Grutas do Convento com presépio contemporâneo

Instalação, da autoria de arquiteta açoriana, está aberta ao público de forma permanente na parte inferior do Convento de Santo António em Santa Cruz e pretende ter novidades todos os anos

Presépio mistura bonecos tradicionais com elementos de madeira, ferro e corda Foto DL

Os dois túneis, feitos em madeira, têm formas geométricas e não passam despercebidos por entre o verde do Jardim de Santa Cruz. São eles que dão acesso às grutas centenárias que levam ao presépio.
As estruturas em criptoméria japónica foram pensadas e desenhadas por Sónia Pereira, 40 anos. “São um pouco minimalistas, são em origami e têm haver com o Japão, tal como a criptoméria”. A arquiteta de interiores, natural dos Fenais da Luz e com atelier na Lagoa, diz que é um regresso às origens. Não hesitou em aceitar o projeto porque “sempre foi um sonho fazer um presépio”, garante. Começou por perceber “quem é a Lagoa” e daí partiu para criar apercebendo-se desde logo da forte ligação da cidade ao mar e à pesca. Ficou a saber da existência de armadilhas usadas de forma ilegal na pesca, que tinham sido apreendidas e iam para abate. Falou com a polícia marítima, que cedeu o material, e daí começou a narrativa que quis contar.
Para além das armadilhas em ferro, recorreu também a redes de tecido usadas, a motores que permitem girar as peças, ao fio de seda e à madeira que acaba por ligar todos os elementos. A arquiteta pretende alertar para a poluição dos mares, sublinhado a questão didática do trabalho ao qual dedicou os últimos 6 meses: “a ideia era mostrar às pessoas que através de uma base de trabalho errada [as armadilhas] foi possível transformar o ilegal em belo e bonito”. A visão da autora é partilhada por quem acompanhou de perto o desenrolar do projeto.

“Isto é quase um brinquedo”
Quem o diz, Igor França, não esconde ter ficado maravilhado com o resultado: “sinto-me um miúdo a olhar para um brinquedo com o qual apetece brincar mas depois está ali uma rede que nos impede”. O coordenador da área da cultura da Câmara Municipal da Lagoa realça o aspecto ecológico do presépio, sublinhando que é simultaneamente pedagógico e contemporâneo.

“Lagoa Cidade-Presépio”
A arte bonecreira faz parte da cultura lagoense há várias décadas. A vereadora da Câmara da Lagoa, responsável pela Cultura, não teve dúvidas de que as duas grutas do Convento de Santo António eram o sítio ideal para um novo presépio: “achei-as tão bonitas e localizadas num sítio tão aprazível” que decidiram avançar para um presépio diferente dos que já existiam em São Miguel. Foi feita uma avaliação do local e, depois de reunidas todas as condições de segurança, a obra de ampliação das grutas prosseguiu, ficando cada uma com cerca de 12 metros quadrados de área útil.

Para o Presidente da Junta de Freguesia de Santa Cruz a instalação “é uma mais-valia, porque foram aproveitados dois espaços-mortos que estavam a servir apenas de arrecadação, para se fazer um presépio contemporâneo”. Sérgio Costa lembra que, com mais um presépio na freguesia, os visitantes acabam por ter um cardápio cultural ainda mais rico.

Duas grutas, duas linguagens onde “o menos é mais”
A arquiteta responsável pelo presépio quis mostrar duas realidades. Num dos espaços, projetou hábitos e costumes tipicamente açorianos como as romarias, a matança do porco ou o retrato de algumas profissões, sempre recorrendo aos bonecos tradicionais da Lagoa. Na segunda gruta, onde está retratada a natividade, Sónia Pereira quis mostrar “uma época leve” porque, segundo a arquiteta, a época de jesus Cristo é “a que traz a alegria desta altura do ano, daí ser um cenário mais despido onde o menos é mais”.

Sónia Pereira é arquiteta de interiores e tem atelier no Nonagon Foto DL

“Fui um pouco atrevida”
É com um sorriso que a artista vai explicando o porquê das coisas. Admite que a base contemporânea foi o principal ponto de partida mas deixa escapar que foi “um pouco atrevida”. Para Sónia Pereira “desde cedo que todos identificamos quem é a figura de Jesus Cristo, quem é Maria, quem são os pastores” e portanto não sentiu necessidade de marcar o género dos personagens nem atribuir-lhes as características habituais. Recorreu a bonecos articulados de madeira, que tantas vezes usou nas suas aulas de arquitetura e recriou moldes de forma contemporânea. A arquiteta acredita que devido à posição e enquadramento das figuras, “até as crianças identificam o nascimento, a fuga, a chegada dos três reis magos”, sem ser necessário os tradicionais adereços ou a distinção de cor ou género.
O novo presépio do Convento de Santo António é permanente, está aberto ao público todo o ano e integra o Núcleo Museológico do Presépio. Para a vereadora da cultura, Albertina Oliveira, é “mais do que um presépio de época” e por isso espera ter uma novidade todos os anos.

Sara Sousa Oliveira 

(Reportagem publicada na edição impressa de janeiro de 2020)

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