e o fomento do desenvolvimento moral, cultural e social do concelho. Para tal realizaram conferências, concursos artísticos, recreativos e desportivos, jogos florais e exposições de várias temáticas com interesse regional. Pretendiam também cooperar no estudo e solução de problemas concelhios, bem como auxiliar os desfavorecidos locais, caso lhes fosse solicitado.

Em outubro de 1970, numa entrevista concedida ao Jornal Açores, Jorge Amaral Borges salientou que o principal propósito da Associação era a valorização humana, que tudo era feito por amor a Deus, para que se atingisse o desenvolvimento integral do Homem. Acrescentou, ainda, que se tornava indispensável, portanto, a participação da comunidade, pois não se poderia continuar indiferente nem impassível. Salientou que se encontrava em jogo a promoção social e cristã do Homem e que todos deveriam saber assumir as suas responsabilidades sociais. 

Antes da aprovação dos Estatutos, entre abril e junho de 1969, o Círculo de Amigos da Lagoa já organizava atividades e palestras. Com a formalização da Associação, foram organizados cinco Ciclos de Palestras-Colóquio, entre outubro de 1970 e abril de 1975. As Conferências decorriam às quartas-feiras (salvo raras exceções), pelas 21 horas, no Cine Teatro Lagoense. A diversidade de assuntos tratados ia de acordo com os objetivos da instituição: uma atenção ao desenvolvimento saudável do Homem, apelando a uma cidadania ativa nas suas dimensões sociais (palestras sobre emigração, saúde pública ou desenvolvimento urbano); económicas (conferências sobre agricultura, pesca, moeda ou associativismo); história (comunicações    sobre festas do Espírito Santo ou Antero de Quental); arte (temas dedicados ao cinema, fotografia ou arquitetura); política (apresentação de ideias sobre legislação e teoria política); e educação (questões relacionadas com higiene ou educação física). As Palestras-Colóquio constituíram uma janela aberta para o entusiasmo que pululava, a nível político, no país e na região açoriana. Assim, no decorrer doa anos, os assuntos religiosos foram diminuindo enquanto os temas político-sociais foram ganhando uma expressão mais significativa. 

Nos periódicos eram publicitadas as atividades realizadas, comprovando o sucesso que as mesmas obtinham entre a população. Além destas Palestras-Colóquio, o Círculo de Amigos da Lagoa promoveu outras atividades, como concursos de presépios, exposições, cinema, jogos de futebol, gincanas, corridas de automóveis e de bicicletas, festival de natação com jogos tradicionais. 

De louvar a ação promovida pelo Círculo de Amigos da Lagoa que conseguiu perpetuar, numa dimensão mais reduzida, mas com significativa relevância, o espírito reflexivo e argumentativo que atravessou o País e os Açores, nos últimos anos da Ditadura, garantindo uma difusão de ideias, num período de intensa censura política e contribuindo para a sensibilização e crescimento dos princípios democráticos que conduziriam ao 25 de abril de 1974 e à institucionalização da autonomia dos Açores.

Sandra Monteiro
CHAM – FCSH/NOVA-UAc
ICPJJT

Açores_16fev1971 Açores_26nov1970

Anúncio de Palestras do Círculo de Amigos da Lagoa
Jornal Açores, 26.11.1970 e 16.02.1971

Categorias: Opinião

Deixe o seu comentário