Não somos descartáveis!

Eurico Caetano
Padre

Confesso que fui ingénuo o suficiente para acreditar que a pandemia pudesse trazer mais humanidade às nossas vidas, cada vez mais marcadas pelo egoísmo, pela ganância e pela solidão. Enganei-me!

Infelizmente, não resolveu, apenas agudizou a ferida, levando-nos ao abismo da humanidade, pois esqueceu aquilo que deveria definir-nos como homens e mulheres: a relação e o cuidado uns pelos outros.

Deixamos que se instalasse o medo e a irresponsabilidade dos nossos atos, como se os outros não fizessem parte de nós ou, até mesmo, como se não existissem. Aliás, até existem, enquanto nos servem, como qualquer outra mercadoria ou bugiganga. Depois, descartamo-la.

Basta olharmos à nossa volta e encontramos muita gente indignada com tudo e com todos, a fazer exigências desmedidas, a servir-se dos outros para os seus objetivos pessoais, a olhar apenas para si e a esquecer os outros, a começar pelos mais novos, mais velhos e mais necessitados.

Como já tenho partilhado noutros púlpitos, é triste vermos crianças órfãos de pais vivos porque não sentem o carinho, a preocupação e a atenção dos pais; apenas recebem rispidez na resposta e desamor nos atos, como se de um empecilho se tratasse. É desumano olharmos para os rostos marcados pelo tempo, por uma vida, muitas vezes de sofrimento e sacrifício (idosos e doentes) que, apesar da responsabilidade que temos de os proteger, não fomos criativos o suficiente para os fazer sentir presentes, queridos e amados, e às vezes até abandonamo-los em lares e hospitais, como se fossem lixo – e quando alguém os vê, vê-os lavados em lágrimas e assolados por sentimentos de culpa e pensamentos de peso. É desolador vermos pessoas necessitadas de algo, seja de atenção e amor seja de bens materiais e verificarmos que a sociedade está alheada a essas circunstâncias e a viver como se não fosse problema seu.

Ficamos incrédulos com o rumo que estamos a trilhar. Como podemos deslumbrar-nos com o avanço da ciência e da tecnologia (que também nos destrói) e não somos capazes de nos deslumbrar-nos com a humildade do sorriso de uma criança? Como podemos ficar encantados com novas descobertas e não com as rugas das histórias dos nossos idosos? Como podemos encher-nos de música e bebida e não sermos capazes de partilhar o que somos com aquele que está ao nosso lado e precisa de nós?

A humanidade precisa de se (re)encontrar. Não pode continuar a olhar para problemas como a tensão Rússia-Ucrânia ou tal como os migrantes que chegam à costa europeia como se fosse um problema apenas para os responsáveis políticos. Não podemos continuar a ver a agressividade entre crianças, adolescentes e jovens, como algo normal e reportando a responsabilidade para a escola. Não podemos continuar a encontrar idosos em solidão nas suas casas e no abandono de casas de acolhimento, como se fosse um problema das suas famílias, das instituições e do Estado. Não! Chegamos ao ridículo de nos preocuparmos com a sede em países pobres (e é motivo de preocupação) e não queremos saber do nosso vizinho que muitas vezes tem sede de um olhar e de uma palavra amiga.

Estes problemas são nossos. São dos homens e mulheres deste tempo, que precisam mudar de prioridades, que precisam de encontrar a esperança de com a próprias mãos construir um mundo mais humano.

Precisamos de ser criativos no regresso àquilo que nos define. Precisam-se de homens e mulheres que promovem encontros onde haja partilha, alegria, atenção… encontros onde nos doamos para que o outro seja mais feliz e não um acessório com tempo útil de vida.

Não somos descartáveis. Somos homens e mulheres que se devem definir pelo amor: amor que cuida, respeita, liberta e realiza.

Artigo de opinião publicado na edição impressa de março de 2022

Categorias: Opinião

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