“Gosto mais de dizer que de pequenino é que se forma o menino”

Substituir os manuais físicos pelos digitais, investir cedo no autoconceito da criança, continuar a dar autonomia às comunidades educativas e entregar novas ferramentas aos professores para que menos alunos deixem as escolas açorianas precocemente. As considerações da secretária regional da Educação e Assuntos Culturais, Sofia Ribeiro, na entrevista que dá ao Diário da Lagoa, sobre um arquipélago onde os indicadores de um dos grandes pilares da democracia, estão no vermelho

Sofia Ribeiro tem 45 anos, já foi deputada no parlamento europeu e é secretária regional da Educação e Assuntos Culturais © DL

Recebe-nos no seu gabinete, no edifício da Biblioteca Pública e Arquivo Regional de Ponta Delgada,  com um pedido de desculpas porque tinha havido uma confusão de agenda – com duas pastas sob a sua tutela, a da Educação e a da Cultura, os dias têm horas a menos para aquilo que tem pela frente. Por termos exatamente meia hora até ser ouvida numa comissão parlamentar online, pelos deputados regionais, foi milimétrica no cumprimento do tempo que tinha para a entrevista com o DL.

Sofia Heleno Santos Roque Ribeiro tem 45 anos e nasceu em Ponta Delgada. Começou por ser professora de matemática, há mais de vinte anos. “Nunca tive necessidade de ficar colocada noutra ilha”, garante. Durante cinco anos, entre 2014 e 2019, foi deputada no Parlamento Europeu. Está nos quadros da Escola Secundária de Lagoa mas desde que tomou posse como deputada regional pelo PSD/Açores, em 2020, e depois como secretária regional da Educação e Assuntos Culturais do executivo de José Manuel Bolieiro, desdobra-se em compromissos, quase sempre fora das quatro paredes de uma sala de aula.

DL: Foi sindicalista?
Fui sindicalista durante vários anos. Entrei para a direção de um dos sindicatos docentes em 2004, depois em 2005 fui convidada a integrar a direção a tempo inteiro. Houve uma altura em que ao início ainda fazia uma perninha na escola mas já com horário de trabalho quase na sua totalidade dedicado à ação sindical.

DL: Considera que o facto de ter sido professora a faz olhar para a Educação de uma forma privilegiada?
Se me permite, não só como professora mas também como sindicalista. Sim, isso permite-me ter um olhar de dentro, saber o que é que a casa gasta, quais são as necessidades da própria escola e fazer um trabalho mais terra a terra com a percepção daquilo que são as necessidades do terreno. Não termos uma política utópica e descentrada da realidade mas sim, também, ambiciosa, sonhadora, com a percepção de quais são as dificuldades e os obstáculos mas também as potencialidades. 

DL: A Educação sempre foi um parente pobre dos vários governos dos Açores? 
Não posso dizer que tenha sido o parente pobre em termos de investimento, pelo contrário. Ainda é uma área em que é preciso investir muito mais. E houve ao longo das últimas décadas – e já que nos comparamos com o início da autonomia – uma evolução muito significativa a nível nacional e depois com repercussões nos Açores, desde logo com o alargamento da escolaridade obrigatória. Não nos esqueçamos que os nossos pais frequentaram uma escola numa altura em que não se valorizava a escola. O ensino era até à antiga quarta classe, depois passou gradualmente a ser estendido. Só as famílias com mais posses financeiras tinham possibilidades de colocar as famílias a estudar e hoje vivemos nos antípodas disso. Isso não quer dizer que a região não tenha que trilhar um percurso muito vincado porque nós estamos, no que concerne a indicadores escolares, na cauda do país e da Europa. A realidade é que partimos de uma situação muito negativa e portanto é natural que ainda tenha que ser feito um percurso muito ambicioso nessa área. 

DL: Qual é o seu principal desafio neste momento?
São tantos e vários e tão diversificados. A promoção do sucesso educativo, sem dúvida que é um grande desafio que depois tem, numa fase posterior, uma repercussão do abandono escolar precoce. É nosso entendimento que a intervenção tem que ser feita ainda antes de haver insucesso. Daí termos centrado muitos dos nossos projetos educativos no primeiro ciclo do ensino básico e logo nos primeiros dois anos de escolaridade. Diz o povo que de pequenino é que se torce o pepino. Gosto mais de dizer que de pequenino é que se forma o menino. É com a noção do próprio autoconceito que a criança desenvolve a sua habilitação na escola. Logo nas primeiras semanas e meses vai condicionar a sua postura na escola sendo mais difícil alterá-la se ela for uma auto-imagem negativa, daí nós termos de avançar o quanto antes para não darmos espaço à construção dessas imagens.

DL: Os primeiros anos da criança no meio escolar são fundamentais para o sucesso escolar?Indubitavelmente. Sem prejuízo de ter de ser feito um trabalho ao longo de todo o percurso escolar, aquilo que nós não podemos continuar a trilhar são percursos em que os programas de intervenção são feitos no final de ciclos de ensino. Daí estarmos a construir uma estratégia de educação para a década com os grupos políticos em que pretendemos definir metas e estratégias não apenas de final de ciclo mas também intermédias para irmos fazendo o acompanhamento e avaliação da evolução dos alunos e do sistema educativo como um todo.

DL: De acordo com a opinião de alguns agentes educativos, a escola está demasiado burocratizada. É um objetivo do Governo regional simplificar isso?
Já estamos a trabalhar com a produção legislativa precisamente nesse sentido, para além de todo um sistema de organização que é mais operacional. No que concerne à revisão legislativa, o exemplo mais concreto, nesta fase será a revisão do regime jurídico da criação, autonomia e gestão das unidades orgânicas que nos encontramos a negociar com os cinco sindicatos representativos do pessoal docente e da ação educativa. Ele próprio já contém normas muito práticas de desburocratização e agilização dos processos.

DL: De acordo com os censos, ainda de 2011, a Lagoa é o concelho açoriano onde a taxa de abandono escolar é a mais elevada. O que o Governo regional prevê para este concelho, e para outros dos Açores, onde há alunos a deixar a escola precocemente?
Deixe-me fazer uma separação entre o abandono escolar per si e o abandono escolar precoce. Deduzo que estejamos a falar de abandono escolar precoce que é aquele entre os 18 e os 24 anos, dos indivíduos que, nessa faixa etária, não completaram o ensino secundário, não se encontram a fazer qualquer tipo de formação e portanto desistiram da escola. Nos próximos meses contamos apresentar à população em geral essa nossa proposta que será feita a par do estatuto da carreira docente, também com uma revisão, quer do conteúdo funcional, quer o horário de trabalho, quer das condições de progressão de carreira, recuperação de tempo de serviço que possam depois habilitar o sistema educativo de uma outra forma. Para além disso, estamos a integrar o pensamento computacional logo no primeiro ano de escolaridade. 

DL: O que isso significa, na prática?
O pensamento computacional é uma área transversal. Não tem haver apenas com computadores ou computação. É uma forma de organização do nosso próprio raciocínio que nos permite trabalhar a abordagem de problemas, a própria comunicação, a verbalização. Podemos decompor os problemas, analisá-los de forma diferente, tem implicações nas mais diversas áreas. Foi anunciada pelo Governo regional como uma prioridade de intervenção. Este ano foi um ano zero no desenvolvimento computacional nos Açores, em que tivemos uma equipa de professores a receber informação com o professor universitário que lançou esse programa e o certificou cientificamente. Também temos alguns professores de informática para implementar o pensamento computacional. Ele vai arrancar já no próximo ano, no primeiro ano de escolaridade, na nossa região. 

DL: Vai arrancar onde?
Na maioria das escolas. Ainda a semana passada tivemos uma reunião com todos os presidentes dos conselhos executivos em que se está a organizar a forma como vai arrancar.

Nós estamos a reestruturar
profundamente o processo educativo,
é sem dúvida um grande desafio”

SOFIA RIBEIRO

DL: Olhando para a forma de exposição e avaliação dos conteúdos de há 15 anos, por exemplo, para a atualidade, não se notam grandes diferenças. Como é que se cativam os alunos para um ensino menos aborrecido e mais atrativo?
Os alunos estão sedentos de novas experiências. É preciso potenciarmos novas experiências, e essencialmente o pessoal docente, para esse trabalho. A forma como damos aulas hoje em dia é totalmente diferente da forma como tivemos as nossas aulas. Sendo professora de matemática, vou dar um exemplo de matemática. Eu aprendi que o quadrado da hipotenusa é igual à soma dos quadrados dos catetos. Depois fomos aplicando essa fórmula sem entender muito bem, na resolução de problemas. Hoje em dia já é feita uma abordagem com os alunos em que eles apreendem e são eles próprios que chegam à fórmula do Teorema de Pitágoras. Eles inferem essa fórmula, são conduzidos a perceber isso e a partir daí resolvem os exercícios. O foco da aprendizagem é completamente diferente. O ensino está muito mais orientado para partir da condição do indivíduo e não daquilo que é a escolástica pura e dura. Implica um grande investimento na formação dos professores que não tem acontecido nos últimos anos. Nós ao nível da revisão do estatuto da carreira do docente queremos alterar essas próprias condições. Também estamos a trabalhar na certificação de módulos de formação de muito curta duração, porque às vezes há sessões, até webinars, de muita qualidade, de poucas horas e entendemos que faz todo o sentido incentivarmos o pessoal docente e o pessoal de ação educativa para esse tipo de formação. E, depois, é preciso darmos outras condições em termos de gestão de horário, da própria dinâmica da sala de aula e até mesmo de equipamentos. O uso das tecnologias — que não vou chamar de novas, porque de novas já nada têm —, pode e deve ser potenciado nas nossas escolas. 

Temos um projeto muito ambicioso a esse nível, temos estado a dotar as escolas de mais equipamento. Só no caso da Lagoa, no ano civil passado, as escolas foram dotadas de mais de 150 equipamentos, entre tablets e portáteis. Estamos a investir também na desmaterialização dos manuais escolares, com um programa de manuais digitais. No próximo ano letivo os alunos do quinto e do oitavo ano de escolaridade já vão ter disponíveis manuais digitais. O manual digital não é somente a reconversão de um livro para um PDF que é lido através de um tablet ou de um portátil, consoante o ano de escolaridade. Permite-nos trabalhar as práticas na sala de aula de uma forma totalmente diferente. É termos automaticamente o feedback da avaliação da nossa turma com outras metodologias de avaliação que também possam ser percepcionadas pelos encarregados de educação. Depois, todas as dinâmicas de acesso a vídeos que serão muito mais facilitadas. Para além disso, também, já avançamos com um concurso para a aquisição de equipamentos manipuláveis de inteligência artificial. A título exemplificativo, com a aquisição de óculos tridimensionais e com um cubo nas nossas mãos que, entretanto foi programado para representar um coração humano, o aluno pode, manipulando aquele cubo, com os óculos colocados, estar a ver um coração humano e consegue ver o coração a três dimensões. Essa aprendizagem que vai buscar outros sentidos, e vai trabalhar outros sentidos do aluno, é muito mais significativa para a criança, alarga o leque da possibilidades de sucesso. 

DL: Como é que vê, por exemplo, a comunidade de aprendizagem “Novas Rotas”?
É um projeto de inovação pedagógica que está em vigor na escola das Capelas já há vários anos. Funciona bem, pela avaliação que nós temos colhido, sendo um projeto de inovação pedagógica é fortemente acompanhado de avaliação, em que há intervenção da Direção Regional da Educação. Entendemos que, naquele contexto, faz todo o sentido potenciarmos esse projeto. Parte da autonomia da própria escola, da dinâmica de toda a comunidade. É um bom exemplo de como a administração educativa deve interagir com as escolas numa base comum que é o desenvolvimento curricular, obviamente de organização de todo o pessoal docente, não docente, da gestão financeira também, mas, em que os próprios projetos pedagógicos têm uma base que seja definida pela própria escola no âmbito da sua autonomia.

DL: Há margem para que mais comunidades escolares possam adotar esse tipo de ensino e modelo educativo?
Sim, o atual regime jurídico que está em vigor, já o permite, e nós vamos mantê-lo nesta nova redação. Valorizando as próprias dinâmicas das escolas, no que concerne a projetos pedagógicos. Sabemos de outras escolas que estão interessadas em desenvolver projetos semelhantes, mas, lá está, tem que ser uma iniciativa que tem que partir de toda a comunidade escolar e não da Direção Regional [da Educação].

DL: É importante dar essa liberdade às escolas?
É fundamental e fizemos isso com os nossos projetos educativos e até mesmo com todas as ações de formação que estavam a ser desenvolvidas. Temos de criar as condições para que elas possam existir, a escola adere se entender que aquele projeto é relevante para o seu plano de escola, não há a imposição de nenhum programa. Mesmo o pensamento computacional de que falávamos há pouco, constituindo uma aposta do Governo regional, as escolas aderiram na medida dos seus interesses. Aquilo que verificamos é que mais vale nós começarmos de uma forma mais tímida numa primeira fase e que depois decorrente desse projeto possa haver sucesso para que outras escolas possa depois apreender e perceber a importância desse mesmo projeto na comparação e partilha de boas práticas.

DL: Consegue conceber uma escola sem exames ou sem testes?
Sim, conseguimos conceber essas escolas, mas é preciso termos muita atenção na forma como é feita a seriação depois dos alunos no acesso ao Ensino Superior. O trabalho dos alunos não se cinge aos testes. Há todo um trabalho de formação e avaliação contínua que deve ser feito e as nossas escolas cada vez mais o fazem. Continuamos a ter um sistema de aferição das capacidades dos alunos por via de exames, essencialmente ao nível do acesso ao ensino superior. É uma discussão que temos de ter, eu sei que o Ministério da Educação está com vontade de lançar essa discussão a nível global, mas isso implica também uma própria reformulação do Ensino Superior.

DL: O ensino profissionalizante tem bastante peso nos Açores. Deve ser valorizado?
Cada vez mais. Aliás, os estudos internacionais mostram que os alunos que possuem só o nível secundário de educação e que vêm dos cursos profissionais têm mais empregabilidade e são mais bem pagos do que os alunos que vêm do ensino regular normal. Ao nível dos Açores esse trabalho de potenciação do ensino profissional tem vindo a ser feito. Nós temos que romper com um estigma de que o ensino profissional é para os alunos que não tiveram sucesso no ensino regular. Tem de ser precisamente o contrário. Temos de ter um sistema de ensino em que os cursos se entrecruzem, sem dúvida que o ensino profissional tem que ser potenciado.

DL: Enquanto secretária regional da Educação e Assuntos Culturais, qual é a melhor parte do seu trabalho?
É tão difícil esta parte [suspiro]. Nós temos bocadinhos de melhor em várias coisas. O reconhecimento por parte dos colegas e dos pais, obviamente, não vou negar que é muito bom verificarmos, quando existe. Nós estarmos a reestruturar profundamente o processo educativo, é sem dúvida um grande desafio, tanto mais que o estamos a fazer em diálogo de permanente concertação social e, também, com a participação e abertura dos partidos da oposição.

Sara Sousa Oliveira

Entrevista publicada na edição impressa de julho de 2022

Categorias: Entrevista

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