Lagoense Gonçalo Cabral abriu o seu primeiro negócio aos 16 anos

Gonçalo Cabral, 55 anos, já passou por vários trabalhos, sempre relacionados com a hotelaria e restauração. O dono de um dos espaços mais procurados na Lagoa contou a sua história de vida ao Diário da Lagoa

Gonçalo Cabral é o proprietário do conhecido snack-bar Senhora da Graça © SOFIA MAGALHÃES/ DL

Gonçalo Cabral, natural de Santa Cruz na Lagoa, está desde sempre ligado ao setor da restauração mas as artes sempre o fascinaram. Quando ainda frequentava o sexto ano de escolaridade obrigou-se a ter de deixar a escola para ir trabalhar com o pai no antigo restaurante Marisqueira, em Santa Cruz. Começa por confessar que apesar de ter nascido “entre as panelas”, e de ter talento para barman, sonhava em estudar desenho, já que gostava muito de fazer caricaturas. Proporcionou, em outros tempos, porco no espeto e música ao vivo no snack bar Senhora da Graça, no Rosário, mas admite que nunca mais foi possível devido à vizinhança “eu percebo todos nós queremos ter descanso ao final do dia mas nas noites de verão as pessoas saem de casa às 23 horas”.

Empreendedor desde jovem

Aos 16 anos Gonçalo decide abrir o seu próprio negócio, ”na altura estava a namorar e o meu pai não nos dava folgas. Esta profissão é como uma prisão mas sem grades”, explica, e acaba por ficar quase sempre ligado à restauração. O seu pai queria vender a salsicharia que tinha e é a primeira vez que Gonçalo aventura-se no seu primeiro negócio depois de uns tempos sem trabalhar. Recorda que o pai não o levou a sério, no início, mas que depois de ter arranjado a fiança para o negócio,começou “a ganhar gosto”. E prossegue: “ele achava que eu estava a brincar, mas foi sem dúvida a melhor altura da minha vida, dos 16 aos 20 anos”. Relembra emocionado que na altura não tinha poupanças nenhumas e que quem o ajudou foram os padrinhos da ex-mulher. Dez anos depois decide abrir um bar em Santa Cruz porque o único que havia era o da Marisqueira e na altura estava fechado: “como sempre tive a paixão de abrir um bar, fechei a salsicharia” avançando sem medos de investir num novo projeto.

Quando do Diário da Lagoa (DL) chegou ao snack-bar Senhora da Graça, notou que, por entre o barulho das chávenas, e dos clientes a comentar o jogo do passado fim de semana, os empregados têm uma relação de amizade não só com Gonçalo Cabral, mas também com os clientes. 

Carlos Caetano, Ricardo Oliveira, Marco Pereira, Rafael Pacheco e Gervásio Pacheco são os membros da equipa do conhecido café Senhora da Graça, que contagiam todos com as suas gargalhadas e boa disposição. Gonçalo Cabral,  chefe da equipa, conta-nos que costuma dizer que “o sucesso não depende do patrão, depende sim dos funcionários porque ninguém caminha só”. 

Hoje, o “senhor Gonçalo” como é conhecido, tem cinco funcionários mas é ele que tem de ir lá ajudar todos os dias: “todos os dias tenho um funcionário de folga e hoje já tive de vir cá fazer três horas”, garante.

O primeiro Bar

O seu primeiro bar foi em Santa Cruz, perto da igreja Matriz, onde passou a fazer o que mais gostava. Na altura o pai convenceu-o a comprar a fábrica de gelados que queria vender, e ficar com o bar da praça de Santa Cruz mas não resultou: “com o investimento que fiz no café ao mesmo tempo que tinha a fábrica de gelados, não consegui aguentar e acabei por vender”. 

Emocionado relembra que esteve nove meses desempregado, já com duas filhas. “Foi uma fase muito complicada na minha vida”, confessa, mas a luz ao fundo do túnel acabou por aparecer. Quando o hotel Bahia Palace abriu, em Água D´Alto, inscreveu-se e ficou no bar a trabalhar no que realmente gostava de fazer: “senti-me realizado porque não tinha formação, não tinha curso, e como gostava de aproveitar tudo o que o meu chefe podia ensinar-me, em dois anos cheguei a subchefe”, relembra orgulhoso. Quem o contratou já o conhecia da Marisqueira: “ ele sabia que eu estava mais ou menos dentro do ramo”. Fez o primeiro contrato de seis meses e já no segundo ficou efetivo. Três anos depois sai para integrar outro novo projeto, o bar do hotel Talisman, em Ponta Delgada, por lhe terem oferecido melhores condições. “Recebi um convite do senhor Abílio Onofre para ir para o hotel Talisman”, conta. Mas essa estadia durou apenas um ano: “tive de ir para o restaurante Torre do Pópulo, com o José Artur, o meu irmão, onde tivemos muito sucesso”. 

O último projeto:  Snack-bar Senhora da Graça

Da esquerda para a direita: Ricardo Oliveira; Gonçalo Cabral; Marco Pereira e Carlos Caetano © SOFIA MAGALHÃES/ DL

José Carreiro Cabral, pai de Gonçalo, investe com ele na compra do espaço que hoje dá pelo nome de Senhora da Graça. “Em 2003 não encontrei nada mais pequeno do que este e eu e o meu pai ficamos fascinados, então investimos os dois. Ao fim de seis anos fiquei sozinho e comprei a parte dele”. Este foi o melhor, mas também o investimento mais difícil, garante o empresário. Em conversa com o DL, Gonçalo conta que o imóvel teve um custo elevado e que os primeiros anos foram os mais dolorosos. Apesar de estar bem situado passou muitas dificuldades e agradece principalmente aos fornecedores que o ajudaram na fase mais difícil: “eu é que abria e fechava, durante cinco anos não tive folgas”.

Por trabalhar tanto, o destino acabou por o obrigar a abrandar. A certa altura, descobriu que tinha um problema cardíaco e teve de ir para Lisboa tratar-se. Recorda com tristeza que a filha mais velha, Vanessa, ”deixou de tirar o curso de Turismo para ficar aqui no meu lugar e foi a partir daí que comecei a tirar uma folga e a fazer horários por turnos”. Em 2020, Gonçalo Cabral teve de fechar o snack-bar devido ao confinamento motivado pela pandemia de covid-19. Conta que “aqueles 70 dias que estivemos fechados foi sangue, suor e lágrimas. Trabalhava sozinho, à porta fechada, fazia quilómetros para trazer o café às pessoas. Quando a polícia vinha ter comigo porque a concorrência estava a fazer queixas constantemente, as lágrimas corriam”, recorda. 

Aos 55 anos, Gonçalo Cabral lembra que “o sucesso não depende do patrão, depende sim dos funcionários porque ninguém caminha só, um bom empregado não é aquele que trabalha muito, é aquele que é sério e honesto porque trabalhar muito e depois não ser honesto nestas profissões não vale a pena”. 

Depois de vários negócios, hoje, com 55 anos, diz que é um homem realizado.

Sofia Magalhães

Reportagem publicada na edição impressa de março de 2022

Categorias: Reportagem

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