Gorete Andrade. Há 25 anos a fazer da roupa uma forma de artesanato

A lagoense Gorete Andrade mantém o atelier na estrada regional de Santa Cruz. Dali saem os únicos fatos de patinagem e de ginástica feitos nos Açores. É um trabalho artesanal na roupa

Gorete Andrade tem 49 anos e formou-se no Porto FOTO RUI PEDRO PAIVA

Cá fora, a pintura na parede anuncia o atelier de costura e tecidos. Lá dentro, entra-se e um longo balcão lateral mostra-se repelo de camisas, saias, vestidos, túnicas e semelhantes. Atrás, uma prateleira encontra-se preenchida por tecidos de todas as cores e texturas. No meio, uma longa mesa de trabalho serve de suporte às linhas, aos fios, às agulhas e, claro, a mais tecidos. Atrás, uma estante, que ostenta um rádio clássico no topo, guarda recortes de revistas, jornais, catálogos de roupa e moda.

A descrição é do atelier de Gorete Andrade, na estrada regional, em Santa Cruz. Ela, lagoense, que faz tudo o que envolva tecidos: desenha, cria e arranja. É costureira, designer e estilista. Ela que este ano cumpre 25 anos de carreira. Uma carreira que nasceu naquele atelier, em 1995, que foi para o centro de Ponta Delgada, para o Centro Comercial Sol-Mar, em 2010, e que regressou à base em 2016. “Tem sido um percurso com altos e baixos, com alturas boas e outras mais ou menos. Mas em nenhum tempo deixei de ter serviço”, diz ao Diário da Lagoa.

Mas nessa história de 25 anos é preciso puxar o filme atrás. A paixão da costura veio da família: a madrinha e a tia-avó costuravam e a mãe bordava. “Isso teve influência. Eu gostava de estar ali ao pé delas”, recorda, explicando que, “sempre” teve “um gostinho” por aquelas lidas. À vivência familiar, juntaram-se dois momentos que iriam moldar o seu futuro. Um nasceu fruto da necessidade: “houve uma altura que queria uns fatos de banho, umas coisas diferentes, e não conseguia, não tinha nada cá e as costureiras não sabiam bem fazer esse tipo de coisas”. O outro nasceu do encanto por aquele mundo: “certo dia vi um desfile na televisão e aquilo mexeu comigo”.

Foi fruto desse contexto que percebeu que queria seguir a carreira de costureira. Foi o que fez. Tinha 19 anos e o 12.º ano concluído e foi para o Porto estudar costura, sobretudo na área da modelagem e da confeção. O curso de três anos ficou concluído, mas Gorete ainda queria mais. Tirou mais um curso, na área do estilismo, ainda na cidade invicta, onde recorda os professores que teve e que hoje são figuras marcantes da moda nacional. “Tive, por exemplo, o Nuno Gama e o Luís Buchinho como professores. Nomes que na altura estavam a lançar-se no mundo da moda. Foi muito bom para mim”, diz, salientando que os ensinamentos a fizeram “saber olhar para as peças”.

Fato de patinagem artística feito por Gorete Andrade FOTO DR

“Artesanato na roupa”
Acabado o curso, ainda pensou ficar pelo Porto. Mas sobretudo por razões pessoais – ia ser mãe – não teve pejo em regressar a casa. Aproveitou o espaço vazio que tinha na sua terra e montou o atelier – onde ainda o mantém. No início, “foi devagarinho”. Depois foi explorando “nichos” de um mercado que a permitia materializar toda a sua criatividade em tecido. Ganhou clientes ao criar peças para companhias de teatro, vestidos para noivas e fatos para a patinagem. Mais tarde começou a criar também a indumentária para as ginastas aeróbicas. Sim, aqueles fatos exuberantes, recheados de brilhantes são todos feitos pelas mãos de Gorete – pelo menos em São Miguel. “Apesar de haver lá de vez em quando uma ou outra que vai fazendo, pode-se dizer que sou a única a fazer aqueles fatos cá”. Uma parceria de sucesso, quer com a ginástica, mas “sobretudo” com a patinagem. Parceria que dura até hoje.

“A patinagem começou a ter mais força, depois apareceu o ginásio”, explica, referindo que nunca deixou a confeção, mas que são aqueles trabalhos específicos os que mais gosta de fazer. “Com esses fatos de patinagem, faço realmente o que gosto. Essa parte artística é o que eu gosto mesmo muito de fazer”. Um fato pode ir dos 60 até aos 150 euros e resulta das ideias de Gorete em conjunto com os pais e os professores. No final, tem de “equilibrar tudo”: preços, materiais e produto final.

Ao longo do tempo, também tem criado várias indumentárias para casamentos (“visto noivos, madrinhas, tudo”) e para as marchas de São João. Mais trabalhos que, apesar das “dificuldades” que o material exige, lhe permitem explorar a criatividade. São estes os trabalhos que lhe enchem as medidas – nesse caso, literalmente. “É um trabalho minucioso, é quase um artesanato na roupa, é preciso ter muita paciência, mas eu gosto bastante”.

Paciência e boa-vontade
Com uma parte das vendas dirigidas para marchas, casamentos e acontecimentos desportivos, o negócio de Gorete Andrade sentiu os impactos da pandemia da covid-19. “Ficou tudo em stand-by, ficou tudo para o ano”, diz, ressalvando que conseguiu “ir gerindo”. “Aproveitei para descansar, agora é trabalhar”. Os trabalhos que mais gosta já voltaram, uma vez que há uma competição de patinagem marcada para 10 de outubro, pelo que já começou a “começar a orientar” os fatos.

Fora isso, continua a aceitar praticamente todas as encomendas. Faz de tudo, garante. Isto numa profissão que parece cair cada vez mais em desuso. “Antigamente”, diz, as pessoas apostavam mais nas costureiras, até porque “compravam-se roupas de bom material”. Ainda assim, defende, a pertinência do trabalho de costureira continua atual. “Eu faço muita reciclagem. Pessoas que chegam com roupas mais antigas e a gente ajusta, corta no comprimento e isso é bom porque aproveitamos o material”. O que leva à pergunta seguinte: em termos financeiros, esses arranjos ainda compensam quando as roupas de pronto a vestir são em cada vez maior número? “Claro que sim”, responde Gorete, acrescentando em seguida: “compensa com os meus preços, só posso falar de mim”, diz, entre risos.

Para se renovar, tem apostado nas redes sociais e diz existirem “umas ideias para começar a vender roupa online”. Tentativas de remar contra a maré num ofício que a própria diz “poder estar em vias de extinção”. “Pode estar em vias de extinção porque as escolas profissionais não estão a apostar muito. Já tivemos cá cursos, há uns anos, mas houve muitas falhas” diz, defendendo a aposta na formação de costureiras e estilistas. Isto porque, apesar de ser “difícil” manter um negócio desses numa “terra pequena”, há sempre espaço para tudo. “Dá para fazer tudo aqui. É preciso é um bocadinho de paciência e boa vontade”.

Rui Pedro Paiva
(Reportagem publicada na edição impressa de outubro de 2020)

Categorias: Reportagem

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