O papel que arde sem se ver

Clife Botelho
Diretor
Diário da Lagoa

O papel que arde sem se ver é aquele sobre o qual eu não quis escrever este artigo. Preferi antes o formato digital, aqui, online, por considerar que o outro já arde em lume brando. Assim poupo o que resta, se é que sobra. E, claro, aposto, quem sabe, no futuro.

A edição do Diário da Lagoa (DL) deste mês de outubro contou apenas com 12 páginas — sem somar as quatro do suplemento. É outono, as folhas caem, é provável que não seja só coincidência, mas ao vasculhar o arquivo não encontrei outra edição em papel com menos de 16 ao longo de quase nove anos.

Este jornal vive mês a mês, depende dos espaços publicitários que vende online e no papel. São quase nove anos a sobreviver da venda de publicidade, conseguindo salvaguardar a sua liberdade e independência, um feito louvável para um pequeno jornal local. E o papel de jornal tornou-se tão valioso que imprimir é agora um luxo. Eu diria mesmo que a tão falada inflação é o fogo que começa a consumi-lo, em silêncio.

Valha-nos os leitores que nos gostam de folhear mas também os que apreciam as notícias que publicamos aqui, online. Valha-nos os colaboradores, parceiros, bem como todos os empresários e entidades que acreditam no alcance global da divulgação dos seus negócios e atividades através do nosso periódico. Só assim é possível continuar, com o apoio de todos aqueles que nos mostram que temos valor.

E temos papel até ao fim do ano, tranquilizem-se os que apreciam o nosso trabalho. No entanto, é tempo de apostar no digital (sem que isso garanta para já a sobrevivência) na esperança de que os novos clientes passem a valorizar as edições online ao perceber que é na internet que atualmente há um alcance muito superior.

Mas poderá o digital sustentar o papel? Isso terão os leitores que decidir, porque serão em breve chamados a contribuir.

A imprensa açoriana, e um pouco pelo resto do país, vive desde sempre em crise e sobrevive, em parte, graças à carolice dos que nela trabalham. Há que mudar, inovar quando é necessário.

A imprensa regional está parada no tempo, sem investimento na tecnologia e na formação regular, não há diálogo entre os diferentes jornais, é cada um por si, por isso, não há uma voz que represente todos, sem exceção.

Os jornais são o reflexo da realidade que os rodeia, pois, a crise é comum a muitos setores, sem que o todo perceba o valor da liberdade de imprensa para o garante dos direitos fundamentais de todos, especialmente em tempos conturbados. 

Resta-nos quem aprecia o nosso trabalho. É tempo de apelarmos aos nossos leitores e anunciantes, bem como a todos aqueles que nos apoiam há quase uma década e àqueles que podem apoiar mas ainda não o fizeram. É tempo de começar a demonstrar que vale, realmente, a pena e abrir a possibilidade dos leitores poderem contribuir. Há projetos que querem marcar a diferença — e este é um deles — e que podem por isso depender dos leitores.

Estamos na chamada transição digital desde que o jornal foi fundado, mas sempre agarrados ao papel, porque não queremos que ele arda todo de uma só vez antes de mostrarmos que o online vale a pena. É, por isso, tempo de valorizar o digital onde trabalhamos diariamente, porque o verdadeiro jornalismo pode ser feito em qualquer plataforma. 

O jornalismo não existe para nos dizer o que queremos escutar, mas sim para nos mostrar o que precisamos de ver, reconhecer e mudar, independentemente do meio ou formato. E toda a informação tem um preço, mesmo que distribuída gratuitamente.

Pela Lagoa, a verdade é que (por mais que se repita e conte) muitos leitores ainda não sabem que antes do DL, a Lagoa esteve sem jornal durante 77 anos, muitos dos quais num país em ditadura. É pela liberdade que lutamos, até mesmo quando outros nos querem impor a sua própria liberdade sem perceber que a sua depende da nossa.

O jornalismo local pertence a todas as localidades e lugares, por isso não nos limitamos ao que é lagoense ou a esta jovem cidade, um concelho com 500 anos não pode ignorar os outros que o rodeiam. É ao olhar e saber de outros lugares que podemos dar mais valor ao que somos e vice-versa. E se um dia chegar a hora do Diário da Lagoa desaparecer — porque a sobrevivência está sempre em jogo —, fica a Lagoa e todos os concelhos a perder.

Sem jornais, em vez de democracia restará somente a propaganda, o “copy-paste” da desinformação, numa ditadura informativa que se repete sem conteúdo próprio.

Por tudo isso, ler o Diário da Lagoa, ainda, é gratuito. Porque queremos e continuaremos a lutar. Por tudo isso, queremos que os leitores lutem connosco, partilhem as notícias que contam, anunciem nos nossos espaços, percebendo o valor que é divulgar, e apoiem o jornalismo local, perguntando-nos como nas nossas redes sociais ou através do nosso e-mail: diariodalagoa@sapo.pt.

Aos outros jornais e jornalistas: que se criem parcerias, que a classe passe a falar a uma só voz. Há que acreditar que vale a pena lutar pela verdade e pelo reconhecimento que os açorianos merecem, fazendo o jornalismo que conta.

E se o papel arder todo? O futuro e a continuidade do Diário da Lagoa estão nas mãos dos leitores. Já somos um diário online, após muito se ter investido, temos as ferramentas e a plataforma, só precisamos agora que nos continuem a acompanhar desse lado e, por isso, também aos leitores que contribuírem no futuro, o nosso obrigado.

Categorias: Opinião

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