Lagoa, 500 anos: 1522 a 2022 – História, Cultura e Turismo

“(…) percorrer todo o litoral do concelho de Lagoa é viver cores, sabores e falares repletos de açorianidade. Muito mais se percorrermos pelo seu interior com os olhos marcados pela alma”

Roberto Medeiros

O concelho de Lagoa é o mais pequeno da ilha de São Miguel, mas grande em iniciativas socioculturais no concelho e junto das comunidades lagoenses emigrantes dos EUA e Canadá. É um concelho de muita história lavrada e narrada pelos feitos do seu povo desde o seu povoamento até ao presente.

No dia 11 de abril de 2022 celebra o seu 500º aniversário da sua elevação a concelho, por Carta Régia de D. João III. A partir de 19 de outubro de 1853 viu crescer e valorizar o concelho de Lagoa a sua área geográfica com a integração do antigo concelho vizinho, da Vila de Água de Pau, suprimido no âmbito duma redução dos municípios em Portugal, de 605 para 305, num período da vigência dum governo português “regenerador” parco em recursos económicos.

A gratidão manda prestar, nesta data simbólica, justa homenagem a todos os lagoenses e em particular aos que assumiram as rédeas do crescimento e desenvolvimento do concelho, através do seu rútilo talento, dedicação e tenacidade, rendendo-lhes os maiores louvores, por aquilo que o concelho de Lagoa representa hoje, entre os 19 municípios dos Açores.

Visualizar a cultura do povo lagoense, suas pontes com as suas origens socioculturais é tarefa difícil, embora alguns lagoenses como o Dr. Francisco Carreiro da Costa, o Padre João José Tavares, os professores João Ferreira da Silva, Luciano da Mota Vieira e outros, terem publicado já uma boa parte do percurso histórico deste concelho.

O dimensionamento da cultura lagoense, associada ao potencial histórico-arquitetónico, natural-paisagístico, de um lado, e os aspetos histórico-culturais de Lagoa do outro, visa promover o desenvolvimento turístico entre a sua cidade de Lagoa [freguesias de Santa Cruz e Rosário], a Vila de Água de Pau e as outras duas freguesias de Cabouco e Ribeira Chã, e reflete a visão moderna de todo o concelho.

Percorrer o litoral do concelho de Lagoa, desde o Rosário até à Ribeira Chã, passando pelo “Passadiço Litoral da Lagoa” que liga a Atalhada ao Portinho de São Pedro, pela Baía de Santa Cruz e pela costa microclimática da Caloura de Água de Pau, em toda a sua extensão, é viver cores, sabores e falares repletos de açorianidade. Muito mais se percorrermos pelo seu interior com os olhos marcados pela alma.

Somos lagoenses na raiz de todos os nossos fazeres, desde os mais artesanais e genuínos (louça tradicional, presépios e sua arte bonecreira, cestaria, tecelagem, pastelaria típica), até aos industriais, comerciais e turísticos (fábricas, hotéis, alojamento local e restaurantes de qualidade).

No entanto, pela própria índole do nosso povo, mantivemos a nossa cultura e nossos valores, mais espalhados e divulgados do que os outros municípios, pelos países de emigração açoriana, nomeadamente, nos EUA e Canadá.

Sistema geopolítico-administrativo e população

Panorâmica da cidade de Lagoa em 2022 © CORTESIA MÁRIO NELSON

A situação geográfica do concelho de Lagoa, bem como a sua localização estratégica a meio caminho entre os concelhos de Ponta Delgada, Vila Franca e Ribeira Grande, na costa sul da ilha, a mais solarenga e menos húmida, coloca-o numa situação privilegiada, porque dali, mais rapidamente, podem partir e chegar fluxos turísticos em visita à ilha, à Lagoa.

As atividades administrativas e de serviços aos munícipes lagoenses centram-se na sua Câmara Municipal sediada na freguesia de Santa Cruz, com a representação política de uma presidente, um vice-presidente e cinco vereadores. Mas, o primeiro patamar do poder político é exercido pelas Juntas e Assembleias de Freguesia: são elas que ouvem as reivindicações de seus fregueses (moradores daquela jurisdição) e acompanham as respostas para o atendimento de suas necessidades básicas.

São cinco as Juntas de Freguesia no concelho de Lagoa: a de maior população é a do Rosário, seguida de acordo com o mesmo critério pelas de Água de Pau, Santa Cruz, Cabouco e Ribeira Chã.

Belas casas adornadas com cantarias de pedra – os principais exemplares datam do século XVIII e XIX – enobrecem o concelho e organizam-se pela cidade de Lagoa (Santa Cruz e Rosário) e Vila de Água de Pau.

Os templos religiosos são o testemunho das manifestações mais ricas e sofisticadas das construções locais. Todas as igrejas, distribuídas pela cidade de Lagoa, freguesias, localidades e vila de Água de Pau apresentam-se sempre com belos trabalhos de pedra lavrada, para não se falar da abundância das Ermidas e Impérios do Espírito Santo, manifestações de um gosto mais popular e genuíno, estes últimos.

Os dois conventos ex-libris da Lagoa, o de Santo António na freguesia de Santa Cruz e o outro na Caloura, em Água de Pau, são ambos classificados património regional. Ambos têm seu jardim com árvores centenárias e de grande porte.

O Convento e a Ermida da Caloura à beira-mar, com suas araucárias, espécie resistente à maresia e aos ventos, e metrosíderos, que florescem em junho e são pouso para o chilreio de aves e pequenos pássaros. Um lugar aprazível com o seu portinho e suas embarcações de boca-aberta, seu cais com zona balnear e restaurante, servem de sala de visitas aos seus residentes pauenses, aos lagoenses e a milhares de turistas que para ali ocorrem, durante todo o ano.

Os lagoenses orgulham-se do seu Porto dos Carneiros, seu passado e presente: devido ao seu cais com porta de entrada de barcos comerciais e de pesca. Tem bons restaurantes e nele também fica um clube náutico, por se tratar de um dos locais preferidos dos jovens para esta atividade.

Panorâmica da Vila de Água de Pau em 2022 © CORTESIA REMAX

Atividades económicas e profissionais

Ocupa-se a sua gente, nos serviços, na pesca, na construção civil, na agricultura e a pecuária tem um papel com algum peso económico mais recentemente pois no passado eram as vinhas e o cultivo do milho, trigo, e quintinhas as principais fontes de rendimento.

Os serviços constituem importante fonte de renda da população que preenche em menor número a área qualificada e técnica. O comércio tem vindo a crescer e vai dando resposta satisfatória às necessidades.

O turismo é a atividade em expansão, resultado da circulação de pessoas do continente, dos EUA, da Alemanha e de todo mundo – trazidas por barcos de cruzeiro e aviões devido às características de hospedagem constituída por bons hotéis, alojamento local e da oferta de restaurantes, cafés e bares.

O meu orgulho pessoal é de estar, como passageiro que sou, participando como empresário e ex-autarca, na manutenção dos valores da cultura popular lagoense e pauense que resultou, em grande parte, do meu trabalho desenvolvido como vereador e vice-presidente da Câmara Municipal de Lagoa, durante 20 anos. Mas esse é, sem dúvida, menor do que o de descendente, contribuindo com um pedacinho da história e memória coletiva do nosso povo, através das minhas publicações em livro, jornais e revistas regionais e dos EUA e Canadá.

Crónica publicada na edição impressa de abril de 2022

Categorias: Opinião

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