Museu da Emigração Açoreana reabre ao público

Investimento de 30 mil euros permitiu renovar o interior do espaço que oferece, a partir de agora, nova museografia alusiva à emigração açoriana. O Diário da Lagoa marcou presença na reabertura e esteve à conversa com os visitantes

Museu reabriu no passado dia 9 de setembro, data em que assinalou o seu 17º aniversário © DL

O museu da Emigração Açoreana, na Ribeira Grande, em São Miguel, reabriu ao público na passada sexta-feira, 9 de setembro, após obras de remodelação e conta com nova museografia. Os novos elementos alusivos à emigração açoriana agora presentes no museu, remetem para diferentes destinos, com especial enfoque nos Estados Unidos da América, Canadá e Brasil.

Em declarações ao Diário da Lagoa (DL), o diretor artístico do museu, Rui Faria, disse que “o museu tinha que estar num espaço físico, podia estar na Ribeira Grande como podia estar na Lagoa, na Terceira ou no Corvo”, começou por destacar.

“Está aqui há 17 anos e está muito bem porque este é também o segundo concelho que mais filhos açorianos deu para a emigração”, destacou o responsável do museu.

“Aqui tentamos ser o mais açorianos possível, não se trata de um museu sobre a Ribeira Grande, nem dos ribeiragrandenses, é dos açorianos e depois de fazerem uma visita ao museu ficam com uma ideia bastante clara dos porquês, de como é que foram ao longo dos séculos e os principais destinos, mas, também, aquilo que tornou o açoriano tão conhecido neste mundo com as tradições que levaram consigo”, concluiu Rui Faria.

Rosa Simas, professora e escritora que ao longo dos anos tem publicado sobre temas relacionadas com a Mulher, a Migração, o Ensino, a Tradução e o Ambiente, foi convidada a cortar a fita de inauguração © LUÍS FURTADO/ CMRG

José Andrade, diretor da direção regional das Comunidades, em representação do Governo regional dos Açores, marcou presença, no mesmo dia em que o museu celebrou o seu 17º aniversário salientou que “o museu da Emigração Açoreana, a par da sede da associação dos Emigrantes Açorianos, e da própria praça do Emigrante faz da cidade da Ribeira Grande uma capital da identidade migratória do arquipélago dos Açores”.

“Este é o único grande equipamento museológico dedicado à emigração numa região historicamente marcada pelo ritual viajante de um povo que é muito maior do que as suas próprias ilhas”, relembrou o diretor regional.

Alexandre Gaudêncio, presidente da câmara da Ribeira Grande, também presidiu à cerimónia de inauguração. “Estamos a assinalar uma nova etapa deste museu. Após dezassete anos de existência, foi nossa intenção modernizar o espaço, contanto para isso com novos painéis informativos, bilíngues, e recriando a história da nossa emigração e dos vários países que acolheram os nossos conterrâneos”, explicou o autarca.

Lélia Nunes, natural da cidade de Florianópolis, estado de Santa Catarina, no Brasil, professora convidada pela autarquia para estar presente na reabertura do museu, enquanto observava atentamente a nova museografia contou-nos que: “estou muito emocionada, porque o movimento da emigração para nós em Santa Catarina foi a maior mobilidade humana do Brasil colonial”.

“Fico a pensar naquelas pessoas que largaram tudo para trás, homens e mulheres que largam tudo, uma vida inteira para trás, premidos pela necessidade da sobrevivência e esperança de um novo mundo”, confidenciou a convidada.

A professora natural do Brasil é autora de uma proposta de geminação entre Florianópolis e a Ribeira Grande, que visa aproximar ambas as localidades, atendendo às comemorações dos 275 anos daquela cidade brasileira, que se assinalarão em 2023.

Já Eduardo Almeida, que na ocasião visitava o museu, ao DL começou por contar que conhece o espaço há 17 anos e que “esta nova museografia está fantástica, pela setorização dos diferentes destinos da emigração. Qualquer pessoa, destas origens e emigrados nestes países, ao chegar aqui não terá dificuldade nenhuma em absorver a informação do seu passado. Está muito fácil, os interesses são facilmente identificados, estão de parabéns”.

Samuel Cabral, ribeiragrandense que esteve 22 anos emigrado e regressou em 2020, revelou que está contente pela reabertura do museu: “está tudo muito bem desenhado, sou designer e posso dizer que a informação está muito fácil de consumir, rapidamente vê-se o ‘timeline’ de tudo. E ao visitar percebe-se a importância da emigração e a dificuldade que foi para muita gente passar por isto, inclusive a minha própria família”, diz.

Carlos Rodrigues, também visitante presente na reabertura, ao DL disse que a museografia “está muito boa, estive aqui antes da pandemia e havia muita coisa que eu acho que não tinha qualidade. Eles retiraram e agora está simples, com poucas peças mas boas e muita coisa escrita em português e inglês que antes não havia. Está belíssimo agora.”

A inauguração da reabertura contou com a presença de dezenas de interessados em ver a nova museografia © DL

Antes de regressarmos à cidade da Lagoa, Susana Goulart, professora e historiadora, esteve à conversa connosco e falou-nos da importância do espaço agora renovado, salientando que “retrata uma realidade que é endógena ao arquipélago dos Açores”.

“Temos que recordar que o arquipélago foi um espaço de emigrantes, ou seja, vieram para aqui gente oriunda de muitas partes do continente português, da Madeira, do norte da Europa. Os Açores nascem desta componente de emigração e ao longo do povoamento, a partir do século dezassete, de facto as necessidades internas do arquipélago motivaram certas ilhas e certos grupos sociais a sair”, explica a historiadora.

“Nós tornamo-nos emigrantes replicando em outras terras aquilo que os nossos antecessores tinham feito primeiro no período do século quinze, e este museu conta essa história, essa narrativa da viagem. Os Açores são um povo de viajantes entre as várias partes do mundo, em várias partes dos oceanos”, evidencia Susana Goulart, acrescentando, depois, em jeito de conclusão que: “nós também temos maior consciência de nós quando nos contrastamos com os outros, este museu permite consolidar aquilo que é igual, mas também aquilo que é diferente e isso é muito saudável”.

Clife Botelho

Categorias: Reportagem

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