Na Vila de Água de Pau Entrudo ou Carnaval tem história

Roberto Medeiros

Se há terra onde a sua população teima em preservar as suas tradições, Água de Pau é uma delas.

Desde que me lembro e dos mais velhos ouvi contar, o Carnaval, a par doutras localidades sempre foi uma série de festas de regozijo público que se celebram nos dias que precedem a Quarta-feira de Cinzas, princípio dos jejuns quaresmais. Em Água de Pau esta festa ainda não caiu em desuso como noutras localidades desta região dos Açores.

O Carnaval pauense foi em tempos um misto de contínuos folguedos em que celebrar o Entrudo divertindo-se, era sinónimo de brincar sem tenção ou intenção de ofender o próximo mesmo quando se pregavam partidas carnavalescas.

© D.R.

Nos anos trinta, do século XX, a par das engraçadas, mas privadas festas de Carnaval que se desenrolavam nas casas de algumas famílias que representavam a elite pauense, brilhavam as jovens damas de Carnaval com lindos trajes e coreografias conseguidas a preceito para o efeito naquela altura.

A exemplo do que se disse, naquela altura, as professoras “Vieira”, desta terra, na defesa das tradições carnavalescas tomavam as rédeas à iniciativa e organizavam as suas próprias festas.

O próprio “Animatógrafo”, edifício que se localizava na Rua da Ribeira ao lado também da desaparecida indústria dos vimes e onde hoje se situa a nova escola Professor João Ferreira da Silva, foi palco, no passado, de grandiosas festas e folguedos carnavalescos onde as duas Tunas – a nova e a velha orientadas respetivamente por Papandeiro e Augusto Medeiros Couto – entretiam a população e os entrudeiros desta e doutras localidades.

Claro que nem só de fantasia e cultura se cultivava o Entrudo no passado. Num tempo não muito distante, foi por vezes também brutal, onde nas ruas generalizava-se também uma verdadeira luta em que as armas eram ovos de gema ou suas cascas contendo farinha, que eram atirados sobre as cabeças dos transeuntes. Até se jogava ao Entrudo com laranjas e outras frutas estragadas, ou esfarrapava-se as caras dos transeuntes e entrudeiros com corantes de adicionar à cal utilizada na caiação das casas, tais como anil, o ocre, o formigão e até ferrugem e carvão moído.

No entanto tem-se vindo a civilizar o Entrudo e começaram a aparecer pelas ruas algumas mascaradas vistosas e interessantes, a par das lutas de água que ocorrem pela parte da manhã, onde as armas utilizadas são algumas “limas”, balões e sacos plásticos com água e até baldes com água.

É então da parte da tarde que estas atividades são substituídas por desfiles de rua de variadíssimos motivos mascarados desde os defensores do ambiente aos ora pomposos ora ridículos e grotescos representantes das mil e uma profissões deste e do outro mundo.

Mas o que realmente distingue o Carnaval de Água de Pau das outras localidades e surpreende as pessoas que por cá passam, porque julga-se que só nesta terra isto se faz é o seguinte: na noite que antecede a Terça-feira de Carnaval, ou seja na Segunda à noite, desenterra-se o Entrudo, juntando-se vários grupos de pessoas em representação das suas ruas e agrupando-se num só ou em dois grupos, vão munidos de tambores, tachos e panelas ou tampas daquelas, bidões, cornetas e outros utensílios que façam barulho. Percorrem as ruas da vila dirigidos por uma ou duas pessoas que vão na frente ora com um corno de boi emitindo sons ruidosos de aproximação do grupo que quer “Desenterrar o Entrudo”, ora então com um archote de fogo, aceso e que donde a onde vai esta pessoa soprando para o archote o petróleo armazenado na boca sempre que o ritual exigia.

Ainda me lembro, já lá vão mais de cinquenta anos, no início da década de 1960, ia eu então num destes grupos quando se entendeu estender o ritual até à vizinha freguesia da Ribeira Chã. Bem, foi o pânico total. A população interpretou então a iniciativa muito mal, até porque nem havia ali luz elétrica ainda e houve gente que só se destrancou ou saiu à rua quando teve a certeza de tratar-se de brincadeira de Carnaval e não outra coisa, e sabe-se lá o que lhes ia na cabeça. Não ganharam para o susto. Ainda hoje alguns idosos, daquela localidade, nem querem recordar esta brincadeira de “mau gosto”, dizem.

Na Terça-feira à noite, quando os desfiles de mascarados de rua da tarde dão lugar aos “lençóis brancos” que circulam pelas ruas a anunciar o “Enterro do Entrudo”. Vão então estas pessoas envoltas em lençóis brancos de casa em casa em forma de despedimento das brincadeiras de Carnaval e vão trazendo de cada casa as tradicionais “malassadas” enfiadas num espeto que sai a prumo por cima dos lençóis. Procede-se depois ao enterro do Entrudo. Assim o mesmo ritual utilizado na noite anterior repete-se, mas agora como forma de “Enterrar o Entrudo”, por mais um ano. A verdade é que isto vem vindo a acontecer desde que me lembro.

A par de tudo o que atrás se disse, graças ao seu povo alegre e festivaleiro, tem-se vindo a preservar a atividade carnavalesca nesta vila, também este ano, como nos anteriores, desde que o Polivalente do Largo dos Anjos de Água de Pau, ficou pronto em 1997, e o Pelouro da Cultura da Câmara Municipal de Lagoa, iniciou estes Corsos Carnavalescos, que depois, a Junta de Freguesia vem apoiando ano após ano, desde a primeira edição. A participação individual e em grupo constituem ano após ano, como neste ano se prevê de novo, um total de participações que irão colorir a tarde carnavalesca que chamou, quando estiver a ler essa crónica, terça-feira, pelas 16H00, ao Polivalente, centenas de populares.

Tem sempre o Júri para a seleção dos melhores e mais criativos, inovadores e alegres desfilantes algumas dificuldades com certeza, porque têm vindo a aplicar-se os participantes destes desfiles carnavalescos que a Junta de Freguesia vem recriando em Água de Pau.

A noite termina quase sempre ainda com o ajuntamento de “lençóis brancos” na Praça da República, antiga Praça Velha, onde a tradição tem sido, muitas vezes, premiada pela oferta de “malassadas” aos entrudeiros participantes, pela mesma Junta de Freguesia.

Ainda a respeito do Entrudo ou Carnaval, há, pois, que aproveitar a quadra e respirar, por um pouco, a graça de um sorriso e o prazer de uma gargalhada. Ao menos nestes escassos dias do Carnaval, porque a alegria também alimenta com sentimento saudável que é. Por isso, divirta-se ao menos a juventude com a descuidada alegria da sua idade. Mas faça-o de maneira sã e com a consciência serena e pura buscando na distração um remédio para o seu espírito e não um veneno para perda da sua alma e para ruína do seu corpo. Porque, em verdade se diga, os tristes são os vencidos, mas os pauenses não, porque são os “quiridos”!

Crónica publicada na edição impressa de março de 2022

Categorias: Opinião

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