Inetese retoma aulas em cenário de “incerteza enorme” mas com experiência acumulada

Escola profissional retoma as aulas na terceira semana de setembro, num cenário ainda imprevisível devido à covid-19. A certeza é que abrirá com novos cursos e formações

Novo curso de auxiliar de saúde vai funcionar em parceria com o Hospital Internacional dos Açores que deverá ficar concluído este ano FOTO DL

Segunda-feira, 14 de setembro. É o dia que afiança alguma previsibilidade em tempos marcadamente imprevisíveis. É o dia previsto para a retoma das aulas presenciais no Inetese – Instituto de Educação Técnica Escola Profissional de Lagoa, localizada na Avenida Vulcanológica, na zona da Atalhada.

“O início do próximo ano letivo é de uma incerteza enorme”, começa por dizer ao DL o diretor pedagógico da escola, Jorge Marques, salientando a necessidade de alterar o normal funcionamento da instituição devido à pandemia da covid-19. O caso mais evidente nas mudanças tem a ver com o “número máximo de alunos por sala” – “há que cumprir o distanciamento social” –, um número que ainda não está definido. “Em tempo oportuno haveremos de encontrar resposta”. Para já, uma certeza: serão cumpridas “escrupulosamente todas as orientações emanadas das entidades competentes”.

Ainda assim, todos os cenários estão em cima da mesa. “Temos de saber lidar com esta incerteza”, realça o diretor, que não “descarta a possibilidade de as escolas voltarem a encerrar” – até porque pode ocorrer uma segunda vaga do surto da covid-19. Se assim for, a escola está mais preparada para recorrer ao ensino à distância. “Não sendo fácil, a acontecer, acredito que será mais fácil porque há um capital de experiência acumulado, há um percurso realizado e as experiências vividas serão uma mais valia para enfrentarmos aquilo que são os desafios futuros”.

As “experiências vividas” de que fala o diretor da escola dizem respeito às consequências da pandemia no funcionamento do Inetese. A 15 de março, a escola encerrou, tal como tantas pelo país afora. “Tivemos de enveredar pelo ensino à distância, mas a escola não estava preparada. Não só a escola, mas os professores e os alunos”, refere. Mas, perante as adversidades, o diretor garante que a resposta foi “rápida” e eficiente”, graças à “mobilização de todos”, num trabalho “exigente” de “adaptação a uma nova realidade”.

Entre os desafios, houve um em particular que afetou diretamente os alunos. Faz parte da planificação do curso a realização de um estágio, uma parte importante da componente letiva. Com tudo encerrado, o estágio teve de ser substituído por uma “prática simulada”, uma forma de “responder aos imperativos legais”, cumprindo a legislação e “dando todas as condições aos formandos”. Os alunos de animação turística, por exemplo, tiveram de realizar um vídeo de promoção da ilha de São Miguel, conforme um conjunto de orientações. No balanço da pandemia, Jorge Marques faz questão de destacar o trabalho da administração regional, que “soube transmitir” as “orientações específicas” para garantir o “superior interesse dos alunos”. “O balanço é francamente favorável, conseguimos vencer os constrangimentos provocados pela pandemia”, garante.

Um novo curso para o futuro
A pandemia também teve outro tipo de impactos no instituto – e uns até foram positivos. Vendo uma oportunidade na dramática situação dos muitos trabalhadores que se encontram em lay-off, a Inetese pretende organizar “com alguma brevidade” formações destinadas aos funcionários naquela situação. “O objetivo é os trabalhadores estando em lay-off terem uma oportunidade de adquirir novas competências, dando também resposta capaz aos empresários”, afirma o diretor, sem, no entanto, especificar o conteúdo dos cursos previstos.

Além desta formação, a escola irá abrir um curso novo para próximo ano letivo: o curso de auxiliar de saúde, que terá a duração de três anos. Um curso que nasceu articulado a um dos maiores projetos previstos para os próximos tempos no concelho da Lagoa. Correção: a um dos maiores investimentos em toda a região. “O curso de auxiliares de saúde está pensado em resultado de uma parceria estratégica que a escola dispõe com o Hospital Internacional dos Açores, que se estima que abrirá portas a partir de novembro próximo”. Resultante dessa estratégia, os alunos poderão fazer estágio no futuro hospital privado, que ganha “profissionais altamente qualificados”, profissionais estes de que “irá precisar em número significativo”. Um curso que já tem “vários candidatos em lista espera”.
Além deste, o Inetese oferece outros três cursos: técnico de vendas, rececionista de hotel e técnico de distribuição. No total, a escola prevê receber cerca de 76 alunos no próximo ano letivo, mas o número poderá aumentar em virtude da “tipologia das formações”. “É expectável que venha a aumentar”, diz, referindo-se à previsão de 76 alunos.

As escolas profissionais
Fez em fevereiro um ano desde que o Inetese se instalou no antigo edifício da pousada da juventude da Lagoa. É a sede do instituto que também tem um polo em Angra do Heroísmo. É uma das 17 escolas profissionais situadas nos Açores – segundo o portal da educação do Governo Regional. E, Jorge Marques não tem dúvidas: a região ganharia se o número de escolas profissionais aumentasse. “A região tem muito a ganhar com uma diversidade e desenvolvimento do ensino profissional”, diz o professor, defendendo, que, para isso, devia ser dada às escolas a opção de as escolas aumentarem a oferta letiva, através da “aprovação de um maior número de cursos”.

Entre as vantagens do ensino profissional, o diretor pedagógico da Inetese destaca o “caráter prático” das aulas, que permite aos alunos ficarem aptos às “exigências do mercado de trabalho”. Além da conclusão do 12.º ano, os cursos oferecem a “possibilidade de ingresso no ensino superior” e fornece aos alunos uma “bagagem muito significativa”. Uma bagagem “que lhes poderá dar uma vantagem” aquando da frequência na universidade. “É a minha opinião, vale o que vale, mas estou convicto disso: o ensino profissional tem qualidade superior àquele que tem sido desenvolvido nas escolas ditas de ensino regular”.

Para o professor, o ensino profissional poderia ser uma aposta para combater os frágeis níveis de educação nos Açores, região que apresenta a taxa de abandono escolar precoce mais elevada do país (27%, enquanto a média nacional foi de 10,6% – dados da Pordata). Para justificar a posição, Jorge Marques recorre à própria experiência, uma vez que a escola recebe “todos os anos” uma “grande quantidade de jovens” que “não foram bem-sucedidos no ensino secundário”. “Uma parte significativa desses alunos malsucedidos acaba por ingressar no ensino profissional e acaba por ser bem-sucedido, porque cumprem com os seus deveres no domínio aprendizagem e concluem o curso no tempo devido”.

Rui Pedro Paiva

(Reportagem publicada na edição impressa de setembro de 2020)

Categorias: Educação, Reportagem

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