Mestre Antonino

(…) antes que a memória se apague

Roberto Medeiros

Ainda estou a vê-lo com o seu vizinho e colega de trabalho Artur Costa “velhinho”, ambos carpinteiros a montar a “cofragem durante a construção do Cineteatro Ferreira da Silva, na rua da Carreira, no início da década de 1960.

Durante anos, estiveram os dois ao serviço da Casa Francisco Ferreira da Silva, enquanto se construiu o edifício, executando, multisserviços, até à sua inauguração em 1966.

Neste ano, durante a inauguração, o antigo ministro de Salazar, Arantes de Oliveira foi recebido com pompa e circunstância pela Banda de música Fraternidade Rural e muitas entidades Governamentais, Municipais, Junta de Freguesia, Regedor e dos proprietários Humberto e Victor Silva com seus convidados. Todos viram o “operador-de-cinema” Antonino Amaral dos Santos, orgulhosamente manusear pela primeira vez a máquina nova, para projetar cinema na primeira e linda Casa de Cinema “coberta” da Vila de Água de Pau. No cubículo ao lado, lá estava também a máquina-relíquia que durante anos-e-anos passou-filme na antiga “Esplanada de Cinema Ferreira da Silva” transformada hoje num parque de estacionamento no início da rua Professor João Ferreira da Silva (antiga rua da Carreira).

Em 1966 eu só tinha 11 anos, mas meu pai levava-me para todo o lado e por isso, também eu, presenciei esta experiência, introduzindo-me, furando entre a muralha de adultos, e meti lá o bedelho para ver o senhor Antonino “passar-filme”!

Mestre Antonino © CORTESIA MANUELA CARREIRO

O Mestre Antonino era amigo de meu pai e da nossa Cova da Onça e era colega de trabalho do meu primo Artur “velhinho”, mas o que viríamos a ter em comum seria o facto de virmos a ter o mesmo padrinho do Crisma.

Humberto Silva, foi o nosso padrinho e na altura recordo-me do Mestre Antonino, que não gostava que lhe chamasse de “senhor”, perguntar-me qual tinha sido a minha prenda do nosso padrinho? Quando estendi a mão esquerda e lhe mostrei um anelinho de ouro, ele replicou inclinando a cabeça fazendo uma careta risota e dizendo: “a mim deu-me uma barreta (!), pois é, tu és filho do senhor Manuel Egídio e eu sou o carpinteiro de serviço da casa!”

“Marfisa” era o nome que ele dava ao meu penteado quando passava por ele com o meu fatinho domingueiro e com a risca ao lado no meu cabelo, ao lado do meu pai no campo de jogos do Paul e que hoje tem o nome de Campo Mestre José Leste. Ele fazia a sua risota meiga juntando os dois dedos, polegar e indicador, da sua mão direita, quase me tocando na cara, para afirmar que gostava do meu penteado de criança. São coisas que nunca se esquecem e que as crianças registam na sua memória.

Meu pai sabia que só o Mestre Antonino sabia preparar manualmente um verniz de forma a que depois de aplicado, podíamos nos pentear no seu espelho, porque feito por outros sempre ficava basso. Aliás, hoje já se compra o verniz preparado em fábricas, pronto e para todos os fins que se pretenda. Na década de 1960, mestre Antonino adquiria na Cova da Onça a matéria prima avulso e sabia fazer o seu verniz que ilustrou com esmerada profissão tantos corrimões e rodapés altos dos corredores e escadarias de tantas casas como na nossa também.

Mais tarde a Câmara Municipal de Lagoa contratou-o para as oficinas de carpintaria no seu parque de máquinas e foi quando nos voltamos a encontrar e partilhar duas décadas de companheirismo quando ali também fui vereador e vice-presidente. Quando e sempre que nos cumprimentávamos cada um dos seus acenos e sorrisos tinha para mim uma carga de dezenas de anos de amizade, saudade e um conforto de amigo leal do antigamente, do tempo de meu pai e da nossa Cova da Onça.

O seu sorriso era a sua marca social de presença perante a sociedade de um modo geral e pauense em particular. Sempre cordial e simpático nas suas respostas e conversas dificilmente o esquecerão quem o conheceu neste mundo, porque no outro para onde partiu adivinho que Deus o terá já em muita boa conta ao pé de si.

Categorias: Opinião

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