“Isto toca em tudo e é uma guerra contra o desconhecido”

O novo coronavírus fez parar a Lagoa, o país e o mundo. A vida de cada um teve de ser reajustada e os empresários do concelho estão preocupados com o futuro dos negócios

Concelho ficou vazio e com a maioria dos estabelecimentos encerrados Foto DL

Ruas desertas, pessoas e carros recolhidos às respetivas casas. O cenário que se vive no país replicou-se também na Lagoa devido à Covid-19, classificada como pandemia pela Organização Mundial de Saúde, a segunda do século, depois da gripe das aves em 2009-2010.

No país, na Região e na Lagoa, o encerramento de locais sucederam-se.
No concelho, Câmara Municipal, pólos de informática, polidesportivos, campos de jogos, piscina, ginásios, casas de banho públicas e parques infantis fecharam portas.

Ficar em casa passou a ser regra e não excepção. O país, a Região e o concelho passaram a funcionar ao telefone e através da internet. Mas nem todos o conseguem fazer.

O impacto do novo coronavírus na economia da Lagoa ainda está por calcular mas já se sente e muito em todos os setores. “A economia estava a andar tão bem, cada vez a melhorar mais e agora esta paragem é um rombo enorme para toda a gente, toda a ilha está parada”, explica Rui Borges. O empresário da área da restauração foi dos primeiros a fechar na Lagoa, de forma temporária, ainda antes de ter sido decretado estado de emergência no país, e sem data de reabertura do seu negócio: “comecei a fechar por precaução e por prevenção, manter o restaurante aberto era uma irresponsabilidade minha”, garante o empresário que diz estar a perder, em média, cerca de 30 a 40 refeições diárias, o que costuma ter nesta altura do ano. No dia em que o Diário da Lagoa o entrevistou, via telefone, ele próprio tinha optado pelo isolamento social voluntário: “trabalhei com turistas e neste momento não tenho contato nenhum com a minha família, falo com eles por telefone”.

“Não sabemos que repercussões isto vai ter”
E quem vive do turismo, tem a vida ainda mais dificultada. Paulo Cordeiro é dono de uma empresa de transporte e animação turística. Ao Diário da Lagoa, o empresário mostrou-se muito preocupado com o negócio: “já tive mais de 40 cancelamentos e o número continua a aumentar”. “Ninguém estava preparado para isto”, lamenta.

O negócio de Augusto Pereira não está diretamente ligado ao turismo mas também vive dele. O dono da maior empresa de materiais de construção civil do concelho diz que “o cenário não é de todo otimista, não se sabe o que é que vai acontecer e como é que vai parar. Nós estávamos agora numa fase de crescimento do turismo, muita da nossa economia estava apoiada no turismo, no nosso caso particular em alojamentos locais, nos hotéis, remodelações, tudo dedicado ao turismo… e agora de repente isto e pára tudo”. O empresário lagoense não consegue ser optimista com o cenário atual: “isto toca em tudo e é uma guerra contra o desconhecido. Numa guerra real sentimos o tiro do lado direito e sabemos que o inimigo está ali do lado direito e vamo-nos esconder, aqui não sabemos. Não sabemos que repercussões é que isto vai ter, não sabemos nada”. Augusto Pereira diz que tem clientes construtores que já estão a parar algumas obras e a bola de neve é densa: “as empresas têm despesas todos os dias com funcionários, todos os dias temos de fazer face a pagamentos porque depois também se nós não cumprirmos os fornecedores também não nos enviam mercadoria e se não tivermos mercadoria não vendemos”, alerta.

Concelho tem 586 empresas registadas
Rui Borges defende que os empresários precisam de ajuda: “o governo tem de injetar dinheiro no mercado, se ele não fizer isto, vai tudo colapsar. Eu espero que o governo esteja atento e se lembre de quem ajudou os bancos na altura que foi preciso e espero que os bancos, com os encargos que eles têm por aí fora, que seja altura de eles nos ajudarem agora também”.

O Presidente do Núcleo de Empresários de Lagoa (NELAG) tem ouvido preocupações e receios cada vez mais frequentes. “Os empresários estão muito apreensivos porque não existe um fim imediato, há uma incerteza geral, não se sabe a duração disto e os efeitos que daí provêem”. Pedro Rodrigues garante que o organismo que lidera “tem uma voz reivindicativa” estando a “distribuir pelos associados informação no que diz respeito à prevenção da doença e em termos práticos informação técnica para as empresas sobre toda esta situação. Temos de gerir as coisas com uma aparente normalidade, que não existe, mas com calma vamos torcer para que as coisas se resolvam o mais depressa possível”, sublinha.
De acordo com os últimos dados do NELAG, o concelho tem 586 empresas. A Presidente da Câmara de Lagoa fala numa situação inédita no mundo. Cristina Calisto garante que “o Fundo Social de Emergência (FSE) serve durante o ano inteiro para socorrer aqueles que estão em situação de maior fragilidade, esse mecanismo continua à disposição das pessoas e será naturalmente reforçado para apoiar aqueles que vão ver os seus rendimentos reduzidos em virtude desta situação”. O valor do FSE foi aumentado para 200 mil euros.

Em relação às empresas, a autarquia prevê “uma isenção parcial da faturação da recolha de resíduos porque com menos clientes e menos produção, essa situação vai merecer a nossa atenção”, garante a autarca, durante março, abril e maio. Os munícipes terão um ajuste da tarifa da água, as famílias com comprovada carência económica serão isentas do pagamento de água bem como suspensas as atualizações das rendas de habitação social, entre outras medidas aprovadas em reunião de Câmara. O município optou ainda por cancelar vários eventos previstos para os próximos meses incluindo o In Lagoa, o Império de S. Pedro em Água de Pau e a festa de S. Pedro Gonçalves Telmo.

Sara Sousa Oliveira

(Reportagem publicada na edição digital de abril de 2020)

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