“O primeiro recurso para quem não está bem é ficar em casa”

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Quisemos perceber com o pneumologista José Manuel Dias Pereira, de onde veio o novo coronavírus, como se propaga e o que se deve fazer para impedir o avanço da doença que entrou na vida de todos

DL: Existe razão para alarme?
Digo que sim e digo que não. Digo que sim porque efetivamente é uma situação nova para a qual nenhum sistema estava preparado. Nem o sistema de saúde regional, nem o sistema económico e muito menos as pessoas, porque tudo indica que é um vírus que tem os seus reservatórios naturais em determinados animais, nomeadamente no morcego, e que por razões que ainda não são conhecidas passou ao humano, mudou de reservatório. E assim sendo é toda uma novidade que efetivamente os serviços de saúde e as pessoas vão ter que enfrentar durante algum tempo e por isso todas as cautelas são poucas. E todas as medidas que se tomarem no sentido de contrariar esta doença são bem-vindas. Apesar de termos de estar preocupados – que isto não é brincadeira nenhuma – , também não temos que entrar em alarmismos. O que é importante é que as pessoas se informem. Seguramente está-se a fazer o melhor que se sabe e não há razões para alarme.

DL: Como é que é feito o contágio?
O contágio é feito pessoa-a-pessoa. Nesta altura, basta estar a falar cerca de quinze minutos com uma pessoa ou até um pouco menos para haver contaminação. Emitimos uma onda de pequenas partículas quando estamos a falar – micropartículas – que a pessoa apanha em cheio. E é nestas micropartículas que vai o vírus, elas são de uma dimensão muito pequenina, milhões de vezes mais pequenas que um milímetro, e as gotículas são as transmissoras. Elas batem na cara, batem na roupa, daí a importância, e que se tem chamado a atenção para o lavar das mãos, que é uma das medidas mais importantes nesta altura e também não estar constantemente a tocar na cara e nos olhos, porque “caçamos” com as mãos essas mesmas gotículas que ficaram na nossa face, nas nossas mãos, na nossa pele e depois levamos à respiração e a cadeia está a continuar o seu caminho.

DL: Para além de não cumprimentar as pessoas, devemos guardar uma distância de segurança, que deve ser de quanto?
No mínimo, um metro e meio. E sempre conversas curtas, digamos assim. Todos temos aprendido com o que tem acontecido no mundo, dá a ideia de que o vírus não se porte sempre da mesma maneira.

DL: O clima influencia a propagação da doença?
De alguma forma sim mas isso não é o mais importante. Temos que ter a noção que todas as medidas que estão agora a ser implementadas são no sentido de atrasar, como se fosse um travão. Atrasar que o vírus chegue em cheio a uma população porque lidar com dez casos por semana, ou cem casos por semana, ou mil casos por semana não é a mesma coisa. Se eu tiver só dez casos por semana, todo o sistema consegue suportar e aguentar o controle desta situação e efetivamente tratá-la. Se forem mil já não conseguimos, e aí, de facto, entrávamos numa situação não de pandemia, mas de pandemónio. Portanto, é preciso dar muita importância àquilo que as autoridades estão a dizer em termos de evitar todo o tipo de contacto nas escolas, restaurantes, nas discotecas, nas empresas que podem efetivamente ter os seus empregados a trabalhar no domicílio através de computadores, telemóveis, etc.

DL: E numa ilha estamos a falar de precauções que devem ser redobradas?
Exatamente. Todas as medidas que estão a ser tomadas é no sentido, de facto, de nesta altura se evitar o contágio. E é extremamente importante que as pessoas percebam disso. Ter medidas de higiene pessoal muito, muito apertadas: lavar as mãos com frequência, lavar a cara também com alguma frequência, não estar muito tempo sem lavar as mãos e depois passar as mãos na cara ou nos olhos.

DL: Nós estamos a falar de uma doença que entra no corpo humano através das vias respiratórias?
É exatamente isso que acontece, daí a relevância que se está a dar aos contágios pessoa-a-pessoa, porque é quando a pessoa fala ou quando as pessoas se beijam ou se relacionam de forma mais próxima que a perigosidade aumenta.

DL: É importante que as pessoas reforcem o sistema imunológico?
Sim. Mas isso é um estilo de vida. Não foi preciso vir agora um vírus da China, que veio dos morcegos, para percebermos que temos de começar a ter uma vida saudável. Cá está, também um dos aspetos positivos (e são vários já) desta crise é efetivamente as pessoas terem a noção de que se tiverem um estilo de vida saudável, as hipóteses de enfrentarem estes quadros são muito mais favoráveis. Não fumar, usar de forma muito moderada e quase nula o álcool, ter as horas suficientes de repouso para dormir, hidratar-se convenientemente (um litro e meio, dois litros de água), ter uma alimentação muito rica em vegetais, comer cinco peças de fruta por dia, fazer exercício físico todos os dias, nem que seja só trinta minutos. Todas essas medidas gerais de estilo de vida reforçam. Não devemos entrar na história de “vamos agora todos à farmácia comprar medicamentos para reforçar o sistema imunológico”, isso praticamente não faz sentido nem existe. A nossa alimentação diária, desde as mais tenras idades até à idade mais adulta, se tiver estes parâmetros de equilíbrio entre si, com os elementos que forem essenciais, as hipóteses de facto de o sistema imunológico não suportar uma infeção deste tipo são diminutas. Ou seja, isto é uma obrigação de todos os dias.

DL: Existem grupos de risco?
Claramente. Entre 80 a 90% das pessoas atingidas terão uma situação tipo gripe comum, habitual, e não passará de um corrimento nasal, de uma tosse com alguma expetoração, de uma febrícula e durante uns dias (seis, sete dias) isso passará. Isto será o panorama geral. Mas há 10% que não são assim. E o que é muito interessante é que nestes 10% não estão incluídas as crianças abaixo dos quatro, cinco anos, porque são muito resistentes nestas circunstâncias, o sistema imunológico é extremamente ativo e, portanto, protege-as um pouco melhor. Parece ser uma característica das idades mais precoces. Agora, as pessoas portadoras de doenças crónicas, e nós infelizmente somos uma região em que isso acontece, as pessoas com doenças cardiovasculares, cerebrovasculares, doenças respiratórias, diabetes, pessoas que estão a fazer tratamento para doenças neoplásicas, nomeadamente tumores ou linfomas, estas são o grande grupo que poderá sofrer um pouco mais com isso. E estamos a falar de três, quatro, cinco por cento de todos os atingidos. Portanto, volto à sua primeira questão: vale a pena alarmismos? Não, não vale. Vale a pena as pessoas estarem conectadas com a boa informação. Não é com as “fake news”, que andam por aí mas estarem focalizadas nas unidades oficiais que dão informação. Não se deve esquecer que há uma linha que nós todos devemos ter à mão que é o 808 24 60 24, a linha de saúde Açores, que nos poderá elucidar a qualquer altura e deve ser a primeira arma para quem não está bem. Evitar ir para um hospital e aumentar os riscos de contágios, ficar em casa, ligar para a linha de saúde e dizer claramente o que se está a passar. Isto tem origem em duas coisas: vai ser atendido por uma pessoa competente. O primeiro recurso para quem não está bem é ficar em casa, não ir para lado nenhum, não ir para médicos nem para lado nenhum e contactar a linha de saúde Açores e dizer tudo quanto perguntarem. A grande maioria das pessoas não constituirão problemas de saúde até para as próprias e sobretudo se forem detetados precocemente é nesse sítio, na sua casa que evitam a propagação da doença. Ao minuto, estamos todos a aprender e estamos todos a tomar decisões, particularmente o Governo, no sentido de impedir que este “tsunami” venha por aí fora e que nos apanhe de surpresa.

Sara Sousa Oliveira

(Entrevista publicada na edição digital de abril de 2020)

Categorias: Entrevista, Saúde

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