Mãe e filha fazem da lavoura um modo de vida

Guida e Carla Cordeiro, residentes no Lugar dos Remédios, na freguesia de Santa Cruz, são duas mulheres micaelenses que fazem da pecuária o seu ganha pão. Ligadas a um só trabalho, tornam os pastos verdes, o local da sua profissão, e os animais a sua companhia

Guida Cordeiro é natural das Capelas, mas vive há 30 anos na Lagoa © DL

O Pau Pico, nos Remédios, é o local onde Guida e Carla trabalham e onde está a sua exploração de leite. Foi na véspera do furacão Gaston que o Diário da Lagoa (DL), teve a oportunidade de conhecer estas duas mulheres que se dedicam a um trabalho onde predominam os homens.

Perto da hora do nascer do sol, às seis da manhã, começam o dia com o abrir da ordenha. Começam por dar ração às vacas, engatar os tubos de leite e também por as colocar na ordenha.

Guida Cordeiro, 53 anos, é natural das Capelas, mas é no lugar mais alto da Lagoa que vive e trabalha há 30 anos. Habituada nesta vida desde pequena devido ao pai, foi o marido que lhe deu a responsabilidade de, sozinha, tomar conta do seu sustento.

“Eu sempre fui criada nisso e já tinha muito conhecimento. Quando fiquei sozinha [viúva], foi diferente. Pensava: ‘Jesus, como é que eu me vou desenrascar?'”. O certo é que tem se desenrascado, mas não sozinha.  Carla Cordeiro, 28 anos, licenciada em engenharia do ambiente, é o braço direito da mãe. Conta-nos um pouco desta rotina. Atualmente o trabalho acaba por ser mais reduzido devido à diminuição das cabeças de gado da exploração.

“Antigamente, havia dias de nos levantarmos às quatro da manhã, tínhamos muito trabalho. Antes tínhamos quase 70 cabeças de gado ao todo e nós as duas sozinhas, a nossa vida era resumida a trabalhar. Não havia dias livres, folgas e férias e tivemos assim durante dois anos. A minha mãe já não tem a mesma idade que eu, claro. Eu sendo nova, estava esgotada e então decidimos que estava na hora de reduzir a exploração. É muito esgotante, todos os dias nisso. Não se pode dizer ‘hoje não me apetece ir’ porque eles [os animais] dependem de nós. Íamos para as vacas de noite escuro, acabávamos por volta das sete, oito horas, com tudo feito. Quando são dias de mudança, é o dia quase todo nisto porque temos de mudá-las de sítio para uma distância maior e trazer tudo connosco. De tarde o ritmo volta a ser o mesmo. Na altura às 14h30 tínhamos de sair de casa, agora saímos às 16 horas”, explica.

Profissão de difícil sustento

Carla é licenciada em engenharia do ambiente e é o braço direito da mãe © DL

Ficou claro ao longo da conversa com Guida e Carla que já não estamos a viver o tempo das vacas gordas e que o presente é muito diferente do passado. “É uma vida que já não dá a rentabilidade que dava antigamente. Tudo o que é produção primária neste momento, se não forem os apoios europeus, não dá em nada” conta Carla.

Existem vários obstáculos que tornam cada vez mais difícil a boa prática deste ofício. Há cada vez mais rigor nos parâmetros e valores do leite que “se nós próprios produtores não tivermos cuidado com essas pequenas coisas, a gente é que fica a perder. A ração custa os olhos da cara e é isso que tem bastante impacto na nossa produção. É vital tê-la porque é um complemento. Tudo o que falha aqui, tudo o que elas não conseguem da silagem da erva e do milho [produzido também pela mãe e pela filha], temos de complementar com a ração e é um preço absurdo. Na minha opinião, esse sector nunca se pagou a si próprio”, considera Carla Cordeiro.

A engenheira ambiental considera que as pequenas explorações “vão deixar de existir porque já não são sustentáveis.As minhas vacas estão sujeitas ao clima, ou seja, elas vão produzir de acordo com a erva que comem, o tempo, e então, o leite que elas produzem não é igual todos os dias”, explica Carla.

Guida Cordeiro diz que há menos vacas nos pastos. Cada vez mais há mais vacas para a engorda, isto é, fazer com que o principal fornecimento delas seja carne e não leite. “Desde que entrou essa crise e quando veio essa opção da pessoa se poder converter para a engorda, muita gente acabou com a lavoura. As fábricas querem leite e não têm. Há lavouras de quase 200 vacas que foram para a engorda”, diz.

“Elas sabem quando é a hora da ordenha”

Inverno e verão, duas estações do ano, em que fazer lavoura transfigura-se numa experiência totalmente diferente. Numa ilha em que o clima é instável, as condições meteorológicas tornam-se um fator determinante para quem vive desta profissão. “O verão é terrível por causa do calor e é só moscas por todo o lado. Dá mais trabalho porque tem os pastos para limpar e ervas para fazer os rolos. No inverno faz muito frio e nevoeiro e é pior por causa da lama. Os animais vêm todos sujos”, afirmam.

Atualmente, são cerca de 40 as cabeças de gado da exploração de Guida e Carla, incluindo bezerros, novilhas e vacas de leite. É costume dar-se nome às vacas após serem mães e apesar de aparentarem ser muito semelhantes, são muito diferentes.

Carla sabe o nome das 24 vacas de leite existentes no seu gado.“Isso é tal e qual como os cães. Há manchas que as distinguem, tu consegues perceber pela estatura do corpo. Quem não está habituado, olha, e parece tudo igual. Todas elas têm personalidades diferentes. E elas também me conhecem, estão habituadas a mim, à minha mãe e quando vem uma pessoa diferente, elas estranham. E por muito tempo que estejas ausente, se elas a partir de uma certa altura estiveram contigo, elas vão sempre lembrar-se de ti. Elas sabem quando é a hora da ordenha, sabem quando é a hora de estarem ao pé da máquina. Não têm relógio, mas sabem a hora certa. Nós é que achamos que são animais e não nos apercebemos da inteligência que têm atrás de si”.

Independentemente dos apoios, das dificuldades, do tempo e esforço, Carla e Guida são um exemplo de força e coragem. Carla confessa que “é uma vida sujeita, dura, muito trabalhosa, mas ao final do dia chegas a casa e sentes-te leve, não é um trabalho que te dá cabo da cabeça quando trabalhas naquilo que gostas”.

Catarina Teixeira

Reportagem publicada na edição impressa de novembro de 2022

Categorias: Reportagem

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