
Rui Tavares de Faria
Professor e Investigador
Escrever sobre a natureza e o carácter humanos é, ainda nos nossos dias, uma tarefa difícil e um desafio complexo. Implica saber expressar um pensamento próprio, por um lado, e considerar, por outro, a evolução da humanidade, processo que, nas últimas duas décadas, tem sido acelerado, num ritmo mesmo desenfreado. O que pretendo nesse espaço, enquanto cronista e ensaísta, é recuperar um tratado antigo, que terá sido escrito por volta de 320 a.C., intitulado precisamente Caracteres. O seu autor, Teofrasto, foi discípulo de Aristóteles e, seguindo-lhe os pressupostos éticos, registou trinta tipos humanos, desenhados a partir de traços distintivos em termos de carácter e modus operandi. Ler – ou reler – os Caracteres de Teofrasto é (re)encontrar, nas máscaras tipificadas que ele selecionou, indivíduos com quem nos cruzamos diariamente, com quem trabalhamos há dezenas de anos, com quem nos envolvemos das mais variadas formas. Convido, então, o leitor a revistar comigo essas figuras humanas e vermos, em conjunto, como uma obra escrita há mais de vinte e três séculos é, afinal, tão atual como uma notícia de última hora.
A tradução portuguesa do original grego, devemo-la a Maria de Fátima Silva, professora catedrática jubilada da Universidade de Coimbra, assim como uma introdução e diversos comentários que elucidam o leitor – até o mais especializado – sobre questões de natureza filológica, histórica, filosófica e literária. É a partir da edição patrocinada pela Imprensa da Universidade de Coimbra que citaremos, quando necessário, passagens dos Caracteres de Teofrasto. O volume data de 2014 e está disponível em https://ucdigitalis.uc.pt/pombalina/item/53881. Fica o meu caro leitor munido da obra a partir da qual se baseiam – e basearão – as crónicas-ensaios que, doravante, figurarão mensalmente no jornal Diário da Lagoa, a quem agradeço, na pessoa do seu Diretor, o Sr. Clife Botelho, o convite que me endereçou para colaborar com o periódico.
Para inaugurar o espaço da crónica-ensaio a que dei o título de “(Novos) Caracteres”, sigo a ordem dos tipos tal como os apresenta Teofrasto no seu tratado, e o primeiro incide sobre o “Dissimulado”. Trata-se de um adjetivo qualificativo que ouvimos amiúde na caracterização de uma pessoa e sentimos, desde logo, um tom negativo, sobretudo quando alguém afirma algo do género: “Aquele fulano é bem dissimulado.” O que significa dissimulado e de que forma constitui um carácter humano? O significado que os antigos gregos lhe atribuíam é o seguinte: o dissimulado é caracterizado como um sujeito que tende a negar ou depreciar os atributos que tem. Esta é a aceção primeira do termo, aquela que Aristóteles usa, por exemplo, na Ética a Nicómaco (1108a) ou na Ética a Eudemo (1233b-1234a). Como antónimo de assimilado, o dissimulado é o que se afasta ou se desliga de. Ora Teofrasto, apesar de definir a dissimulação, “entendida em sentido genérico, [como] uma espécie de afetação de inferioridade nos atos e nas palavras”, coincidindo, assim, com a aceção que Aristóteles, o seu mestre, havia adotado, desenha o retrato do indivíduo dissimulado afastando-se do conceito de dissimulação apresentado, porque vai acentuar sobretudo o cinismo da personagem que, com evasivas constantes, oculta propositadamente as verdadeiras intenções ou sentimentos. Neste sentido, estamos próximos do que hoje entendemos de facto por dissimulado, grosso modo uma personagem falsa e cínica, que faz passar uma imagem que não corresponde ao seu verdadeiro ethos (carácter).
Diz Teofrasto: “2. Eis o perfil do dissimulado. Anda atrás dos inimigos, a querer meter conversa com eles… Na presença dos interessados, dirige elogios àqueles mesmos de quem acabou de dizer mal pelas costas; e se os vê na mó de baixo, manifesta-lhes solidariedade.” É uma personagem facilmente camaleónica, pois adapta-se às situações de acordo com os seus interesses. Na literatura portuguesa, por exemplo, este carácter (pouco nobre) não tem passado despercebido ao olhar dos nossos escritores. Que é o polvo que o Padre António Vieira condena no Sermão de Santo António aos Peixes? Que é o Dâmaso Salcede que Eça de Queirós caricaturiza em Os Maias?
E na nossa realidade, no nosso quotidiano, quantos dissimulados conhecemos? Com quantos perdemos minutos e horas dos nossos dias… só porque tem de ser? Estando nós “na mó de baixo”, quantos colegas e conhecidos (dissimulados todos) não nos expressam apoio por meio de palavras de reconforto (falsas!), quando, na verdade, se regozijam com a(s) nossa(s) desgraça(s)? Detendo nós algum cargo profissional de chefia, quantos subalternos (dissimulados todos) não nos dirigem sorrisos e elogios (falsos!), quando, na verdade, o que pretendem é que caiamos do pódio ou que os favoreçamos de algum modo. Este é o dissimulado! Não apenas do século IV a.C., como o pintou Teofrasto, mas também de todos os tempos, até do século XXI d.C.
Como detetar e evitar este carácter? Teofrasto dá-nos pistas: “6. é um génio em fraseado do tipo: ‘não posso crer’, ‘não consigo entender’, ‘estou pasmado’,…; ‘não foi isso que me chegou aos ouvidos’, ‘até parece mentira’, ‘vai contar essa a outro’, ‘nem sei se hei de duvidar do que me dizes, se pensar mal do sujeito’, ‘vê lá se não estarás a ser anjinho.’ 7. É este o género de paleio, de enredos, de insistências, que o dissimulado inventa. Com gente retorcida e falsa como esta, é preciso ter mais cuidado do que com as víboras.” Na verdade, consideramos “víboras” as pessoas que nos picam com maldade e veneno, mas, ao que parece, o dissimulado é mais perigoso, talvez por agir de mansinho, querendo “plantar verde para colher maduro”, como dita o provérbio. Há que ter olhos e ouvidos bem abertos, porque este tipo humano veste muitas roupagens e se manifesta de modo imprevisto, serpenteia ao nosso redor, tal qual a “víbora” fazendo-se passar pelo melhor companheiro, nem que para isso tenha maldito o compincha com quem passou momentos antes.
Importa, portanto, meu caro leitor, atuar com sinceridade e cautela, com a consciência de que os dissimulados abundam como cogumelos selvagens. Pavoneiam-se nos corredores da política nacional, exibem-se espalhafatosamente nos meios de comunicação social, passeiam-se nas escolas e nos hospitais, caminham ao nosso lado nas ruas e sentam-se à nossa mesa. São uma espécie que jamais enfrentará a extinção. Cabe-nos, sendo detentores de um ethos íntegro, agir de acordo com princípios pautados pela honra e pela virtude, esses mesmos princípios que Camões, em Os Lusíadas, lamentou estarem cada vez mais ausentes do carácter e modo de ser dos portugueses.