Manuel Clemente de Almeida e histórias da Ribeira Chã

Roberto Medeiros

O senhor Manuel Clemente foi por muitos e largos anos o homem de confiança e o braço direito do Padre João Caetano Flores, na Ribeira Chã. Com a sua partida foi-se com ele muitas das histórias sobre a memória coletiva da Ribeira Chã.

Hoje, poucos, ou quase ninguém sabe falar do passado desta nobre freguesia fundada em 1966, como o senhor Manuel Clemente sabia, no tempo em que meu pai era vereador por Água de Pau e Ribeira Chã, na Câmara da Lagoa.

Tivemos várias conversas e por cada história que ele me ia contando sobre a sua querida Ribeira Chã, mais eu ficava entusiasmado pela próxima. Vou recordar uma delas:

– Durante a construção da Igreja Nova o ministro das Obras Públicas do Estado Novo de Salazar, Eduardo de Arantes e Oliveira (engº), foi uma figura importante no apoio financeiro, credibilidade e aprovação do arriscado projeto inovador da Igreja Nova para aquela altura no início da década de 1960 e que contou no seu interior com o trabalho artístico do pintor Tomaz Vieira.  

A presença do Ministro Arantes e Oliveira na inauguração da nova igreja merecia uma lápide em mármore com o seu nome para uma ‘Avenida’ e não uma Rua. Rua é coisa para político local ou regional, comentou comigo o sr. Manuel Clemente, repetindo-me palavras do Padre João Caetano Flores.

“Tínhamos orgulho na nossa Ribeira Chã, que até 1965 foi um curato da Vila de Água de Pau e em 1966 ganhou estatuto de Freguesia”, contava-me o sr. Clemente, e continuou, “alguém acreditaria que um Ministro de Salazar iria aceitar inaugurar uma ‘rua’ com o seu nome num lugarejo com cerca de 600 habitantes?”. Nem pensar, referiu-se-lhe o Padre Flores! Tinha de ser uma Avenida! E foi.

Assim nasceu na Ribeira Chã uma ‘avenida’, coisa que na vizinha Vila de Água de Pau não havia. Só isso, dava para larga conversa de despique entre o Padre João C. Flores e o seu compadre Manuel Egídio de Medeiros, quando ia à Cova da Onça, pedir a meu pai a cedência dum camião para o Cortejo de Oferendas na Ribeira Chã, para ‘render’ dinheiro para pagar a igreja!

O tapete de flores, no dia da inauguração, foi qualquer coisa de monumental. Eu estive a caminhar por cima dele, ao lado de meu pai… depois do senhor ministro e governador civil e outras entidades passarem, já se sabe.

Passaram-se os anos. O Estado Novo acabou. Veio a ‘Revolução do 25 de Abril’ e um tempo conturbado em que, a dada altura, os comunistas mandavam em Lisboa e num dia que o senhor Manuel Clemente nunca esqueceu, o Padre Flores bate-lhe à porta à noite e diz-lhe: – “Ó Manuel Clemente temos de tirar, já, a lápide de mármore com o nome do ministro Arantes de Oliveira que está na Avenida. Tive um telefonema de fonte certa que veio à ilha um salafrário qualquer do governo comunista do Vasco Gonçalves para limpar tudo o que remonta ao tempo do Estado Novo!”

O senhor Clemente, que já se preparava para deitar, foi logo chamar alguns rapazes da sua confiança e foram retirar a lápide com a toponímia do ministro. A mesma foi escondida no seu quintal, não fosse o diabo tecê-las e ainda ser descoberta na arrecadação da igreja por algum rapazola que desse com a língua-nos-dentes e fosse contar aos comunistas.

Durante muitos anos, a lápide ficou escondida até que um dia o Dr. Mota Amaral, sabendo da história assegurou ao senhor Padre Flores que já podia voltar a coloca-la no seu lugar, contou-me o senhor Manuel Clemente.  A verdade é que ainda lá está à esquerda da escadaria que dá acesso à porta principal da Igreja de S. José na linda e risonha freguesia da Ribeira Chã.

Ele recordou-se que na minha infância e, pelas vindimas, eu vinha para a casa do senhor Manuel da Silva Couto, na rua da igreja, o compadre de meu pai, para andar na sua burrinha, quando acartava cestos d’uvas do caminho da Correia para o Cafuão, em frente à sua residência. Ali, as uvas eram despejadas nos tabuleiros onde eram escolhidas pela Noêmia, Maria José, a Eduarda e a mãe delas, a senhora Lurdes. Nesse tempo não havia luz elétrica na Ribeira Chã, então tive a experiência de me sentar à mesa da cozinha para jantar com toda a família Couto à luz do candeeiro. Eu dormia no sótão com os filhos Gil e João. Recordo que o Evaristo, o mais velho casara com a Inês e já vivia noutra casa, emigrando depois para a cidade de New Bedford, na América.

Desde a década de 1980 e até meados da de 1990 o Padre João Caetano Flores motivava o seu povo e este foi protagonista de feiras de gastronomia tradicional como em mais nenhuma parte da ilha se fez tão bem.

Assim, num largo que onde nasceria depois um polidesportivo, ao lado do Quintal Etnográfico do Centro Social Paroquial da Ribeira Chã repleto das mais variadas plantas endêmicas e medicinais dos Açores, toda a ilha acorria à Ribeira Chã para provar as típicas papas de farinha serpentina e de carolo, o seu bolo de banana (sem competição na ilha) acompanhado de chá de poejo, bom para a digestão. As sardinhas assadas e bolo feito na sertã de barro com vinho de cheiro era motivo de filas infindáveis nas tardes de domingo na Ribeira Chã.

As feiras de tardes domingueiras de verão na Ribeira Chã ficaram famosas e deu aso à publicação de dois livros sobre a culinária caseira típica desta freguesia. Tratou-se duma entre muitas das iniciativas do Padre João Caetano Flores para registo da memória coletiva e promoção das receitas genuínas e tradicionais do seu povo.

Uma brochura, em forma inédita de ‘bule-de-chá’ foi mandada publicar, mais tarde, pela Drª Maria de Lurdes Pacheco, Presidente do Centro Social Paroquial e Núcleo Museológico local, sobre diferentes chás, a partir das plantas medicinais do Quintal Etnográfico.

Muito do que está feito na Ribeira Chã se atribui à iniciativa do Padre João Caetano Flores, mas é ao seu povo que ele atribuía o mérito de concretizar os seus projetos.

Eu recordo de ir pela mão de meu pai à antiga ermida de S. José e tenho em mente a linha de galochas que ficavam à sua porta quando os paroquianos nela entravam para assistir missa, descalços. Depois, os “inhameiros” da Ribeira Chã arregaçaram as mãos e nunca disseram não à lista do Padre Flores com o rol de tarefas que era atribuído a cada família para trabalhar voluntaria e semanalmente nas obras de construção da igreja nova.

Alguns nomes, que merecem registo nesta enorme tarefa foram os pedreiros, António Cabral e Rodolfo Almeida ‘lapinha’ (ainda vivo em New Bedford), ambos de Água de Pau. Os carpinteiros, José Caetano de Medeiros e Manuel Silveira Alves, as duas figuras que estiveram na primeira Junta de Freguesia, José Lourenço e Manuel Clemente de Almeida e muitos, mas muitos mais, que emigraram e continuaram a enviar parte das suas economias para a sua Igreja Nova e os que já partiram deste mundo com o seu querido padre João Caetano Flores. Bem-haja este grande povo da Ribeira Chã.

Crónica publicada na edição imprensa de julho de 2022

Categorias: Opinião

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