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Ler?! Isso (não) é para mim!

Rui Tavares de Faria
Professor e investigador

Ao leitor habituado às minhas atualizações dos Caracteres, de Teofrasto, começo por pedir desculpa, porque, no presente número do Diário da Lagoa, comemorativo do seu 11.º aniversário, me permiti um “desvio”. No espetro das temáticas que dão corpo a esta nova edição, acolhi com muito bom grado o convite e sugestão do Sr. Diretor do DL, a quem agradeço, e decidi refletir sobre a leitura. Alguns pensarão – e até dirão –, “olha, mais do mesmo!…” Seja mais do mesmo ou não, a verdade é que ler é, ainda no meu entender, um dos melhores remédios para um número significativo de maleitas. Daí o título “Ler?! Isso (não) é para mim!”, que me permite uma explanação dúplice, procedimento que promove e estimula, espero que seguramente, a reflexão junto dos leitores.

“Ler?! Isso NÃO é para mim!” Quantas vezes já não ouvimos esta expressão? Quantos dos nossos alunos não a dizem, sem pruridos e convictos de que de facto o ato de ler não lhes traz quaisquer benefícios? Dispenso-me de dar a resposta, pois é do conhecimento de todos. O que temos vindo a assistir nas últimas três décadas, no que se refere ao uso e abuso das novas tecnologias, constitui, pelo menos na minha ótica, a causa primeira para que ouçamos amiúde que “isso de ler não é para mim…” O que tem substituído essa prática? As consolas, os videogames, as redes sociais, os telemóveis, a falta de atenção de pais e encarregados de educação, a ausência de hábitos de estudo e de interesses num futuro que não deve depender exclusivamente do universo da informática. Na verdade, entrar no quarto de uma criança, adolescente ou jovem adulto, nos dias de hoje, já não significa ver a cama do tipo de estúdio, com duas prateleiras com livros, já não é o mesmo que ver, num canto ao lado da janela, uma secretária ou escrivaninha com caderno e mais livros… Significa, isso sim, ver uns pufes bem almofadados diante de um mega ecrã, a que se juntam comandos de jogos; significa ver candeeiros que emitem jogos de luz que em pouco são saudáveis ao bem-estar ocular do miúdo ou da miúda. Perante esse cenário, é, portanto, perfeitamente aceitável e normal, ouvirmos, com convicção, “Ler?! Isso NÃO é para mim!”

É óbvio que, mesmo neste mundo dominado pelos avanços tecnológicos, que também nos são benéficos, alguém me diga para não ser mais um Velho do Restelo, que há e-books, que também se pode ler e escrever em gadgets sem papel, que muitos livros já foram e continuam a passar para a tela do cinema e, quase de imediato, para as plataformas de streaming, logo, para quê comprar livros? Para quê ter estantes em casa para livros? Mais duas questões cujas respostas estão na ponta da língua. Reconheço as potencialidades dos e-books e outras ‘coisas’ afins, mas deixo mais uma questão: por que razão os mais novos continuam a não ler? Não se trata, então, do meio através do qual se oferece a leitura, trata-se da falta de estímulo, da falta de exemplo… Os resultados da ausência de hábitos de leitura revelam-se prejudiciais, disso não tenhamos dúvidas. Quem diz que “Ler?! Isso NÃO é para mim!” é alguém que, normalmente, não se expressa bem, não escreve bem, não fala bem, não pensa bem… E ainda nos queixamos do estado em que se encontram certos estados democráticos?

“Ler?! Isso É para mim!”, afirmo-o aqui, sem medos e sem vergonhas. Essa prática, para muitos “da era dos dinossauros”, dá-me muitíssimo prazer, muito conhecimento, muita vontade de falar, de escrever e de partilhar com os outros, sejam eles alunos, sejam eles amigos, sejam eles colegas, sejam eles quem forem. Isso de ler é, na realidade, uma das minhas atividades favoritas e, neste sentido, tenho de deixar registados vários agradecimentos: o primeiro vai para os meus pais, que sempre me permitiram ler, sempre me incutiram o hábito de ir à biblioteca pública, nunca me tiraram os livros que eu tinha nas estantes do meu quarto, partilhado com o meu irmão que veio a seguir a mim, para pôr no seu lugar bibelots, medalhas e carrinhos em miniatura. O segundo vai para a minha irmã mais velha; era com quem eu ia à biblioteca, era com quem eu dividia as leituras, era com quem eu competia pelo número maior de livros lidos. O terceiro – e talvez o mais importante – vai para as minhas professoras e os meus professores, a começar pela minha professora do ensino primário.

Por isso, quando não há em casa quem possa ou consiga oferecer o fabuloso hábito de pegar num livro impresso e lê-lo, a tarefa fica nas mãos – e no exemplo – de quem ensina. Como poderão os alunos da atualidade gostar de ler, se lhes são apresentados tantos instrumentos, com letras, imagens e cores, através de PowerPoint? Através de quadros interativos? Como terão vontade de ler alunos a quem se diz “não é preciso leres o livro, lê antes o resumo”? Como desenvolverão competências e capacidades diversas – o aclamados skills – os alunos com quem os professores não partilham livros e experiências de leitura? As respostas a estas questões, deixo à responsabilidade dos meus leitores, aqueles que dedicaram uns minutos do seu tempo a LER(-me)! A eles, o meu bem-haja!

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Rui Tavares de FariaProfessor e Investigador

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