Mythica. O produto de beleza que tem no leite de burra açoriano “o segredo da longevidade”

Nos Açores a produção do leite de burra tem como destinos principais a França e os Estados Unidos. Na ilha Terceira aproveita-se agora, também, a produção animal para criar um produto de beleza inovador

Apresentação da linha de cosmética Mythica Skin Care decorreu no hostel Procyon em Ponta Delgada © DL

A ilha Terceira foi a primeira a conhecer a novidade: Mythica Skin Care é uma linha de produtos cosméticos que vai à natureza buscar a sua matéria prima. O produto utiliza o leite de burra  e chegou à ilha de São Miguel, no passado dia 21 de junho, dia em que foi apresentado o produto publicamente.
Marcos Couto, empresário terceirense, é quem está por detrás da ideia que precisou de “três anos de trabalho”. Ao Diário da Lagoa (DL) explica como tudo se iniciou. Os primeiros passos surgem com a produção do leite de burra, na ilha Terceira, que tem essencialmente dois mercados, “a cosmética francesa para onde exportamos aproximadamente 60% da nossa produção” e depois “o consumo humano nos Estados Unidos, muito vocacionado para as doenças autoimunes e crianças com doenças autoimunes”. 

A descoberta das propriedades do leite de burra tem sido investigada em Itália, na China e nos Balcãs. Tem vindo a ser utilizado na alimentação de adultos, sendo um leite naturalmente magro que tem vindo a despertar interesse, por exemplo, para o tratamento da obesidade.

O empresário terceirense revela ao DL que em vez de só exportar a matéria prima, acharam que seria interessante “criar uma linha de cosmética feita nos Açores“. A partir daí sublinha que seguiu a máxima “sozinho vais depressa, acompanhado vais mais longe”. Partiu à procura de parceiros que estivessem interessados em unir esforços. Na ilha de São Miguel encontrou o sócio lagoense, João Marques, e com o qual já havia colaborado em outras áreas de negócio. Já na cidade do Porto estabeleceu a parceria com o sócio que foi “a primeira pessoa em Portugal a criar uma linha de cosmética de leite de burra e que já trazia o know-how da área que também era muito preciso porque o leite de burra é um produto caro e complexo”, revela Marcos. Ficou assim reunida uma equipa que considera “bastante equilibrada” e que permitiu, fora da empresa-mãe, entrar numa vertente comercial mais “segura, mais sólida”.

Ao criar uma nova linha, “certificada pela Ecocert e pela Cosmos”, organizações europeias de certificação para produtos cosméticos orgânicos e naturais, “pretendemos que seja um pouco a imagem da beleza açoriana. Tem por base um produto de origem animal, o leite, tão característico dos Açores, e também associado àquele eterno segredo da beleza de Cleópatra. Ela banhava-se todos os dias na ordenha de duas mil burras que era o segredo da longevidade da beleza da sua pele”, garante Marcos Couto.

O empresário terceirense considera que o projeto é um “daqueles sonhos românticos que se criam e que se vão desenvolvendo a pouco e pouco”, sendo que a linha de cosmética “é inteiramente produzida em França”. Questionado sobre o porquê dessa escolha, Marcos explica que foi em França que o leite de burra começou a ser utilizado há cerca de 40 anos em produtos de beleza. Os franceses desenvolveram o conhecimento que classifica de “muito específico”.

“Nós produzimos, sensivelmente, 600 kg de leite por ano, aproximadamente sete mil litros de leite por ano numa exploração com 70 animais”, conta, considerando que “dá para produzir para eles [os franceses] e ainda para seguir para os Estados Unidos.

“É uma nova forma de dar utilidade à própria raça”, defende Marcos uma vez que se trata de “uma raça que foi essencialmente de trabalho. A burra anã da Graciosa é a única espécie autóctone dos Açores e uma das duas portuguesas, a par da mirandesa. Foi selecionada geneticamente para ter um tamanho muito pequeno e como tal também produz muito pouco. Estamos a falar de um animal que no pico da sua lactação produz um litro de leite por dia”.

O empresário lagoense João Marques, também presente na apresentação da marca em São Miguel, diz ao DL que o seu grande papel foi o de ajudar “com algum know-how de montagens”, salientando que se tratou de um “trabalho de equipa e de pessoas com vontade de chegar ao mesmo fim”. O Mythica Skin Care será um produto que irá marcar “mais pela qualidade” que “terá o seu espaço no mercado”. 

Como empresário, Marques comenta que nos tempos que se vivem há que ser cauteloso, mas diz acreditar no produto e sobretudo na sua qualidade.

© MAFALDA FERREIRA, HOSTEL PROCYON

A equipa, composta pelos três sócios, tem o apoio da designer Lidia Meneses, que ao longo dos últimos três anos tratou da conceção da imagem da marca e conjugou diferentes ideias para chegar à embalagem, mensagem e cores finais. 

Na apresentação aos convidados, Lidia explicou que “este é um produto para todas as peles e para todos”, sendo que escolheu a cor lilás porque considera que é uma cor unisexo, uma cor “audaz” que “está muito relacionada ao lendário, ao misticismo”.

A designer admite que houve avanços e recuos ao longo dos três anos, porque é necessário “muita paciência, acreditar muito no produto, saber ouvir críticas”, revela. “Acreditei muito neste produto, foram muitas horas de trabalho, mas sobretudo a persistência”, assegura.

A Mythica é composta por uma linha de cremes faciais para noite e dia, creme de mãos, corpo e gel de duche. A marca já faz vendas online e está à procura de distribuidores e revendedores locais para montar a sua distribuição nos Açores.

Clife Botelho com Sofia Magalhães

Reportagem publicada na edição impressa de julho de 2022

Categorias: Reportagem

Deixe o seu comentário