Na Vila de Água de Pau pandemia substitui festas de Nossa Senhora dos Anjos por missa campal

Por RoberTo MedeirOs

Devido ao surto da Pandemia da covid-19 as nossas grandes festas foram canceladas. E digo grandes festas porque se dúvidas houvesse da sua importância para esta vila de Água de Pau, o facto é que no dia em que as mesmas se realizam é dia de Feriado Nacional em Portugal. Tem, portanto, uma distinção que os primeiros desta terra e a Paróquia de Nª Sª dos Anjos devem ter orgulhosamente iniciado com enorme devoção e empenhamento uma Procissão com todos os santos que a igreja tinha, percorrendo as ruas desta vila, envolvendo os fiéis e os “grandes” da terra e atraindo gentes de todos os cantos da ilha e mais tarde os seus filhos emigrantes. E por falar em emigrantes, desde que a emigração começou, os filhos desta terra, mesmo longe foram sempre apoiando a sua padroeira para que a sua Festa e Procissão nunca baixasse de dignidade e prestígio, nem aos olhos de Deus e de sua Mãe, nem aos olhos de quem nos visita, para pagar promessa por graças recebidas ou para as pedir à Senhora dos Anjos.
Na impossibilidade de se realizar este ano de 2020 as Grandes Festas de Nª Sª dos Anjos, resolveu, e bem, o pároco local, João Furtado, com a Comissão das Festas, PSP com suas Forças de Segurança e o Grupo Coral de Nª Sª dos Anjos, uma Missa Campal em frente à nossa Igreja, com a presença da Mãe e “Quirida” Senhora dos Anjos. Teve lugar pelas 11:00 horas da manhã e durou cerca de quase duas horas. Contou com muitos fiéis e com a participação da Banda Fraternidade Rural de Água de Pau, que tocou o Hino de sua padroeira e outro dedicado ao Santíssimo.

Imagem Senhora dos Anjos participou com os fiéis na Missa Campal de 15 de agosto de 2020 FOTO DR

Cumpriu-se um ritual digno da nossa comunidade católica da Vila de Água de Pau, onde foram dignamente referenciados os nossos irmãos emigrantes e a sua falta, no fim da missa. Presentes estiveram também pelas entidades municipais, Cristina Calisto e Albertina Oliveira presidente e vereadora da Câmara Municipal de Lagoa, respetivamente e ainda Paulo Ricardo Melo, presidente da Junta.
Quem nasceu e cresceu nesta terra, como eu, não precisa de estatística alguma para perceber quando ela está diferente, pior ou melhor, em todos os aspetos, socioculturais ou economicamente. Nesta Vila sempre existiu, segundo a história e desde que me lembro, da parte da sua população, um orgulho sem comparação da sua Festa de Nossa Senhora dos Anjos.
Há séculos que se celebram estas grandes festas e é no seu dia grande, 15 de agosto, feriado nacional, da assunção de Maria, que acorrem de toda a parte da ilha fieis católicos, gente que adora e não falha uma procissão, turistas e emigrantes de regresso à sua vila de Água de Pau ou à sua ilha de S. Miguel. Pois este ano de 2020, tal não foi possível e custou muito, não ser possível.
Paralelamente ao facto de estas festas já serem de enorme e centenária fama, pois na última década do século XIX já alguém contava, debruçado no seu balcão algures na Lagoa, que contara mais de duzentas carroças com gente a caminho das festas de Água de Pau. Desde esse tempo vinham-se notando alterações muito positivas a vários níveis.
Logo pela manhã do dia de festa [15] já havia famílias a sentarem-se em «cadeiras-de-abancar» a marcar lugar na Praça Nova e rua da Trindade para ver a Procissão que só sairia pelas 5:30 da tarde. Claro que era também para tirar partido das alegres manhãs de festa da Senhora dos Anjos, em Água de Pau, com os seus grupos de cantares populares a tocar e a cantarem pelas ruas e praças, desde cedo, a caminho do adro da igreja. Ali espera-os, na frente da porta, o padre e por vezes, o bispo de Angra, que os recebia e ouve seus cânticos religiosos em homenagem à sua padroeira – a Senhora dos Anjos.
Água de Pau encheu-se sempre de gente para as suas grandes festas que me atrevo a dizer que são mais os visitantes do que locais durante toda a tarde e noite. Lia-se nos visitantes, fiéis olhares cativos, eram os emigrantes que estavam vindos agora em muito maior número a esta festa. Via-se noutros o entusiasmo por aqui estarem a participar dum ambiente afetivo e partilhado também nos comentários que se cruzavam.
Aqui e ali notavam-se dedos e olhares apontados para os paroquianos que com a sua vizinhança iam desenhando e construindo os seus bonitos tapetes de flores, onde as hortênsias azuis dominavam na pintura da passadeira que ia receber as entidades religiosas, governamentais e muitos fiéis com os santos que deixaram os altares da igreja vazia neste dia da assunção de Maria.
Anos houve em que terminada a procissão os visitantes da ilha partiam de regresso a casa e ficávamos nós e os nossos emigrantes locais a festejar o arraial da festa. Felizmente, isso mudou. Durante um recolher da procissão, perante os olhos do padre João Furtado, do bispo João Lavrador e do padre lusodescendente desta vila, Stephen Salvador, vindo de Dartmouth, EUA, fiéis e visitantes nunca saíram da praça nova em frente à igreja.
Parecia um mar de gente, auscultando as palavras do bispo de Angra e do padre João Furtado, quando a imagem da padroeira senhora dos Anjos saiu de novo à porta da igreja para saudar o povo. Há muito anos que eu não via isso acontecer. Acontecera sim, no passado, quando Água de Pau tinha muitos mais habitantes e a fé dormia na mesma cabeceira que o povo desta terra.
Eu encontrei emigrantes que já não vinham a Água de Pau e à sua ilha há meio século. Eu tremia de emoção, porque sempre vivi sensações destas desde longa data. Estão entusiasmados com a beleza da ilha e pelas transformações que sofreu desde o tempo que partiram, mas estão fascinados com a sua linda vila.
Contam-me histórias do reencontro com a antiga casa, com as terras onde trabalharam e tiraram o sustento para a sua família. Muitos deles choram recordando a pobreza e o conforto que os pais lhes davam mesmo com aquela pobreza toda. Hoje esse sentimento está facilitado pelo progresso, mas já não é «tão bom» como dantes e dá-me um exemplo o Manuel Augusto, filho de antigo cesteiro, a viver em Montreal: “agora os rapazes já não falam, comunicam entre si por mensagens de telemóvel” e adianta “a nova geração bem pode nascer até «mouca» que já não é problema, podem comunicar por mensagem, pois os que ouvem também só comunicam assim”.

Em 15 de agosto de 2019 a Senhora dos Anjos percorreu a Vila de Água de Pau aos ombros dos seus filhos FOTO DR

Em suma, as Grandes Festas de Nossa Senhora dos Anjos sempre trouxeram gente à vila de Água de Pau, tantos, tantos como outrora, me contava meu pai. Ontem quando a caminho de casa, onde vivo na Caloura, dei a volta pela ponte do Caminho Novo e recordei que no ano passado, quando fiz o mesmo trajeto, à meia-noite ainda se viam carros estacionados nas bermas, desde ali, até à Cruzinha no caminho da Caloura. Caredincruz! Depois disseram-me que o Pisão também esteve repleto de carros, não contando com todas as ruas e parques de estacionamento locais…tudo esteve cheio. Afinal, muita gente teve com certeza, no ano passado, um dia feliz bem passado na Festa de Nª Sª dos Anjos na Vila de Água de Pau, no dia 15 de agosto, dia Feriado Nacional em Portugal e nos consulados e embaixadas portuguesas espalhadas pelo mundo. Tenhamos fé que em agosto de 2021 tudo regresse ao normal, sem pandemia e com o mundo mais saudável, livre da covid-19. Que Nossa Senhora dos Anjos assim o permita.

(Crónica publicada na edição impressa de setembro de 2020)

Categorias: Opinião

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