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O Conto do Sinal de Trânsito

texto dedicado ao meu Avô António Tavares (1940-2024)

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Contar isto, de uma maneira ou de outra, trará, aos presentes leitores, uma ligeira sensação de abandono. Ainda assim, este conto passa-se no Verão de 2001, na casa dos meus avós maternos, por baixo de um Sol abrasador. Situando-me, eu, no espectro temporal de me ver, assim, de súbito, desprovido das mais vivas sensações soalheiras, fui, por força, impelido, pelo meu Avô António Tavares a caminhar rua abaixo – e, por entre passeios, vi-me sozinho. O objetivo – dizia, repetidamente, o meu Avô – era o de chegar ao STOP, e de parar aí. Mas, naquele lugar a meio caminho, a minha súbita abstração numa qualquer sensação de insegurança impôs-se e tive de fugir, rapidamente, para trás – para os braços do meu Avô. Tentaremos noutra altura; noutro dia, de novo.

E chegou, passados dois dias, a chance de voltar a tentar: o objetivo, esse sempre o mesmo, era o de chegar, sozinho, sem mão ‘amarrada’ à minha, ao sinal de trânsito mais próximo, no final da rua. Seria uma vaga esperança, que me inundava o peito e se confundia com o chilrear dos melros nas árvores, que me fariam anuir a outra tentativa. Ninguém mais o faria por mim, senão o meu avô António; afinal, quem é que perde o seu precioso e magnânimo tempo a tentar fazer alguém chegar ao sinal de trânsito mais próximo? Ninguém no seu perfeito juízo; só o meu Avô, suficientemente “louco” para isso. Seria, de novo, nessa noção de que as pessoas são os momentos; e os momentos fazem as suas, as nossas, pessoas que me voltaria de novo para o meu Avô, a meio do trajeto, e correria para os seus braços. A chorar e com medo da solidão daquele trajeto de abandono. O meu Avô, apertando-me os braços com as duas mãos e pondo-se de joelhos, firme pronunciava que, no dia seguinte, voltaríamos a tentar. E lá, a meio da tarde, daquele Verão de 2001, voltávamos a tentar; a falhar e a ruir o nosso próprio caminho, entre um trajeto tão inseguro. E foram assim, continuamente, com mais ou menos choro, e muitas ansiedade, se passando dias e dias. Afinal, a maioria, naquele tempo e lugares, e perante aquele contexto, já havia desistido. Mas o meu Avô não, ele continuava, sempre, seguro na sua de que, um dia, haveria sozinho de chegar ao sinal de trânsito ao final da rua. Seria a uma sexta-feira que, voltando da escola, o meu Avô me propôs, calmo e com muita serenidade, que tentássemos de novo. Com a mão – a minha – segura à dele, propôs, então, que fosse, passo a passo, como quem se não segurava a nada e caminhava sobre uma ponte quase a ruir, até ao sinal de STOP, no fim da rua. Parecendo-me, quase a desistir daquela missão, um objetivo nada palpável, nem real, fui, interiormente, passo a passo, até dar o primeiro passo daquele longo trajeto. A meio dele, senti uma sensação, lá está, de solidão despovoada, de abandono e de insegurança que, num clima de ansiedade precipitando-se sobre os meus braços, pernas, peito, garganta e, sobretudo, a minha mente, consistiam no cenário de tentação absoluta em voltar para os braços do meu Avô. Mas não voltei. Segui, passo a passo, um passo de cada vez, em frente. E, aí, a escassos dois metros de distância do STOP (um recorde mundial já batido, para mim), e quase a desmaiar de ansiedade, parei. Pensei, para mim, que aquilo, ali, não teria significado nenhum para ninguém, senão – ao menos – para o meu Avô, que o queria deixar contente e orgulhoso de mim. E dei mais um passo sobre a corda ténue e trémula do destino. Aí, tornei a parar, parecendo-me tarde de mais para conseguir, e alternando na incerteza, nova, daquele sucesso tão perto, ouço o meu Avô ao longe: – “Está quase, só mais um bocadinho!” Fecho os olhos. Tremo. E prossigo. Cheguei, ao fim de dois meses de tentativas, ao STOP. O meu avô, ao meu toque no sinal, corre ao meu encontro e, com um forte abraço, selámos a nossa eterna amizade.

Fiquei a conhecer o meu avô nesse momento, e, agora, quero que todos o conheçam como eu o conheci também. Um homem absolutamente confiante no seu neto e que, talvez, e não desistindo dele, o tivesse feito avançar tanto no seu Caminho.

Com o seu falecimento, no passado dia 26 de Novembro de 2024, ficou um vazio difícil de preencher na minha vida. Terei, como ele me ensinou, de caminhar sozinho daqui para a frente. Mas na certeza, absoluta, de que ele me continuará, sempre, a guiar.