O corpo, um templo

Ilustração e texto por Lidia Meneses

O corpo é um  templo em si mesmo e um receptáculo. No Basava Purana, poema épico em télugo do Séc. XIII, escrito por Palkuriki Somanatha, um dos primeiros a referir-se a este conceito, o filósofo compara as suas pernas aos pilares de uma igreja, o seu tronco como um santuário e a sua cabeça a uma cúpula. Ele diz que nem todos podemos construir um templo, mas todos podemos transformar o nosso corpo num.

Os próprios templos são feitos à imagem do corpo humano. Um conceito radical para quem o lê pela primeira vez, mas, para quem estuda as artes, a arquitetura, não é um conceito novo. Vesica Piscis (V.P) é considerada «geometria sagrada» e resulta no espaço de interseção entre dois círculos, criando uma forma amendoada, à  qual também chamavam Mandorla, uma auréola de luz nas pinturas da arte sacra românica, em torno da figura de Jesus Cristo. A Mandorla, alma ou V.P, é o início de muitos desenhos que, em 3D, resultam em colossais monumentos. Nos inícios do Cristianismo, recorreu-se bastante a esta forma geométrica. Assim, V.P adquiriu o simbolismo da criação divina, separando-a dos antigos costumes pagãos ligados à sexualidade e à criação humana, à passagem do nascimento, tal é a sua semelhança. É, portanto, um símbolo universal do divino feminino e está na planta de muitas igrejas:

– Em Glastonbury, por exemplo, o local normalmente atribuído a Avalon, na Inglaterra, é conhecido como a Ilha da Deusa. É aqui que está localizada a Capela de Santa Maria, a qual foi padronizada com o uso de V.P.

L’Hemisphèric, de Santiago Calatrava, em Valência, é coberto por uma esfera e cilindros seguindo um esquema geométrico na forma de V.P, assemelhando-o a um olho.

– O símbolo foi também usado, recentemente, no Fórum Internacional de Tóquio, tendo sido o edifício principal, projetado pelo arquiteto Rafael Viñoly, para ser visto como um barco gigante e brilhante, sobrevoando a cidade. Esta forma geométrica, considerada sagrada, foi, portanto, feita à semelhança do corpo humano. Foi, também, o desenho básico dos templos góticos em todas as fases da construção: arcos, abóbadas, etc.

Aparte a introdução histórica que tanto merecia o nosso corpo, relembra-se que o corpo pode, até, assemelhar-se a um templo, mas não a uma tumba. É um presente da vida, só há mesmo que o adorar, venerar e glorificar. Então, porque nos preocupamos tanto quanto ao que pensam dele, porque tendemos a desprezá-lo? Não é vaidade tratar o nosso corpo com respeito, com cuidado e aprumo, pois não? Os corpos são a casa de espíritos.

Estar vivo, ter um corpo é um milagre, portanto, respeito-o. Se a minha casa precisar de redecoração, pois que se faz tarde, toca a lavar e a limpar, aprumar e perfurmar, refrescar, pintar, escovar… A pele, o sangue, todo o nosso sistema nervoso são recetores do mundo exterior e um meio de comunicação com o mesmo. O  nosso corpo é um trabalho contínuo de difícil manutenção, quanto mais tempo lhe dedicamos, por vezes, estragamo-lo e enfraquecemo-lo, dediquemos-lhe tempo, o quanto baste. Se encetarmos nele a melhor das disciplinas, passo a passo, sem grandes violências, sem maltrato, ele trará frutos, energia e alegria, ele fará ainda mais coisas, além de respirar. O corpo dança, retorce-se, salta, eleva-se em pontas, corre e protege.

Respeitar um corpo significa tratá-lo com dignidade e atender às suas necessidades. É difícil respeitar um corpo, quando, constantemente, nos autocriticamos com ideais ou expectativas irreais. Em vez de pensamentos que deprimem, é melhor parar e substituir por declarações mais positivas como, por exemplo, tirar proveito da diferença, transformar a diferença em carisma. Transformar a comparação em amor.

Nas revistas, televisão e redes sociais, todos parecem perfeitos, mas a verdade é que temos as nossas inseguranças e, em simultâneo, todos somos exclusivos. Nenhuma das outras 7,6 bilhões de pessoas, no planeta, é nosso semelhante (a menos que seja um gêmeo idêntico!). Somos únicos. Ser diferente dos outros não é algo mau, mas é uma questão de criatividade, é uma questão de espírito, é uma questão de respeito pelo nosso próprio corpo. Se achar que é tarefa árdua, tente tratar de si com a mesma gentileza que trata os outros ou trate de si da maneira como gostaria que, outros, o tratassem. Qualquer imagem de uma revista é editada, por vezes, nem é a ruga ou acne, é devido à ausência de luz.  Recuso-me a defender que o editado não é o real, na verdade, considero o contrário. Se a luz for colocada de uma determinado ângulo favorecedor, se a postura altaneira for mais elegante e se aquela maquilhagem, de facto, iluminar uns olhos cansados, porque não? A foto é um registo temporalmente, resistente. Queremos e merecemos estar no nosso melhor, nas diversas fases da nossa evolução humana.

O que mais importa, quanto a isto, na verdade, é que este templo esteja saudável e feliz. A pele é o maior órgão do nosso corpo. Através dela, podemos ter a experiência do tato, um dos nossos incríveis 5 sentidos. Curiosamente, vivemos numa sociedade em que a impessoalidade nos faz cada vez mais «seres intocáveis». A tecnologia, embora muito bem-vinda, piorou essa questão, distanciando-nos, ainda mais, uns dos outros e colocando-nos cada vez mais em mundos virtuais, contactless. A experiência tátil é super importante em todas as fases do desenvolvimento humano, desde a infância até à fase adulta.

E, no entanto, perdemos a noção do corpo, embora estejamos obcecados com a aparência, a saúde, a funcionalidade e sensualidade, mas desconectados das emoções, sensações e pulsões. O retorno à noção física parece tarefa difícil, uma vez que, culturalmente, somos induzidos a afastarmo-nos dele. Costumo dizer que o nosso corpo é um poço de sensações que somos desestimulados a conhecer e a usufruir. Será ignorância ou ódio por si mesmo ou uma mistura dos dois?

Para os tântricos, por exemplo, a dança, a respiração, a meditação, a vestimenta, o cheiro, o olhar, o espaço, o contacto real com o outro eleva a energia às sensações que vão muito além dos prazeres físicos. Em conclusão, a dança ajuda muito na aquisição da consciência corporal e na criação de empatia, intimidade, proximidade e confiança.

No toque, há toda uma arte!

Qualquer alguém que humilhe, profane ou provoque qualquer dano ou dor nesse templo que é o corpo não tem o direito a venerá-lo e a ousar tocar-lhe.

Alguém que o diminua, o rebaixe não merece nem templo, nem tempo, nem toque.

O primeiro passo para ser saudável é tomar as «rédeas» da própria vida nas mãos, isto é, cada pessoa é responsável por si e precisa de aprender a conhecer o próprio corpo. Sentir o que é necessário para se manter saudável, o que implica evitar «terceirizar» a saúde, pois não é o médico, terapeuta ou medicamento que torna o indivíduo saudável, mas as suas próprias escolhas. Por isso, é preciso estudar:

«Num templo, deves meditar. Sentir o que te rodeia. Ouvir. Escutar a energia que vem dentro dele e que te faz levitar.»

Instagram: @lidiamenesesdesign

Categorias: Opinião

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