“O único sítio dos Açores onde não cresce um jardim” é “na Assembleia Regional”

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Não foi possível dar às paredes a cor pretendida, a cúpula não esverdeou como devia e as plantas nunca chegaram a cobrir a entrada, mas o arquiteto do parlamento açoriano diz que o edifício mantém a sua essência.

“O edifício da Assembleia [Legislativa da Região Autónoma dos Açores], na sua essência, foi o que foi projetado, o que é bom”, começa por referir Manuel Correia Fernandes, co-autor do projeto, que partilhou com Luís Miranda.

Mas, por razões várias, nem tudo correu como planeado.

No exterior do edifício que ocupa uma zona alta da cidade da Horta, no Faial, “as paredes deveriam ser de um material, que é o betão armado, mas colorido”, explica à Lusa o arquiteto, mas “isto foi feito nos anos ‘80”, quando ainda não havia muita “experiência com betão colorido”.

“Eu queria que fosse um material bruto, muito açoriano, muito bagacina [pedra vulcânica de cor avermelhada], aquela cor que tem a bagacina. Simplesmente não havia ninguém, desde o Laboratório Nacional de Engenharia Civil, aos engenheiros que trabalhavam comigo, ou outros, com experiência na introdução nos betões de inertes coloridos”.

Por isso, não houve “outra hipótese que não seja picar o betão e pintar por cima”, aponta o arquiteto, ressalvando que “não é possível transpor para uma tinta a textura da bagacina”.

A Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores é uma das obras do autor celebradas no livro “Manuel Correia Fernandes. 18 obras”, editado pela Circo de Ideias.

No livro, descreve que o edifício se assume como “um corpo duplo que sai da terra e vai assentar sobre um ‘espaço-praça’, que, por sua vez, sai da cidade”.

Essa “praça concebida como claustro, a partir da rua e sem portas (apenas um sistema de paramentos e colunas), recebe e acolhe os cidadãos que aí quiserem estar, falar, sentir e participar”, lê-se.

Também na praça, a relação do objeto com o imaginado acabou por não se concretizar, mas aí os motivos já foram outros.

“Há qualquer coisa, que eu só posso atribuir a fatores extraterrestres, ou divinos, ou diabólicos, que é, como eu costumo dizer, que o único sítio dos Açores onde não cresce um jardim é no jardim da Assembleia Regional, porque eu sempre imaginei aquelas paredes cobertas de plantas que caíam de cima e de trepadeiras que nasciam debaixo”, confessa.

A ideia era que, “a prazo, aquelas paredes, embora se notasse que eram, evidentemente, construídas, deveriam ser comidas pela vegetação”, mas o arquiteto não conseguiu, “até hoje, que elas o fossem”.

“A mesma coisa se passa com a cúpula de cobre, que eu queria que fosse verde, como se veem as cúpulas de Viena de Áustria, de Paris, por aí fora. A empresa que forneceu o cobre não tinha dúvida nenhuma de que o cobre fornecido, que é um cobre eletrolítico, fica verde muito rapidamente e, sobretudo, à beira-mar. A verdade é que eu não consigo perceber porque é que aquilo não fica tudo verde e tem apenas uns laivos verdes, tem aquela cor do cobre, escura, acobreada, mas não fica verde”, sublinha.

Mais de 30 anos volvidos sobre a inauguração do parlamento açoriano, o arquiteto que o desenhou só consegue chegar a uma conclusão: “fui defraudado, e tenho pensado muito nisso, porque eu queria tudo verde, mas não ficou, nem o jardim, nem a cúpula”, diz entre risos.

Devia ter havido “uma espécie de regresso do edifício à terra, através da vegetação, que é o que cobre a superfície da terra, ficando a cúpula verde e os muros do pátio central cobertos de vegetação, com algum controlo”.

“Mas não consegui isso, é um falhanço”, lamenta Correia Fernandes.

O parlamento açoriano foi inaugurado em junho de 1990, por Mário Soares, então Presidente da República.

Por baixo da cúpula que não esverdeia, sentam-se 57 deputados, eleitos por nove círculos eleitorais de ilha e um décimo círculo de compensação.

A atual legislatura, a 13.ª da história da autonomia açoriana, é a mais diversificada de sempre, com oito forças partidárias representadas naquele espaço.

Mantêm-se os habituais PS, PSD, CDS-PP, BE e PPM, mas, nas eleições regionais de outubro de 2020, ganharam também assento o Chega, a Iniciativa Liberal e o PAN. Perdeu lugar, por outro lado, a CDU.

Inês Linhares/ Lusa/ DL

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