“O meu sonho é completar um campeonato de ralis”

O piloto lagoense Pedro Matos conversou com o Diário da Lagoa (DL) antes da participação no Xli Rali de Santa Maria, no mês de agosto. O encontro aconteceu na barbearia Rodrigues, em Santa Cruz, onde foi feita a apresentação do carro

A dupla Pedro Matos (à dir.) Wilson Duarte (à esq.) participa este ano, pela segunda vez, no Rali Além Mar Santa Maria com o carro Suzuki Swift, na categoria X1. © MARIANA LUCAS FURTADO/ DL

Pedro Matos tem trinta anos, mas há pelo menos metade da sua idade que se diverte com carros a fazer rali. Com quinze ou dezasseis anos, recorda, já se juntava com grupos de amigos para fazer corridas de carros: “com os meus amigos de infância, brincávamos muito ali para os lados da Macela. Fazíamos coletas, juntávamos três ou quatro grupos de pessoas, comprávamos um carro e divertíamo-nos até a gasolina acabar”.

À medida que a velocidade ia aumentando, o gosto pelas corridas também foi crescendo. Foi isso que o levou a aventurar-se sozinho na compra de um carro, explica. “Aquilo foi-me chamando, o rali é assim mesmo e as coisas funcionam assim. Chegou a uma altura em que disse, «parou», agora está na minha vez de comprar um carro e de me divertir sozinho”.

E é assim há cerca de dez anos. Pedro Matos corre por gosto e, por isso, não se cansa, apesar das várias dificuldades típicas de uma modalidade dispendiosa. “Vamos fazendo os ralis à maneira que vamos podendo”, desabafa o piloto lagoense, natural de Santa Cruz. E acrescenta: “O meu sonho nos ralis era fazer um campeonato, coisa que nunca fiz. Nem estou a falar do nacional, que isso já são outros patamares, e este carro, se calhar, nem é adequado para fazer o nacional, mas o campeonato regional de ralis”.

“Nunca nos foi possível fazer uma época porque os patrocínios também não nos permitem fazer uma época atual completa. Vamos fazendo aquilo que temos ao nosso alcance”, diz. 

Em 2019, o piloto e pintor de automóveis aventurou-se, pela primeira vez, fora dos troços micaelenses. A estreia em provas fora da sua ilha de residência foi em Santa Maria, mas a conhecida ilha do Sol não fez jus ao nome, e dificultou o trabalho aos pilotos de rali em competição.O tempo, na altura, não nos permitiu ter os melhores resultados. O tempo não nos ajudou, nem a mim, nem aos outros participantes”, recorda.

“Isto é um desporto que é preciso muito capital”

Com o sonho de completar um campeonato regional de ralis, Pedro Matos reconhece que já não basta juntar uns trocos com os amigos. Os patrocínios assumem um papel fundamental para tornar qualquer carro competitivo. Apesar de agradecer muito à sua equipa e a quem o acompanha, Pedro acredita que um apoio por parte de uma entidade como a autarquia faria toda a diferença. “Não há nenhum autocolante, nenhum patrocinador lagoense, como a câmara, ou a junta de freguesia. Era uma coisa que eu precisava imenso, e gostava de ter um patrocinador com outras condições possíveis, porque isto é um desporto que é preciso muito capital. Vou correndo com aquilo que podemos e vamos vendo onde podemos chegar”, diz.

Para já, Pedro conta sobretudo com apoios de amigos e pequenos negócios do concelho da Lagoa, como explica enquanto aponta os logótipos no carro: “Temos aqui o Auto João Pires, que é um amigo meu de infância; o Tiago Silva, que tem a TS informática, aqui no Rosário, e também é um amigo meu de infância. E temos outros, também da parte do meu irmão, que ele tem muito conhecimento da parte de oficina”.

“Foi assim que fomos andando, «rolando», a tentar pedir apoios. Não ter vergonha de pedir, porque o «não» é sempre garantido”, conta o piloto, a respeito do trabalho feito na preparação do carro. “Em termos de estética e logótipos, tentamos fazer com que não ficasse muito pesado. Pessoalmente acho que não fica muito bem. Se houvesse mais patrocinadores, eu não me importava. É sempre bem-vindo, da parte deles, mas infelizmente não é possível”, lamenta o lagoense.

Com a ajuda destes apoios, o Suzuki Swift branco com que Pedro correu em 2019 apresenta melhorias, como explica o copiloto Wilson Duarte: “Estivemos a fazer testes ao carro. Está muito melhor do que em 2019, está com upgrades muito bons. Na altura, como o Pedro disse, não tivemos as melhores condições climatéricas na ilha. Apanhámos muita chuva e tivemos de tirar muita pressão dos pneus para o carro aderir mais. Tínhamos outra suspensão e outra caixa de velocidades. E acho que esses pequenos pormenores vão fazer a diferença para este ano, 2022”.

O facto de Wilson Duarte ser natural de Santa Maria é algo que, para Pedro, também faz a diferença: “é muito importante ter um navegador que seja do sítio para onde nos vamos deslocar. Tem conhecimento das coisas e não vamos às cegas. É sempre bom ter um pilar, que sabe o que está a fazer e ajuda a evitar os erros. Assim vamos tentar fazer uma coisa em condições”.

O copiloto mariense não tem dúvidas: “acho que temos tudo para mostrar bons resultados aos patrocinadores e eles verem que nós realmente conseguimos alcançar outros patamares, conseguimos entrar num campeonato regional, e trazer a taça aqui para a Lagoa, para a terra deles, para os representantes”.

“As nossas expetativas são tirar o melhor proveito do rali. Os azares acontecem em qualquer rali e a qualquer piloto, não queremos que nos calhe a nós, mas pode vir a acontecer. O rali é mesmo assim, tem coisas boas e coisas más. A sorte de uns é o azar de outros, e vice-versa. Mas vamos com pensamento positivo para o rali de Santa Maria, e vamos tentar mostrar o máximo possível aquilo que temos no carro. E tentar mostrar aos nossos patrocinadores que tudo é possível. Com o tempo, as coisas vão melhorando e as condições vão crescendo ano após ano. Vamos ver como corre, esperemos que seja tudo pelo melhor, não podemos pensar de forma negativa”, completa Pedro.

“Em todos os troços havia desistências. Houve uma altura em que pensei que ia chegar a minha vez”

O Xli Rali Além Mar Santa Maria decorreu de 12 a 13 de agosto, sendo a quinta prova a contar para o Campeonato dos Açores de Ralis. A dupla Pedro Matos e Wilson Duarte ficou em 25º lugar na classificação geral, numa edição marcada por várias desistências e dois violentos acidentes. “Em todos os troços havia desistências, praticamente. Houve ali uma altura em que pensei que ia chegar a minha vez”, recorda o piloto. Isto levou a que a dupla fosse mais cautelosa na sua prestação.

No geral, Pedro Matos faz um balanço positivo da exibição, numa prova em que o objetivo era ficar em primeiro lugar na sua classe (X1). Recorda, em especial, como pontos negativos, uma saída de estrada no segundo dia de competição que provocou estragos na roda traseira direita do carro, mas sem danos significativos. Lamenta também a penalização de 11 minutos e 30 segundos, por não ter dado entrada no parque de assistência durante uma das etapas, que dificultou a subida na classificativa.  Assume isso como um erro de equipa, porque “se fosse para subir ao pódio também íamos subir juntos. Assim, assumimos o erro enquanto equipa, juntos também”, revela ao DL.

Pedro mantém-se ligado ao mundo automóvel enquanto pintor profissional. O sonho de participar em ralis continua. Prova a prova, conforme as possibilidades e os apoios, o piloto considera as suas hipóteses de participar. À autarquia, deixa um pedido especial: “acho que devia haver mais pilotos a serem patrocinados. Dá para tudo e para todos, a câmara sabe bem o que faz. Um apoio da junta [de freguesia de Santa Cruz] também seria muito bom”, sugere. 

A próxima prova do campeonato dos Açores de Ralis é o Picowines Rali, que se realiza a 23 e 24 de setembro na ilha do Pico, e a última prova do campeonato acontece a 28 e 29 de outubro, na ilha Terceira.

Mariana Lucas Furtado

Reportagem publicada na edição impressa de setembro de 2022

Categorias: Reportagem

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