O “Menino de Prata” sou eu

A história do livro “Menino de Prata” valeu a Nuno Almeida o Prémio Municipal de Investigação e Criação, atribuído pela câmara municipal da Lagoa, em 2021.  Aos 30 anos, o autor conta como criou e ilustrou a obra a propósito da avaliação de uma disciplina da licenciatura. Ao Diário da Lagoa (DL), Nuno assume-se como o sonhador e explorador que é. E deixa uma mensagem: “pode ser cliché, mas nunca desistam dos vossos sonhos”

Aos 30 anos, Nuno Almeida venceu a primeira edição do Prémio atribuído pela autarquia da Lagoa © MARIANA LUCAS FURTADO/ DL

O trabalho desenvolvido por Nuno teve origem vários anos antes da atribuição do prémio, e surgiu a propósito de um contexto diferente, como explica ao DL: “durante a minha licenciatura em Educação Básica, na Universidade dos Açores, foi um instrumento de avaliação da disciplina de Expressões e Multimédia, dada pelo professor Adolfo Fialho. Surgiu no âmbito de construção de um portfólio, ou seja, primeiro não criei a história, primeiro criei todas as ilustrações. Na altura, era isto que nos interessava, como instrumento de avaliação, a exploração de técnicas de expressão plástica, o recurso a materiais diversos.”

Depois de ter explorado várias técnicas, Nuno continuava a achar que as ilustrações criadas eram insuficientes para entregar como produto final por si só. “Aquilo estava tão vazio para mim, até porque tinha criado um portfólio gigante, que era um Mundo, um planeta Terra que abria e em cima estava o Menino de Prata. Podemos associar visualmente ao «Principezinho». E não estava a gostar da ideia de entregar aquilo só assim”, explica. Foi então que decidiu espalhar sobre uma mesa todas as ilustrações, e percebeu que, através da escrita de uma história, conseguiria criar um fio condutor que as ligasse a todas. E assim foi, através da história do Menino de Prata que Nuno relacionou todos os cenários por ele idealizados.

“Peguei nos climas quentes e frios, na natureza, no corpo humano, nos animais domésticos e selvagens, o céu, as estrelas, a lua… A lua é a principal amiga do Menino de Prata, e é ela que o ajuda a viajar e conhecer o planeta Terra”, diz.

São os conteúdos de expressão plástica que ganham maior destaque no livro, e que Nuno pretende passar às crianças. “São as silhuetas, as formas, as cores. O Menino de Prata encontra, por exemplo, flores de diversas cores, e algumas são feitas a tracejado. Tudo isso são conteúdos de expressão plástica: a técnica do tracejado, pontilhado. E ele faz certas exclamações, quando conhece e as identifica”.

“É isso que eu quero que os meus meninos sejam sempre”: exploradores

Atualmente, Nuno desempenha funções de monitor de ATL (Atividades de Tempos Livres). E é nessa ocupação que pretende apelar ao sentido criativo das crianças, ao explorar várias técnicas junto delas. “Mesmo que não saibam, inventem. Assim é o Menino de Prata, ele não sabe como viajar e conhecer, mas com criatividade, empenho e dedicação, consegue. E consegue conhecer, depois, o planeta Terra. Todas as formas, todas as cores, e portanto é um explorador. É isso que eu quero que os meus meninos sejam sempre”, esclarece o autor. “Que sejam os principais motores da sua aprendizagem, serem bons naquilo que fazem e terem expressão, tal como o menino de prata. Para mim, o Menino de Prata é isto: é ser um explorador e chamar a atenção para as coisas que nos rodeiam”.

A obra “O Menino de Prata” está dividida em duas partes: uma narrativa e outra mais “técnica”, onde se explicam como foram criadas as ilustrações. Nuno acredita que foi esta parte técnica que lhe valeu o prémio no concurso. Porque, segundo conta, mesmo quem não gosta de ler pode usar o livro como um manual técnico e folhear apenas pela curiosidade de saber quais os materiais e as técnicas usadas na criação dos desenhos.

“E a verdade é que eu, enquanto ator pedagógico, posso contar uma história sem usar aquela história, e apenas as ilustrações. Isso acontece imenso na educação pré-escolar, por exemplo. Pego num livro e sou um contador de histórias apenas pelas imagens. Acho que o meu livro tem esta parte visual que pode ser usada e ter um papel pedagógico na ação educativa”.

Além de um “ator pedagógico”, Nuno confessa-se um Menino de Prata

“O Menino de Prata sou, efetivamente, eu. Porque sou um explorador. Gosto de explorar aquilo que me rodeia”, avança Nuno. E exemplifica: “estou sempre a inventar, ora a pintar telas, ora a fazer e decorar bustos com artesanato regional, ora a fazer bolos… estou sempre a experimentar coisas novas”.

“Não gosto de estar parado no tempo, nem gosto de estar parado muito tempo no mesmo sítio. Estou sempre a descobrir coisas, tal como o Menino de Prata. Apesar de no seu voo ele ficar cansado, ele continua, por querer sempre descobrir mais. E assim sou eu, eu canso-me de uma coisa, mas continuo sempre e vou sempre continuar a fazer algo diferente. Portanto, [sou como ele] em parte pela exploração, pela criatividade, pela dinâmica e também pela força de querer sempre continuar.”

“Sempre estive ligado às artes, fiz muitos anos de teatro. Já fiz teatro na Escola Secundária [de Lagoa], na Máquina do Tempo, na Academia das Artes e tenho estado sempre ligado ao mundo das artes e das expressões. Quando entrei para a universidade, fiquei mais ligado à parte da expressão plástica, por ser aquela que, em contexto escolar, é mais recorrente. Revejo-me [no Menino de Prata] pela exploração destas técnicas, pela minha curiosidade, pelo facto de tentar fazer coisas diferentes, enquanto profissional”.

Aguardar, persistir e insistir como palavras de ordem

Criatividade e persistência foram as palavras que marcaram o percurso de Nuno até ao reconhecimento, porque, como explica, o livro esteve vários anos em espera. “Esteve arrumado muitos anos, porque, a nível financeiro, não havia possibilidades. Mas sempre o tive guardado na gaveta, e nunca achei que fosse altura de desistir. Porque surgem oportunidades. Se não for agora, há de ser mais tarde, portanto, é aguardar”.

Às pessoas que não sabem como perseguir os seus sonhos, ou que não se consideram criativas, Nuno deixa uma mensagem:

“Ao longo da vida, vamos mudar e crescer a todos os níveis. Podemos sempre ter a possibilidade de, mais tarde, levar avante os nossos projetos. É nunca desistir, não deixar de parte totalmente, e então mais tarde levar avante. Neste caso, tive a possibilidade de participar neste concurso e ter ganho. É tipo um cliché, é verdade: Nunca desistir dos nossos sonhos. Aguardar, persistir, insistir e depois, sim, arranjamos uma maneira de lá chegar”. 

Com o prémio atribuído pela câmara, o trabalho de Nuno ganhou reconhecimento e notoriedade. Está em estudo a hipótese de a história do “Menino de Prata” ser integrada no plano regional de leituras, para ser estudada nas escolas dos Açores.

Mariana Lucas Furtado

Reportagem publicada na edição impressa de setembro de 2022

Categorias: Reportagem

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