O último rateiro de Água de Pau – terá sido?

Roberto Medeiros

A tia Dos-Anjos “arregalada” pegou no alguidar de barro feito nas olarias de Vila Franca do Campo, o berço da ilha. Comprou-o à porta há já alguns anos, mas ainda tinha gravado no seu ouvido o apregoar do vendilhão de louça na sua carroça!  Eh louça da Viii…

Do vão da escada que dava para o sótão pegou na cernideira, peça de pau sobre que se movem as peneiras da farinha, ao peneirá-la. Estava pendurada num prego torto cheio de ferrugem que servia de cabide.

O sótão, como tia Sofia vivia já só com o seu ‘Invaristo’, servia para os arrumos de lembranças velhas e ratoagem. Os ratos se rebolavam em corridas infernizantes causando noites de insónia a ela, pois o marido tinha o sono pesado e quando caía na cama dormia e roncava tanto, que até fazia parceria com a sinfonia dos ratos, por cima do quarto de cama do casal! Primeiro que se pregasse olho!

Quem podia comprava nas lojas um granulado anticoagulante ou ratoeiras. Mas antes não era assim. Havia os rateiros que iam de porta-em-porta dar descaminho dos ratos a troco de algumas moedas, dezoito vinténs por cabeça, segundo ouvi do Ti Zé Moniz do Valverde de Cima.

O rateiro anunciava a sua entrada nas ruas de Água de Pau através de uma espécie de funil, que lhe aumentava o volume da voz. Noutras vezes, as pessoas já sabiam o dia certo do mês que ele vinha aos ratos.

– Ó senhor rateiro, chegue aqui um instantinho. Combinavam o preço e o serviço. A caça à rataria começava. O rateiro entrava em casa, colocava os iscos em locais que o faro lhe aconselhava. Só ele sabia o segredo do fabrico dos iscos, já se sabe.

Enquanto escorria essas lembranças pela cabeça da tia Dos-Anjos “arregalada”, em rápidos e secos vaivéns deslizava a peneira sobre as ripas da cernideira. Peneirava a farinha para a amassadura da semana. Era o costume de pelo menos uma vez por semana na sua casa e na casa da vizinha Mid-cá “gafanhoto” que lha pedia emprestada, por ter-se partido e entregado a sua ao Mestre José Relógio para a amanhar. Sábado, era o dia da cozedura da tia Dos-Anjos “arregalada”, que ia peneirando a farinha de milho com a sua habitual genica.

Ao lume aquecia-se o panelão de ferro fundido, alçado em três pés, sobre a pedra do lar. Com gravetos e fitas encaracoladas de madeira da oficina do mestre Antero, ateou o lume. Sempre ia adiantando serviço. A água era para a escaldadura da farinha, antes de se iniciar o seu amassamento com os punhos fechados.

Num refinado vaivém ela bate o rebordo do arco da peneira à frente, rebate atrás, utilizando ambas as mãos com igual destreza.

Chegou-lhe aos ouvidos a chiadeira da água já a ferver no panelão. Havia-o posto ao lume, enquanto cernia a farinha de milho. Retirou-lhe o carolo e guardou-o da sua mão, para fazer umas papas para matar o desconsolo. Ou um bolo assado na sertã de barro para se comer com uns charrinhos ou com petinga frita, não existe melhor conduto para comer para o bolo de carolo.

Com duas rodilhas molhadas para não se pelar, pegou no panelão pelas asas e pôs-se a vazá-lo, para dentro do alguidar. Com a pá de madeira mexeu a farinha escaldada e foi rodando a mesma com ambas as mãos, até sentir que a massa se apresentava consistente para ser amassada e se lhe botar a seguir o fermento. Se Deus quisesse iria crescer dentro do abafado alguidar de barro.

Sentou-se e pelas veredas do tempo vem-lhe à cabeça o irmão Serafim. Zarpara há anos ponta da Galera fora em cata da sua ventura. Era assim que se contava nos casos daquele tempo. Dava gosto escutá-los ao serão. Foi em busca da sua ventura, e da mulher, e dos três filhos machos. Fora-se sem ninguém sonhar o dia do embarque. Desceu o atalho da canada da Galera e de pé, num penedo da ponta da Galera, ali ao Cerco da Vila de Água de Pau, acenara a um barco que ia para a América. Arrearam uma barcaça que o apanhou. Serafim adquirira o bilhete na cidade, mas para não dar a saber a ninguém, acertou dessa maneira entrar no barco. Não era o primeiro a zarpar assim e com certeza não foi o último. Que Deus te ajude querido irmão, pensou a irmã consigo própria.

Um grito atormentado e aflito se ouviu em toda a rua do Valverde de Cima e às vizinhas chiava-lhes nos ouvidos. Mexeriqueiras algumas acorreram à porta da tia Dos-Anjos “arregalada”. Traziam os xailes negros cobrindo a cabeça, enrolados no pescoço, com ponta descaída sobre o peito. Acudiram as vizinhas mais chegadas naquele parentesco que se vai adquirindo no decorrer dos anos. Deram a volta à chave que estava na porta e entraram de nariz aferroado, com palavras de pavor por fora, procurando esmiuçar o fundamento de tamanho grito.

Credo em cruz santo nome de Jesus, vizinha Dos-Anjos. Que desgraceira lhe entrou em casa para ter dado um grito tão de dentro? Se foi coisa agoirenta – dizia a mais faladeira – se calhar, nenhum moleste haveria se acaso mandasse num pulo chamar o Ti Raul curandeiro do Caminho Velho.

Não se apoquentem, vizinhas, que nada ruim assucedeu. Se gritei tanto, foi por causa de uma ratazana que se passeou por cima da amassaria, onde eu tinha, e ali estão para quem os quiser ver, os meus terminos para a minha lida da cozedura, que dia de sexta-feira traz sempre tanta canseira. Malditas ratazanas, tenho asco e nojo de tal raça de bichos.

Dos-Anjos sabia com que linhas se cosia e conhecia de olhos fechados as mexeriqueiras das suas vizinhas e ademais o que elas mesmo queriam era saber mais da vida dela. Bico calado, e em resultado da conversa esclarecedora, não tiveram as mulherzinhas outra alternativa que não fosse a de se irem porta fora com um azedume bem disfarçado, fingindo cordeirinhas mansas.

Ao chegar, entretanto, a casa, Ti Invaristo, seu marido, nem se apercebeu do enredo que ali se passara. Mudara muito. Acatara os avisos do padre João Moniz de Melo, seu conselheiro, deixara de fumar os seus cigarros de tabaco, de cultivo caseiro, entrançado em rolo, para depois se picar à navalha e esfregar nas palmas das mãos antes de se enrolar na mortalha de folheto de maçaroca de milho. Reduzira no seu consumo diário a aguardente da terra, sobretudo no mata-bicho de logo de manhã.

No silêncio da sua casa, sozinha, com a boca arregoada de uma secura, não de água, que cria rãs na barriga, mas de chá preto da Gorreana. O chá era aquele remédio infalível no que toca a flatos de coração e de quebreiras de corpo resultadas de mau olhado. Uma tijela de barro de louça da Lagoa, várias vezes ao dia, sempre quentinho restaurava-lhe até os nervos mais combalidos.

Perdida nos seus pensamentos e labuta, de repente, deu fé do periclitante anúncio do mestre rateiro na rua, veio à porta da rua e chamou-o: – Pst, ó senhor rateiro, eu tenho ratos para si!

E, por falar em rateiros, recordo que meu tio e irmão mais velho de meu pai foi conhecido por José Inácio de Medeiros “rateiro”. Desde que me lembro, de “rateiro” ele só tinha a alcunha, foi carpinteiro e cangalheiro na Vila de Água de Pau. Fazia caixões com a ajuda da sua neta, a prima Carminha, ao tempo em que só havia na ilha uma ou duas agências funerárias em Ponta Delgada. Foi também agricultor e nunca vou saber se alguma vez ele foi também “rateiro” ou se nunca foi, porque razão terá ganho essa alcunha?

Crónica publicada na edição impressa de novembro de 2022

Categorias: Opinião

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