“Mão de obra é um problema grave para toda a Região Autónoma dos Açores”

Falta de trabalhadores para as várias áreas de produção agrícola na região denunciada pelo presidente da Federação Agrícola dos Açores. Em entrevista ao Diário da Lagoa (DL), Jorge Rita diz que é preciso criar atrativos para combater o problema

Jorge Rita é também presidente da Associação Agrícola de São Miguel © DL

DL: Através da Associação Agrícola de São Miguel, conseguem ser ouvidos pelos sucessivos governos ao longo destes anos todos?
Sempre, desde sempre. Ninguém consegue governar bem na agricultura se não tiver o cunho, o parceiro da Federação Agrícola dos Açores. Não vale a pena a gente pensar ilusoriamente que alguém vai chegar e vai fazer tudo bem feito e que deixe as associações agrícolas ou federação de lado, isso é impensável. Isso tem sido demonstrado ao longo dos anos e todos percebem que é fundamental trabalharmos em articulação, salvaguardando divergências — e obviamente que elas existem —, mas ao longo destes anos houve sempre capacidade de diálogo.

DL: E o que é que a associação faz?
Faz tudo. Depois da reivindicação temos como parceiros sociais, a parte do leite, a parte da carne, a parte das hortícolas, a parte da fruta, tudo isso que engloba vinha, madeira, floresta, está aqui como sócios da associação e depois também, inclusive, estão incluídos na própria federação [que representa todos as associações do arquipélago]. Depois, tudo o que são parceiros que são favoráveis, tudo o que são as grandes reivindicações. Uma delas [das reivindicações] que é transversal a todos os setores da atividade, tem a ver com os termos do rateio durante quatro anos e isso equivale a milhões de euros que também corresponde a ajuda aos agricultores, que precisam e merecem. Também os protocolos com as instituições bancárias e tudo o que são áreas comerciais. Penso que os sócios sentem-se bem, confortáveis sabendo que têm uma organização que os defende, que os ajuda e que, inclusive, serve como barómetro nos bons negócios que acabam por fazer com outras organizações que não são associativas, nem cooperativas. Nós somos o barómetro dos preços de tudo. 

DL: E ao nível dos apoios, são suficientes? Têm chegado?
Penso que todos nós temos consciência que não são suficientes. O governo regional dos Açores, que também tem dificuldades financeiras como teve o anterior, não vem dar voluntariamente à lavoura se não houver uma reivindicação forte. A estratégia de redução da produção com o apoio dos 15 cêntimos é uma reivindicação exclusiva da Associação Agrícola de São Miguel e da Federação Agrícola dos Açores. Claramente que o senhor presidente do governo teve a inteligência e a confiança na federação e no presidente da federação, no sentido de agilizar essa situação com resultado muito positivo para os agricultores.

DL: Quando se pensa nos Açores, pensa-se no setor do leite e da carne. Acha que os agricultores devem apostar mais no setor das frutas e legumes?
O seu jornal não vai ter páginas suficientes, nem sei se vai ter papel garantido para lhe explicar isto tudo em pormenor, mas vou ser o mais sintético possível nessa matéria. O que se vê hoje, e é o caminho correto de se fazer, é aumentar a produção de carne nos Açores porque Portugal é um país muito deficitário em carne, mais de 50 por cento da carne que se consome no país é importada, carne bovina importada. Nós temos aqui automaticamente uma vantagem comparativa, podemos produzir muito mais carne nos Açores, até mesmo só para o mercado nacional. 

Podemos ser muito mais autossuficientes em algumas das produções na área das hortícolas e na área das frutas. Obviamente que é uma situação complexa. Nas áreas das hortícolas, esse caminho está a ser percorrido. 

Tem havido muitos jovens agricultores com formação. Tem-se visto exemplos excecionais de produções nas áreas das hortícolas na Região Autónoma dos Açores, e esse é um caminho que tem pernas para andar e obviamente não é incompatível com o leite nem com a carne, complementam-se todos perfeitamente. 

A mão de obra é um problema grave para toda a Região Autónoma dos Açores, a área da fruta e a área da vinha precisa de muita mão de obra disponível, que nós não temos.

DL: Acha que se devia criar atrativos para resolver esse problema?
Há muita gente nos rendimentos de inserção e no desemprego. A gente sabe que nem toda  a gente tem condições para trabalhar na agricultura mas penso que podemos todos, se quisermos, criar também alguns incentivos adicionais para que as pessoas também venham para a agricultura e fazer com que eles gostem daquilo que é criado. 

A agricultura é criar todos os dias. Não é só nos bovinos, mas quando se planta ou semeia algo temos a expetativa de tratar e de alimentar e, depois, recolher ou para venda ou para consumo. Eu acho que quando se cria algo, as pessoas são totalmente diferentes. 

Eu não posso conceber, numa região como a nossa, que tem o ADN de gostar de trabalhar, durante muitos anos, em que havia o orgulho das pessoas dizerem que do fruto do seu trabalho tinham comprado a sua casinha, tinham educado os seus filhos e até tinham casado os filhos, hoje vejo muitas famílias desagregadas e que não têm qualquer tipo de legado para deixar aos seus. Isso, para mim, incomoda-me e deixa-me muito triste.

Quando saem pessoas da Região Autónoma dos Açores para outra região, para outro país qualquer, são excelentes trabalhadores. Temos de voltar a fazer com que essas pessoas acreditem que o trabalho para eles é extremamente importante, até psicologicamente, mas para isso também têm de ser devidamente compensadas. Se a nível das empresas existem essas dificuldades, que são sobejamente conhecidas, então que seja o governo com parte dessas verbas, a pagar melhor aos empregados no sentido de haver algum incremento também para a agricultura. A agricultura hoje, cada vez mais, é uma agricultura de precisão e com mais conhecimento.

Desde de quem produz a quem trabalha, desde de quem transforma e comercializa, todo o trabalho integrado na agricultura também tem que ser feito em termos de formação.  Isso é uma condição obrigatória para todos os setores de atividade. Incomoda-me, ainda, pensar que vamos ter que mandar vir pessoas de fora, ou pedir para vir pessoas de fora, para trabalhar quando temos cá muita gente que podia estar a fazer algo na Região Autónoma dos Açores e não faz, é uma reflexão. Haja também coragem política, não só para que se ponha as pessoas a trabalhar e a acreditar com orgulho naquilo que fazem.

Por Clife Botelho

Entrevista publicada na edição impressa de agosto de 2022

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