Log in

Jornal da Lagoa, a voz da cidade que transforma a memória em cidadania e identidade

Henrique Levy
Poeta e Ficcionista

Celebrar onze anos de vida de um jornal local é mais do que marcar a continuidade de uma publicação periódica, trata-se de reconhecer a força de uma comunidade que se pensa a si mesma e se espelha nas suas páginas onde encontra na palavra confirmação da sua memória e identidade. O Jornal da Lagoa não é apenas um repositório de notícias, mas um arquivo vivo da história quotidiana, da cultura e do desenvolvimento de uma cidade que, sendo singular no arquipélago açoriano, se distingue pela forma como conjuga tradição e modernidade, ruralidade e urbanidade, memória e futuro.

O jornalismo local, particularmente num concelho como o da Lagoa, cumpre a função essencial de dar voz a quem, de outro modo, ficaria silenciado pelos grandes meios de comunicação. Os jornais locais são os guardiões do detalhe, do gesto quotidiano, do acontecimento que parece pequeno mas que, no fundo, é o que constrói a verdadeira história de um lugar. Através do Jornal da Lagoa os munícipes reconhecem o valor da proximidade, perpetuando a memória coletiva que dá solidez à comunidade.

Ao longo destes onze anos, o Jornal da Lagoa tem sido um testemunho vigilante dessa realidade, inscrevendo nas suas páginas não apenas os factos, mas também os afetos, as lutas, as conquistas e os sonhos das gentes do Concelho da Lagoa.

Para compreender a importância deste percurso, é inevitável olhar para a história da própria cidade. Desde os primórdios do povoamento, que Lagoa foi marcada pela geografia e pelo trabalho árduo das suas gentes. Entre campos e marés, a cidade cresceu sem nunca perder o vínculo às suas raízes. Durante o século XIX e nas primeiras décadas do século XX, o concelho da Lagoa consolidou-se como um verdadeiro pólo de industrialização diversificada, onde a tradição artesanal se entrelaçava com a modernização agrícola e fabril. A fábrica do álcool, pilar da industrialização dos Açores, as olarias, os têxteis, os laticínios não só dinamizaram a economia local como permitiram o crescimento urbano, a coesão social e a construção de uma identidade económica singular, que continua a marcar, até aos dias de hoje, a fisionomia do território e o espírito das gentes do Concelho.

A maior originalidade da cidade de Lagoa, aquela que mais me atrai e fascina, é a ausência de um centro. Ao contrário de outras cidades açorianas, que se estruturaram em torno de uma praça central, Lagoa desenvolveu-se de forma descentralizada, como se fosse um arquipélago dentro do próprio concelho. As suas freguesias, com identidades próprias, teceram uma malha urbana em que nenhum ponto se impõe como centro absoluto. Esta característica, longe de ser uma carência, é uma riqueza. A Lagoa não se submete a uma centralidade imposta, organiza-se à sua maneira, numa pluralidade de núcleos vivos, cada um com as suas tradições, os seus ritmos e as suas formas de sociabilidade. É por isso que importa deixar um apelo claro aos atuais candidatos à Câmara Municipal, pedindo-lhes o bom senso de não caírem na tentação de propor a criação artificial de um «centro» para esta acolhedora e singular cidade. A Lagoa não precisa de se reinventar contra a sua própria natureza. A descentralização que a caracteriza é uma vantagem competitiva rara no contexto açoriano, pois permite maior proximidade da administração às populações, distribui melhor os equipamentos e as oportunidades, e cria uma cidade policêntrica, adaptada ao seu território e às suas gentes. Forçar a centralização seria amputar a identidade histórica e cultural de Lagoa.

As gentes deste Concelho são o maior testemunho dessa singularidade. Aqui convivem, em harmonia, estilos de vida distintos. O ritmo urbano dos que trabalham em serviços e comércio, a cadência do mar que molda os pescadores, e a tradição dos que se dedicam à lavoura à agricultura. Esta convivência, longe de gerar conflitos, é fonte de equilíbrio e riqueza cultural. Na Lagoa, o urbano e o rural, o marítimo e o citadino, encontram-se e complementam-se num convívio que é, em si mesmo, exemplar. É esta pluralidade que alimenta a alma coletiva e que se reflete na vida cultural e religiosa da cidade.

Nas freguesias, as festas religiosas assumem papel central. São momentos de comunhão, de partilha, de celebração da fé e da identidade. No Rosário, em Santa Cruz, em Água-de-Pau, no Cabouco, nos Remédios ou na Ribeira Chã, cada festa é mais do que um evento religioso, torna-se oportunidade e tempo de reconhecimento de uma comunidade em que os laços se reforçam e em que a tradições se projetam para as novas gerações. As procissões, os arraiais, a música e as celebrações em louvor do Divino Espírito Santo são marcas indeléveis de uma identidade que se constrói numa continuidade sempre a apontar para o Futuro.

O Jornal da Lagoa, ao longo destes onze anos, tem acompanhado estas manifestações, tem dado visibilidade ao que poderia cair no esquecimento. Ao fazê-lo, cumpre não apenas a função jornalística, mas também a função cultural de ser arquivo da memória viva. É por isso que celebrar os onze anos deste jornal é celebrar a própria cidade, a sua capacidade de se narrar e de se reconhecer nas palavras que a vão fixar na memória do porvir.

Numa época em que as redes sociais criam a ilusão de comunidade mas frequentemente geram dispersão, a imprensa local surge como um antídoto de coesão. A palavra impressa ou digital, partilhada em páginas que passam de mão em mão, continua a ser um espaço de encontro e de reflexão. É neste espaço que se articula o passado com o futuro, a identidade local com as exigências da modernidade.

O Jornal da Lagoa, deve a sua qualidade e pertinência editorial ao diretor Clife Botelho, que saúdo, e a todos os que com ele colaboram, tendo, ao longo destes 11 anos, contribuído para a construção da cidadania lagoense, contribuindo para o reforço do sentido de pertença e de unidade.

Saúdo o Jornal da Lagoa, fazendo votos de que venham mais anos de jornalismo local, atento e rigoroso. Porque a cidade de Lagoa, merece continuar a ser narrada por aqueles que nela vivem, trabalham e sonham.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

CAPTCHA ImageAlterar Imagem