“O Mundo caminha mal e continuará pior”

Roberto Medeiros

“O Mundo caminha mal e continuará pior”, quem o disse foi o senhor Pacheco da Preta de Água de Pau, em 1968, antigo empresário e negociante de vinhos, aguardentes e bebidas espirituosas da Caloura, no tempo em que as castas da Caloura eram famosas e qualquer um trocava o passo com um “meiozinho” de vinho!

Um dos prodígios do senhor Pacheco era ostentar o seu relógio de bolso, em pura prata, encavalitado na algibeira do colete e com a sua corrente também de prata, dependurada em curvatura até à algibeira das calças. Normalmente tinha na mão direita um charuto e atirava as suas fumaças por entre a sua espessa bigodaça. Mas o que lhe dava mais prazer era mesmo dar milho às pombas nas portas da cidade, em Ponta Delgada, quando ali se deslocava em negócios. Os seus negócios, já se sabe, estavam relacionados com os vinhos da Caloura que o senhor Pacheco vendia aos restaurantes da cidade.

Manuel Pacheco Agostinho da Ponte nas Portas da Cidade em Ponta Delgada © D.R.

Manuel Pacheco Agostinho da Ponte ou o senhor “Pacheco da Preta”, assim melhor conhecido, por ter vivido muitos anos com uma preta, tinha morada antes de falecer, em Água de Pau, até ao fim da década de 1970, na casa, por cima, onde hoje está localizado o Bar-Café Multimédia e tinha a sua adega e quinta mesmo em frente onde hoje está um parque de estacionamento da Camara Municipal, entre a rua da Carreira e a rua dos Coelhos.

Muito virtuoso, como era o senhor Pacheco da Preta, não comprava cartões de boas festas ou de bons anos para enviar aos amigos. Antes tirava a si fotos de carácter social e enviava aos amigos, como o fez ao enviar esta foto a meu pai (Manuel Egídio de Medeiros), seu amigo, em janeiro de 1968, a desejar os bons anos. Na foto anexa, vale a pena ver a mensagem escrita pelo seu punho por trás da foto.

© D.R.

Há coisas na vida que nunca esquecemos e que de vez em quando nos lembramos delas. Lembro de quando matávamos o porco na nossa casa, meu pai mandava “um presente” da matança, ao senhor Pacheco da Preta, aos nossos familiares e a alguns amigos. A tia Odília ou a tia Maria Alforra estavam sempre junto ao fumeiro, na nossa cozinha de “derreter “os porcos e, por isso, é que os preparavam. Assim, dentro de uma cesta de vimes, deitavam um prato no fundo, de louça da Lagoa, forrado com um guardanapo para acomodar bem alguns pedaços de carne e toucinho de porco, alguns torresmos, linguiça e morcelas.

Normalmente eu oferecia-me para ir entregar o “presente” da matança, ao senhor Pacheco da Preta. E, tudo porque gostava de o ver abrir o seu antigo e pesado cofre de ferro para de lá vê-lo retirar, de uma caixinha de charutos, uma moeda de cinco patacas em prata, para me oferecer, como “convite”.

Ele por sua vez apercebia-se que eu gostava de o ver fazer rolar os números até chegar ao som confirmativo de abertura, ouvindo-se um TEE-LÃO e a porta abria-se e eu espiava lá para dentro do cofre… cheio de caixas de charutos, que eu pensava que eram, mas, não eram… eram, sim, caixas cheias de notas de quinhentas e mil patacas para pagar aos fornecedores dos vinhos que comprava para revender, dissera-me o senhor Pacheco quando eu já era mais crescido.

E, foi quando já era mais crescido que comecei a reparar que o senhor Pacheco da Preta tinha também, numa das divisões do cofre, um pequeno livro. Por vezes eu segurava este livrinho enquanto ele retirava alguma das caixas e voltava a pô-lo de novo no cofre. A minha curiosidade despertou quando li o seu título: – “O Caso dos Dólares”. Estava assim mesmo escrito, como se diz em português do princípio do século XX.

Sempre gostei de ler. Lia tudo o que aparecia e estava à mão. Foi por isso que perguntei ao senhor Pacheco da Preta se me podia deixar ler aquele livro. Ele olhou-me e disse-me: “este livro envolve um crime ocorrido em Água de Pau, há alguns anos atrás. Quando fores mais crescido eu empresto-te.” Confesso, que acenei, afirmativamente com a cabeça, mas nunca mais me saiu da cabeça a sua promessa.

De facto, ele cumpriu a promessa e alguns anos depois emprestou-me o livro. Depois de o ler, encontrando o senhor Pacheco da Preta à porta da mercearia “Casa Vieira “ (onde hoje está o restaurante Casa Abel), na Praça Velha de Água de Pau, disse-lhe: -“Senhor Pacheco já li o livro do…”, não me deixou terminar a segunda parte da frase… “do caso dos dólares”, pois, tapou-me a boca com a sua gorda mão esquerda, mandando-me calar, mostrando-me o seu polegar da mão direita encostado aos seus lábios fechados da boca. Puxando-me para o lado disse-me baixinho: – “estás doido? Leste o livro e não sabes que não se deve falar do mesmo em frente ao local do crime?”. Pois era… pois era…,mas esta é outra história e fica para ser lida no meu segundo livro “Antes que a Memória se Apague – Crónicas de Água de Pau”, em março de 2023.

Categorias: Opinião

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