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“O conceito de sala de aula tem que ser alterado”

Maria Emanuel Albergaria, mediadora cultural do Plano Nacional das Artes defende um novo modelo de escola mais prático e menos “militar”

Maria Emanuel Albergaria, 61 anos, é mediadora cultural do Plano Nacional das Artes © LAURA BORGES

DL: Como é que olha para a Educação nos Açores?
Temos imensos professores que vêm de fora e isso por um lado é bom. Por outro lado, acho que há algum desconhecimento do património local. É preciso algum equilíbrio. Nos Açores não se fala da cultura local, nem da natureza local.
Há cultura em todos os lugares onde há pessoas. Por isso é que no Plano, nós falamos muito em “culturas” no plural. Para não estarmos a impor só o que algumas pessoas pensam que é cultura. Acho que também temos de rever conceitos, as pessoas confundem, falam muito de cultura contemporânea, erudita. E é muito mais que isso.

DL: Neste projeto em que está, acha que é possível aplicar mudanças na Educação na região?
Eu tento muito no meu dia a dia que estes projetos culturais pensem na cultura do território que envolve a escola. Claro que também há muita avidez de cultura contemporânea e as pessoas também precisam disso para abrir horizontes. Temos já oferta nesse sentido. Não digo que chegue a todos, não chega, preciso sair da escola, fazer visitas de estudo, é imprescindível porque se aprende. É também passeio mas às vezes aprende-se muito mais do que dentro de uma sala fechada.
O conceito de sala de aula tem que ser alterado. A sala de aula pode ser num jardim, num museu, pode ser em qualquer lado, até no telemóvel.
A Educação tal como nós temos ainda é muito militar. Muitos países já deram cabo disto e já estão noutros paradigmas diferentes. Mas aqui as pessoas — lá está, é uma questão de mentalidade — ainda estão muito ligadas à ideia de que a escola são carteiras e cadeiras como num tipo de regime militar. Isso já não dá.

DL: Há um projeto na Vila das Capelas denominado Novas Rotas, é um exemplo a seguir?
Conheço, tiveram imensas adversidades, são uns lutadores. É um caminho, não digo que seja totalmente assim, mas pelo menos um híbrido porque exige imenso trabalho dos professores e dos pais. Por exemplo, eles estão agora na escola das Capelas e parece que não conseguem contagiar os outros à volta. Já entrevistei professores nas Capelas que querem ter os filhos nas Novas Rotas mas não querem mudar as suas práticas. É uma zona de conforto que não percebo. É difícil. Mas é preciso que fique dito que em todas as escolas há grupos de pessoas incríveis e que fazem a diferença, são professores excecionais. Mas, também, há uma massa muito forte que é muito conservadora.

DL: Como é que se muda isso?
Introduzindo devagarinho e dando mais espaço a essas outras pessoas que querem transformar. Nós temos uma medida no Plano que tem sido muito transformadora e que é o artista residente na escola. Tem sido muito bem sucedido, no sentido em que os próprios professores deixam o artista entrar e ele está na escola com uma liberdade completamente diferente do professor. Porque não é o professor artista. É o artista. E ele, por um lado, aproxima-se muito mais dos jovens que precisam de pessoas para conversar e não daquela distância do professor lá no pedestal. E os professores conhecem isso. Essas coisas levam um bocadinho de tempo e é preciso arriscar um pouco, às vezes há medo. Temos que provar que certas coisas podem mudar.

DL: O concelho da Lagoa e a vizinha Ribeira Grande têm uma taxa elevada de abandono escolar. Porquê?
Porque os miúdos rurais que estão habituados ao ar livre não gostam de estar fechados na escola. A casa deles é a rua. E ainda bem que podem brincar na rua, pois ainda há poucos sítios no mundo onde se pode fazê-lo. Mas ficam fechados numa sala, é contranatura. Às vezes sinto que ao entrar numa escola estou a entrar numa prisão.

DL: Acha que a digitalização e as novas tecnologias como o telemóvel prejudicam o relacionamento dos alunos atualmente?
Temos que reduzir o tempo de exposição. Vemos hoje em dia pais que dão telemóveis às crianças para se entreterem. Temos que ter cuidado e estar alerta para isso. É uma ferramenta ótima, mas acho que isto surgiu e não temos um rumo, ainda não regulamentamos na nossa vida como usar isto.

DL: Será que vamos chegar a uma geração em que não saberão pegar numa esferográfica?
Isso aí vamos ser máquinas, não vamos ser pessoas. Tenho medo disso.
Há, por exemplo, uma escola que acompanho em Lisboa em que pura e simplesmente decidiram proibir os telemóveis. E contrariamente ao que parecia ser uma coisa que podia provocar contestação, os miúdos estão a agradecer porque tornaram a brincar doutra forma. Acho que é importantíssimo para as competências sociais e afetivas das pessoas não estar sempre com isto [com o telemóvel], porque senão há parte da humanidade que desaparece e ficamos um bocado como máquinas. E isso eu não sei o que é que vai dar no futuro. Temos que ter cuidado. E temos a transição para a digitalização que anda tudo muito preocupado. Tem que haver aqui um meio termo. Há uma coisa que digo muito nas escolas e que é recentrar nas coisas essenciais. Temos que saber cozinhar e a cozinha pode ser um laboratório incrível. No Japão eles aprendem tudo a partir da cozinha. Temos que mudar o paradigma. Na escola há que aprender muitas outras coisas mais úteis e menos abstratas.

DL: Com a necessidade de mão de obra que a região enfrenta, acha que teremos em breve uma multicultura nas nossas escolas?
Fizemos no ano passado um inquérito sobre quantos estrangeiros temos nas nossas escolas nacionais e estão cheias. Portanto isto vai mudar também nos Açores porque não vamos ficar fora do mundo. São novas culturas que vêm.

DL: Isso leva-nos a ter que reforçar o ensino sobre Cultura açoriana?
Também. Para criarmos uma identidade mesmo para os que chegam. É importante eles perceberem que território estão a pisar. Temos que valorizar os nossos antepassados para termos um presente e um futuro mais digno. Senão seremos uma sociedade com Alzheimer. Já foi construída muita coisa, há muita energia gasta para chegarmos até aqui. Portanto, temos que saber o que é que se passou, pelo menos. Não é ser retrógrado, nem conservador, não, é valorizar os nossos antepassados para poder melhorar, viver o presente e o futuro. Se fizermos tábua rasa nunca vamos sequer aprender com os erros. A gente só valoriza o que conhece.

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Clife Botelho

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