
Rui Tavares de Faria
Professor e Investigador
Dos retratos éticos dos Caracteres de Teofrasto que aqui temos vindo a analisar, a comentar e a recriar à luz da modernidade, o Descarado é talvez aquele que menos correspondências estabelece com a noção ou o conceito que hoje se tem do indivíduo que tomamos por um “descarado”. Em nota à tradução portuguesa, Maria de Fátima Silva refere que, comparativamente ao tipo humano do Descarado descrito por Aristóteles na Ética a Nicómaco, “o quadro traçado em Caracteres não acentua, no entanto, aspetos morais, mas regras de convivência.” Na verdade, antes de apresentar o perfil do Descarado, Teofrasto define o descaramento como “o desprezo pela opinião pública, com vista a benefícios mesquinhos” (Char. 9.1.), ou seja, segundo o autor grego, quem pratica o descaramento tem objetivos definidos, é como se houvesse recurso a uma máscara – a do Descarado – para camuflar o carácter de interesseiro e/ou oportunista que caracteriza o tipo teofrástico.
Ora, falar de descaramento nos dias de hoje significa falar de “caras de pau” (na variante do português do Brasil, já adotada por Portugal), “gente sem um pingo de vergonha na cara”, “tipos despropositados” que procuram integrar-se nos mais variados meios e nas mais diversas situações, sem que com eles mantenha qualquer tipo de relação ou afinidade. Se, para Teofrasto, o Descarado é aquele que, sabendo do caso de alguém que sofreu um calote, pede precisamente à vítima dinheiro emprestado (Cf. Char. 9.2), para nós, cidadãos da modernidade, o Descarado é quem se dirige ao autor do calote e lhe chama de caloteiro. Se, para Teofrasto, o Descarado é aquele que, “no dia em que fez sacrifícios aos deuses, arranja maneira de ir jantar a casa de alguém” (Char. 9.3), para nós, o Descarado apresenta-se em casa de alguém à hora de jantar, pergunta se vai jantar e, mesmo dizendo que tem jantar feito à sua espera em casa, acaba sentando-se à mesa de quem lhe abriu a porta e come com ele. Que levante a mão quem ainda não experienciou tamanho descaramento!
O “nosso” Descarado, i.e., aquele que não tem vergonha na cara, acaba por ser um tipo humano até bastante comum na sociedade hodierna. Pensemos em alguns exemplos. No âmbito político, quando sabemos que certos cargos ou postos de comando são ocupados pelos filhos, pelos afilhados, pelos sobrinhos de quem está no poder num dado momento, o que dizemos? É cá um descaramento! No campo religioso, quando ouvimos da boca dos curas que é preciso viver o desprendimento e a pobreza, que é necessário exercer a caridade e ajudar o próximo, mas logo a seguir à cerimónia eucarística põe-se a milhas o vigário num carro de topo de gama, o que dizemos? É cá um descaramento. E quando, no domínio da educação, se apregoa a desburocratização e se promove o sucesso escolar, mas a insatisfação dos docentes e os maus resultados dos alunos persistem, o que não hesitamos em dizer? É cá um descaramento.
Noutras circunstâncias – e também bastante corriqueiras –, o Descarado é o indivíduo que não se preocupa minimamente com o propósito, a elegância ou a cortesia das suas falas ou dos seus atos. Aborda os colegas no sentido de lhes dizer algo menos positivo ou apropriado, mesmo sabendo que essa sua abordagem constitui, por exemplo, uma apreciação pejorativa ou rude. Não se diz a uma colega recentemente divorciada, vítima que foi de sucessivos enganos por parte do ex-cônjuge, que se viu o dito marido a passear com a nova conquista! Também não se refere a bom som à secretária do chefe que ela está mais jeitosa do que o habitual porque pretende seduzir o patrão a troco de um aumento ou de um par de dias de férias a mais do que os restantes colaboradores! Sem “papas na língua” e com a perfeita noção do desadequado, o Descarado deixa mal qualquer um. E é talvez por isso que é o tipo ético paradigmático do destemido.
Na realidade e ao contrário do retrato desenhado por Teofrasto, que nos apresenta o Descarado como alguém cuja conduta tem em vista “benefícios mesquinhos”, a versão moderna desse tipo humano concebe um indivíduo que age propositadamente de forma natural. E se há alguma intenção que resulte do descaramento stricto sensu, não nos parece que tenha como objetivo “benefícios mesquinhos”. O Descarado nosso contemporâneo limita-se a dizer, sem rodeios ou subterfúgios, aquilo que pensa, seja ou não verdade, envergonhe ou não o alvo a quem se dirige. A sua natureza descarada torna-o numa figura de quem se gosta de estar afastado, porque da sua boca pode sair – e sai de facto – qualquer coisa. Por isso, não vale a pena correr riscos e optar por ter os descarados nos círculos íntimos de convívio. É de crer que se tornem mais comedidos com quem os trate bem. Tomam-se por sinceros, quando efetivamente o que dizem pode bem pôr em causa a integridade de uma dada pessoa, expondo-a ao olhar e aos ouvidos de toda a gente. Contrariamente à sugestões por mim deixadas nos textos antes publicados, acho que é prudente termos o Descarado por “amigo”. Ganhamos ambos com isso.