No tempo da Biblioteca Itinerante na minha Vila de Água de Pau!

“(…) nem por um dia eu deixo de ler algumas páginas ou um capítulo de um livro.”

Roberto Medeiros

Uma das razões pela qual todos os dias eu sinto vontade de ler, deve-se ao aparecimento da Biblioteca Itinerante da Gulbenkian, a meio dos anos 60s, uma vez por mês, na minha Vila de Água de Pau.

Numa época em que eram poucos os carros que passavam na estrada que atravessa a nossa vila e menos ainda os que por cá paravam, que um dia ao vir um “carrão” estacionar no antigo canto-da-árvore, em frente à fonte da igreja de Nossa Senhora dos Anjos, os populares se questionaram porque tão estranha viatura, viera ali parar.

Eu e os meus amigos João Francisco, o David “blincia” e o Antero estávamos nos divertindo a contar “volkswagens” na-passagem, sentados no banco do meio da Praça Nova aproximamo-nos do estranho veículo. Era assim sempre que alguma coisa diferente aparecia ou acontecia, a rapaziada metia logo o bedelho para matar a curiosidade.

@ D.R.

Afinal o dito “carrão” era uma biblioteca itinerante. Todos os meses passou a vir perto da hora de saída dos alunos da Escola e esperava que se abeirassem para pedir livros para ler. Livros de aventuras, pequenas histórias, clássicos da literatura infantil e juvenil.

Eram dois os funcionários da “biblioteca”. Um conduzia a “carrão” Citroen e o outro preenchia as fichas dos pequenos leitores interessados, apontando os livros requisitados para ler durante um mês.

Havia umas poucas centenas de livros, à escolha, mas quem escolhia, por vezes, era o funcionário que “impingia” literalmente tais leituras a quem hesitava na escolha. Um, dois ou três livros por mês (havia um limite de cinco), chegavam bem e muitos liam-nos. Outros, raríssimos, perdiam-nos e andavam meses para “entregar”. Quem não “entregava” era penalizado pela não concessão de novos empréstimos ou pela exclusão do Cartão de Leitor, com um pequeno registo no verso onde se apontavam os empréstimos.

Por mim comecei com a literatura infantil, tipo Histórias com “gnomos” e as “Aventuras dos Cinco” de Enid Blyton. Os Cinco heróis destas aventuras são Júlio, o David, a Ana, a Zé e o Tim, que é um cão. Juntos envolvem-se em aventuras e confusões. Por causa dessa minha entusiasmante leitura tivemos na nossa casa também um cão chamado Tim como Os Cinco.

Ao contrário da actual geração de meninos e alunos das escolas, não havia no meu tempo de escola nos anos 60s computadores ainda. Desde sempre, o livro foi um suporte privilegiado de divulgação da língua e um dos instrumentos fundamentais do desenvolvimento cultural, educativo e económico. Hoje é a net e as redes socias que dominam o interesse universal, mas mesmo assim, nem por um dia eu deixo de ler algumas páginas ou um capítulo de um livro.

Voltando aos anos 60s da minha criançada recordo-me de um dia estar na fila para entrar na Biblioteca Itinerante, quando se aproximou o Gilberto Bico com um cão atrevido. Farejou tudo e todos e depois aproximou-se de uma das rodas do “carrão” e urinou com a perna alçada, pulverizando também as pernas de algumas pessoas, na fila, provocando zaragata. Para nós aquela foi a maneira que o Gilberto achou, ao levar o seu rafeiro para ali, para demonstrar que os livros e tudo o que eles representavam, nunca lhe interessaram. Por isso mesmo, nunca passara da segunda classe também. Nisso, o Zé Liga, pregou-lhe um “maquia”, fazendo-lhe voar a pirota (boina) da cabeça. Com o estrondo, até o cão ganiu de susto, mesmo sem ninguém lhe tocar.

De resto, enquanto não chegava o dia da Biblioteca Itinerante, quem andava na rua, naquele tempo, confrontava-se com imensas histórias como essas, porque estava-se no tempo em que podíamos brincar na rua, ouvir causos e ir ao Monte Santo procurar uma pedrinha, para por debaixo da cabeceira, para dar sorte no aproveitamento escolar. Na Vila de Água de Pau, era assim na minha infância!

Categorias: Opinião

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